Pôr da terra e um eclipse nunca visto: a histórica viagem da Artemis II vista ao pormenor

CNN , Jacopo Prisco e Ashley Strickland
7 abr, 18:25
A primeira foto da missão tirada do lado oculto da Lua, captada pela Orion enquanto a Terra se punha no horizonte lunar (NASA)

 

 

Foram tiradas mais de 10 mil fotografias ao longo de cinco horas de uma viagem que estabeleceu recordes

Foi um momento para ficar na história: a missão Artemis II realizou esta terça-feira o seu tão aguardado sobrevoo lunar, chegando a apenas 6.550 quilómetros da Lua.

Enquanto sobrevoava a Lua a bordo da cápsula Orion, além do lado oculto, a tripulação também alcançou uma distância estimada de 406.700 quilómetros da Terra, quebrando o recorde da Apollo 13 de maior distância já percorrida por humanos no Espaço.

O sobrevoo durou sete horas, durante as quais os astronautas puderam apreciar paisagens da superfície lunar nunca antes vistas por olhos humanos, com cerca de 21% do misterioso lado oculto da Lua iluminado pelo Sol, a partir da perspetiva da tripulação.

Trabalhando em dois turnos ao longo de aproximadamente cinco horas, os astronautas da NASA Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e o astronauta da Agência Espacial Canadiana Jeremy Hansen tiraram cerca de 10 mil fotografias, de acordo com a transmissão em direto da missão pela NASA.

As comunicações foram interrompidas durante cerca de 40 minutos durante a passagem da Orion atrás da Lua. Os tripulantes viram a Terra pôr-se atrás da Lua, um fenómeno semelhante ao observado pelos astronautas da Apollo em 1968.

As crateras são visíveis por toda a superfície lunar. No lado iluminado da Terra, são visíveis nuvens sobre a Austrália e a Oceânia, enquanto o lado escuro está em período noturno.

Perto das 00:00 em Portugal a Terra pôs-se atrás da Lua (NASA)
Perto das 00:00 em Portugal a Terra pôs-se atrás da Lua (NASA)

A equipa científica do programa Artemis treinou a tripulação para procurar caraterísticas específicas na Lua, incluindo antigos fluxos de lava e crateras de impacto. Nesta imagem da Terra, os astronautas viram a Bacia de Hertzsprung, que aparece como dois anéis concêntricos.

A orla leste da bacia Polo Sul-Aitken, a maior e mais antiga da Lua, foi avistada pela tripulação da Artemis II (NASA)
A orla leste da bacia Polo Sul-Aitken, a maior e mais antiga da Lua, foi avistada pela tripulação da Artemis II (NASA)

Os astronautas avistaram também anéis em redor da Bacia Orientale, uma das crateras de impacto maiores e mais jovens da Lua. Antes desta missão, Orientale nunca tinha sido vista por olhos humanos.

Na posição das 10 horas em relação a Orientale, encontram-se duas pequenas crateras. Os astronautas sugeriram dar o nome de Integrity a uma delas, em homenagem à sua nave Orion, e à outra Carroll, em homenagem à falecida mulher do comandante da Artemis II, Reid Wiseman. Carroll Taylor Wiseman, enfermeira numa unidade de cuidados intensivos neonatais, faleceu em 2020, após uma luta contra o cancro.

Depois de batizarem a cratera de Carroll, os quatro astronautas abraçaram-se entre lágrimas e foi observado um momento de silêncio no Centro de Controlo de Missões da NASA, em Houston.

Totalidade para além da Terra. Do ponto de vista da Artemis II, a Lua eclipsa o Sol, revelando uma visão que poucos na história da humanidade alguma vez testemunharam (NASA)
Totalidade para além da Terra. Do ponto de vista da Artemis II, a Lua eclipsa o Sol, revelando uma visão que poucos na história da humanidade alguma vez testemunharam (NASA)

Mais tarde, durante o sobrevoo, os astronautas foram brindados com um eclipse solar muito especial.

Para a tripulação da Artemis II, a Lua parecia muito maior através das janelas de Orionte do que vista da Terra.

Parte da Lua é visível enquanto a tripulação da Artemis II testemunha um eclipse solar. À esquerda, vê-se Vénus, brilhante (NASA)
Parte da Lua é visível enquanto a tripulação da Artemis II testemunha um eclipse solar. À esquerda, vê-se Vénus, brilhante (NASA)

À medida que a Lua bloqueava a visão do Sol, partes da coroa solar, ou a atmosfera exterior do Sol, tornaram-se visíveis, incluindo estruturas chamadas filamentos, que descreveram como "fios de cabelo".

A totalidade, ou seja, quando o Sol é completamente bloqueado da visão durante um eclipse, durou quase uma hora para os astronautas, enquanto na Terra a totalidade dura normalmente apenas alguns minutos.

A luz do Sol surge por detrás da Lua quando a totalidade termina, na perspetiva da tripulação (NASA)
A luz do Sol surge por detrás da Lua quando a totalidade termina, na perspetiva da tripulação (NASA)

Durante o eclipse, os astronautas puderam ainda observar planetas como Marte, Vénus e Saturno, bem como estrelas e o brilho da Terra.

Após a passagem próxima, o comandante da Artemis II, Reid Wiseman, agradeceu à equipa científica da NASA por organizar um programa de observação tão entusiasmante e por proporcionar "alguns momentos incríveis, uma experiência verdadeiramente humana".

“Estávamos bem preparados e agradecemos a todos vós. É isso que fazemos melhor quando nos unimos e trabalhamos em equipa”, disse Wiseman. “Vocês arrasaram. Obrigado por nos darem esta oportunidade.”

É possível observar a bacia anelada de Orientale e as duas crateras recém-nomeadas, Integrity e Carroll (NASA)
É possível observar a bacia anelada de Orientale e as duas crateras recém-nomeadas, Integrity e Carroll (NASA)

Kelsey Young, oficial científica da missão, por sua vez, expressou a sua gratidão à tripulação: “Não tenho palavras para expressar o quanto já aprendemos sobre ciência e quanta inspiração trouxeram a toda a nossa equipa, à comunidade científica lunar e ao mundo inteiro. Vocês realmente aproximaram a Lua de nós. E estamos imensamente gratos”.

As fotos ajudarão a melhorar o conhecimento científico sobre a Lua e as suas origens, além de lançarem as bases para futuras missões à superfície lunar.

“Sabe, pela sua experiência de ver a Terra a partir do espaço, como parece diferente”, disse o astronauta da Agência Espacial Canadiana, Jeremy Hansen, em conversa com o administrador da NASA, Jared Isaacman, sobre o sobrevoo.

“Quando estávamos no lado oculto da Lua, a olhar para a Terra, a sensação era de que não estávamos numa cápsula. Tínhamos sido transportados para o lado oculto da Lua. E isso realmente impressionou-nos. Foi uma experiência humana extraordinária. Estamos muito gratos por isso.”

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