A pintura de 1894 de Andreas Andersen, “Interior com Hendrik Andersen e John Briggs Potter em Florença”, que ilustra este artigo, é um retrato da época e uma das raras pinturas a mostrar uma cena de intimidade e proximidade entre dois homens
Quando é que a homossexualidade se tornou uma identidade fixa? Na galeria Wrightwood 659, em Chicago, uma extensa exposição - que abrange mais de um século de história – procura traçar o período em que surgiram os conceitos de “homossexualidade” e “heterossexualidade”, debruçando-se sobre os sujeitos “queer” [fora da norma sexual, numa tradução livre] e os artistas da época – e como estes representavam o amor, o sexo e o género.
Instalada num contemplativo espaço de tijolo e pedra, desenhado pelo arquiteto Tadao Ando, “The First Homosexuals: The Birth of a New Identity, 1869-1939” [Os Primeiros Homossexuais, o Nascimento de uma Nova Identidade, 1869-1939, numa tradução direta] apresenta três centenas de obras reunidas a partir das coleções de mais de 100 museus, com o objetivo de compreender como é que as ideias restritivas sobre a sexualidade e o género se enraizaram culturalmente na sociedade e como se desenvolveram os rótulos que hoje conhecemos.
Da exposição fazem parte fotografias de Alice Austen com códigos sáficos [ou seja, que revelam o amor ou interesse sexual entre mulheres] da era vitoriana. E também a pintura de 1929 que Gerda Wegener fez da sua parceira transgénero, Lili Elbe – que é a figura central do filme “A Rapariga Dinamarquesa”, de 2015). Juntam-se ainda retratos de escritores LGBTQ+ influentes como Gertrude Stein, James Baldwin ou Oscar Wilde; assim como estudos do pintor John Singer Sargent. A exposição — e o livro homónimo que será depois lançado — destaca assim um momento crucial, no qual as ideias ocidentais sobre sexualidade começaram por ser um rótulo mal aplicado, que viria depois a espalhar-se pelo mundo como um binarismo rígido.
“Há algo específico no Ocidente, que procurou vigiar a fronteira entre a homossexualidade e a heterossexualidade. Foi por isso que quis fazer uma exposição que analisasse como essa fronteira surgiu”, refere o curador Jonathan D. Katz, pioneiro também em programas de estudos “queer” nos EUA. É, atualmente, professor na Universidade da Pensilvânia. “Percebemos, claro, que a linha nítida que queríamos traçar entre o Ocidente e o resto do mundo foi manchada pelo colonialismo — e isso passou também a ser uma parte importante da exposição”.
Um novo binário
A primeira referência publicada das palavras “homossexual” e “heterossexual” surgiu numa carta de 1868 entre os jornalistas Karl Heinrich Ulrichs e Karl Maria Kertbeny, duas figuras fundamentais na definição das ideias modernas sobre sexualidade. Kertbeny cunhou oficialmente os dois termos, defendendo a liberdade sexual e política dos homossexuais e rejeitando a ideia de que se tratava de uma identidade marginal. Nas décadas de 1880 e 1890, os psiquiatras alemães apropriaram-se do termo “homossexual”. Contudo, consideraram a homossexualidade, sobretudo, como uma perversão sexual tratável, contrariando as convicções de Kertbeny.
Antes do final do século XIX, a sexualidade, segundo a exposição, era vista deste modo: “algo que se fazia, não necessariamente algo que se era”. As obras incluídas na secção denominada “Antes do Binário” mostram vários trabalhos neoclássicos do final do século XVIII, que utilizavam temas clássicos para representar o desejo entre pessoas do mesmo sexo. Juntam-se obras realizadas no Peru, Japão e Birmânia (atual Myanmar), que não se enquadram nas ideias modernas sobre sexo e género. E ainda representações racistas, que deturpavam os povos nativos americanos “dois espíritos” [termo usado por povos indígenas para descrever pessoas que se identificam simultaneamente com o género masculino e feminino, ou que apresentam características de ambos]. Por fim, um retrato do Cavaleiro d’Eon, que foi oficialmente reconhecido como mulher pelo rei Luís XVI - embora não tenha sido a primeira pessoa transgénero no continente europeu, poucos atingiram o seu estatuto ou fama.
“Desde o início, os conceitos ‘queer’ e ‘trans’ andaram sempre de mãos dadas,” diz Katz. “A ideia de que estamos agora a viver a experiência trans como se fosse algo novo é uma absoluta má interpretação da história. Em muitas culturas, as questões da sexualidade e do género eram amplamente discutidas e encaradas como algo completamente natural”.
Impactos imperiais
As the idea of a sexual binary grew in the West it was transported to its colonies, fundamentally re-shaping many parts of the world, as explorers and settlers recasted divergence from heterosexuality as immoral.
À medida que a ideia de um binário sexual se consolidava no Ocidente, foi também sendo transportada para as colónias, o que reformularia, de uma forma profunda, muitas partes do mundo, com exploradores e colonos a encarar qualquer desvio em relação à heterossexualidade como algo imoral.
Quando Katz começou este projeto, tinha já noção de que o colonialismo tinha espalhado o conceito de homossexualidade a nível global. “O que não entendia era quantos focos de resistência existiam contra essa interpretação. E, também, até que ponto ela transformou profundamente as culturas indígenas”, explica o curador.
Por exemplo, nas ilhas do Pacífico, que foram reclamadas sobretudo pela Grã-Bretanha e por França, os colonos impuseram leis rígidas sobre os atos entre pessoas do mesmo sexo — que ainda hoje afetam os direitos LGBTQ+ na região. Ao mesmo tempo, fetichizavam e exploravam sexualmente as comunidades indígenas. Nas obras de arte dessa época, o olhar de exotismo é visível em quase todas as grandes instituições de arte moderna, nomeadamente nas obras do período taitiano de Paul Gauguin, que pintava visões idílicas da ilha e dos seus habitantes, enquanto tomava várias noivas menores de idade. Na galeria Wrightwood 659, a exposição apresenta uma obra de 1935 de David Paynter, um artista cingalês-britânico, que retrata dois jovens nus numa praia, evocando os trabalhos de Gauguin. Mas vistos, segundo esta mostra, como uma abordagem “sarcástica” ao artista.
Entre os artistas destacados que se rebelaram contra o olhar colonial está o pintor Saturnino Herrán, que imaginou figuras sensuais das culturas mesoamericanas com formas heroicas, lábios carnudos e vestidas com tecidos drapeados e atados. Outras fotografias e pinturas ilustram os lugares-comuns eróticos do Oriente - que, ao mesmo tempo, atraíam os europeus e reforçavam o seu desejo de impor os valores ocidentais por todo o mundo.
Repensar o cânone
Katz considera que a história da arte é um arquivo amplo, mas muito pouco explorado, sobre a forma como podemos compreender a sexualidade. E um dos problemas, diz, é que a “história da arte queer” continua a ser vista como um nicho quando, na realidade, muitos artistas clássicos e modernos com reconhecimento público acabaram por expressar desejo por pessoas do mesmo sexo através das suas obras.
De um modo irónico, muitos artistas acabam por ser profundamente mal interpretados: a arte clássica é, com frequência, usada pela direita para apoiar as suas crenças nacionalistas, da Alemanha nazi às atuais contas da rede social X, mesmo que as obras da Antiguidade e do Renascimento sejam, também com frequência, explícitas nas suas representações do desejo erótico entre pessoas do mesmo sexo.
“Naturalizámos tanto uma perspetiva heteronormativa sobre a arte que transformámos a arte ‘queer’ em arte heterossexual sem sequer darmos por isso”, refere Katz. “É estranho, enquanto professor de história da arte ‘queer’, estar a dizer que ‘rezo para que o meu campo de estudos desapareça um dia’, mas é verdade”.
O mundo da arte mantém este estado de coisas, acrescenta. Os museus, subordinados a conselhos de administração, a doadores e patrocinadores corporativos, costumam fazem circular os mesmos artistas. Acabam mesmo por suavizar os aspetos mais complexos das suas vidas, em vez de aprofundarem a nossa compreensão coletiva com novas perspetivas, lamenta.
Muitos artistas que integram a exposição “The First Homossexuals” só começaram a ser revisitados nas últimas décadas. Na lista inclui-se o pintor pré-rafaelita Simeon Solomon, cuja carreira terminou com um escândalo de sodomia. Ou Marie Laurencin, uma importante pintora vanguardista francesa, que criou mundos de desejo feminino sem a presença de homens.
“Há enormes quantias de dinheiro em jogo naquilo que fazemos. Acredito que existe uma ideia errada de que falar sobre sexualidade vai diminuir o valor de uma obra de arte,” afirma Katz.
Apesar de existir uma maior representação nas artes na última década, Katz alerta que a crescente tensão no clima político e o retrocesso nos direitos LGBTQ+ nos Estados Unidos da América ameaçam a investigação sobre história e a arte “queer”. Este país tem, aliás, uma longa história de censura da arte LGBTQ+, incluindo nas exposições. Em 2010, foi co-curador de uma emblemática exposição sobre o desejo entre pessoas do mesmo sexo no retrato americano, que teve lugar na National Portrait Gallery. Um vídeo de David Wojnarowicz, com formigas a rastejar numa cruz, acabou por ser removido após críticas da Liga Católica e de republicanos no Congresso, que consideravam a obra ofensiva para os cristãos.
“Honestamente, vemos, de uma forma cíclica, que à medida que a história ‘queer’ começa a afirmar-se, surge logo alguma coisa para acabar com isso”, aponta.
Através da exposição “The First Homossexuals”, Katz espera diminuir o “fosso profundo e absoluto” que foi criado para separar as identidades heterossexuais das ‘queer’, diz. Afinal, quando se olha para toda a civilização humana, percebe-se que se trata de uma ideia moderna, que pode ser novamente mudada.
“Não há nada de natural na sexualidade. Sempre foi algo estruturado pela história”, conclui.