Houston, temos um recorde: a fase mais crítica da viagem da Artemis II contada (e vista) ao pormenor

António Guimarães , AM com Lusa - notícia atualizada às 8:00
7 abr, 03:11

Recordes e momentos únicos numa viagem inesquecível

O relógio batia as 00:27 em Portugal quando chegou o alívio e a festa. A nave Orion voltava a essa hora a contactar com o centro de controlo da missão Artemis II, confirmando o primeiro grande sucesso, depois de cerca de 40 minutos de interrupção programada nas comunicações, algo que não acontecia há mais de 50 anos, mas desta vez de forma ainda mais histórica.

É que os quatro astronautas a bordo chegaram nesse mesmo período aos 406.771 quilómetros de distância da Terra, de acordo com as contas da NASA, agora o novo recorde e o mais longe que o Homem já esteve de casa, depois de a Apollo 13 ter estabelecido, em 1970, a fasquia um pouco abaixo disso.

“É tão bom ouvir da Terra novamente”, exclamou a astronauta Christina Koch, cujo rosto é visto na fotografia de capa deste artigo, no restabelecer das comunicações, anunciando que a tripulação conseguia ver novamente Ásia, África e Oceânia.

“Daqui dá para olhar para cima e ver a Lua neste momento. Também vos vemos a vocês”, acrescentou, deixando depois uma das frases de toda esta missão: "Quando lançámos esta chama em direção à Lua, eu disse que não deixaremos a Terra... Iremos inspirar, mas, em última análise, escolheremos sempre a Terra, escolheremos sempre uns aos outros".

Tudo isto minutos antes de nova história. É que eclipses solares vão-se contando aqui e ali da Terra, mas vê-lo do lado de lá é outra coisa.

E foi isso que quem ia a bordo da Orion pôde testemunhar, em novo feito inédito da espécie humana. É que, segundo a NASA, nunca uma pessoa tinha visto um eclipse solar daquela perspetiva.

Na prática, este fenómeno acontece quando o sol passa atrás da Lua, algo que acontece algumas vezes nas nossas vidas, mas que nunca ninguém tinha visto em pleno espaço. Pelas 01:35 aconteceu e durou quase uma hora, com os astronautas a terem direito a óculos especiais para o efeito, sendo que planetas como Vénus, Saturno, Marte ou Mercúrio também ficaram visíveis durante o fenómeno.

“É uma vista impressionante. Wow, é espetacular”, soltou Victor Glover, também ele a bordo da nave espacial, durante o eclipse solar, que também permitiu destacar o brilho de várias estrelas e até, imagine-se, da Terra.

"Vemo-nos do outro lado": o antes do apagão

Os quatro astronautas da missão Artemis II ficaram incontatáveis enquanto passaram pela face oculta da Lua, anunciou a NASA, num movimento planeado pela tripulação que bateu o recorde de distância da Terra.

“Vemo-nos do outro lado”, declarou o astronauta Victor Glover, da nave Orion, numa chamada com a sala de controlo da agência espacial norte-americana (NASA) em Houston.

“Agradeço a todos vós por nos terem concedido o imenso privilégio de estarmos juntos nesta viagem. É realmente incrível. E enquanto seguimos nesta viagem, pensando na missão da NASA, explorando o desconhecido no ar e no Espaço, na inovação, na Humanidade e inspirando o mundo através da descoberta, e enquanto nos acompanham nesta viagem, espero que estejamos a fazer exatamente isso."

Declarando continuar a “sentir o amor do outro lado da Lua”, o astronauta despediu-se para um período em que conseguiram observar e recolher informações de regiões do satélite que, até aqui, só foram captadas por sondas.

O professor de Astronomia e Astrofísica da Universidade de Chicago, Derek Buzasi, lembrou à agência noticiosa France-Presse como todos “seguravam o fôlego” durante a era Apollo, tanto de entusiasmo como “de assustador”.

A última vez que um ser humano viu na primeira pessoa essa região da Lua - que está oculta da Terra devido à rotação sincrónica do satélite - foi em 1972, quando a tripulação da Apolo 17 converteu-se na última expedição a pisar a superfície lunar.

"Deixaram toda a América orgulhosa"

Após a aproximação à Lusa, o presidente dos EUA, Donald Trump, felicitou os quatro tripulantes através de uma ligação de áudio da Casa Branca, enquanto estes apareciam em direto por satélite a partir do espaço.
 
"Hoje, vocês fizeram história e deixaram toda a América muito orgulhosa, incrivelmente orgulhosa. Vocês inspiraram realmente o mundo inteiro. A sério, toda a gente está a assistir."
 
Citado pela Reuters, Koch disse a Trump que um dos seus momentos mais inesquecíveis da aproximação foi "voltar do lado oculto da Lua e ter os primeiros vislumbres do planeta Terra novamente".
 
Quando o presidente perguntou como se sentiram quando toda a comunicação com a Terra foi cortada enquanto a Orion voava por trás da Lua, Glover respondeu: "Fiz uma pequena oração, mas depois tive de continuar a trabalhar".

O outro recorde

Os quatro astronautas da missão Artemis II ultrapassaram também o recorde histórico de distância da Terra, alcançado pela tripulação da Apolo 13 em 1970, e iniciaram o sobrevoo da face oculta da Lua.

O recorde de 400.171 quilómetros atingido pela Apollo 13 foi ultrapassado e os astronautas norte-americanos Christina Koch, Victor Glover, Reid Wiseman e o canadiano Jeremy Hansen registaram depois o novo recorde.

"A sala está cheia de alegria lunar hoje. Imagino que vocês também", disse na sala de controlo da agência espacial norte-americana, em Houston, a responsável das comunicações com a tripulação, Jenni Gibsons.

Christina Koch, uma exploradora experiente que entra para a história como a primeira mulher a sobrevoar a Lua, contou que os astronautas estavam "colados às janelas".

A cápsula Orion, da missão Artemis II, alcançou o recorde às 12:57 do centro da NASA (18:57 em Lisboa).

O registo da Apollo 13 data de 1970, quando a missão que popularizou a frase 'Houston, temos um problema' teve uma falha técnica que a obrigou a contornar a Lua, aproveitando a sua gravidade para se impulsionar de volta à Terra.

O sobrevoo da Orion - equipada com 32 câmaras - permitirá estudar com maior pormenor a face oculta da Lua, mas também deixará os astronautas sem comunicações com aterra durante cerca de 40 minutos, enquanto a Lua se interpuser entre a Terra e a nave.

A missão Artemis II sairá da influência lunar na terça-feira às 13:25 horas (18:25 em Lisboa), quando iniciar o seu regresso à Terra.

Ciência

Mais Ciência