A exposição “Histórias Indígenas” integra obras de arte de sete regiões do mundo. A obra que serve de capa a este artigo, datada de 2022, intitula-se “Kapenawë Pukeni” e é da autoria de Acelino Tuin Huni Kuin e faz parte da secção brasileira no museu Kode, em Bergen, na Noruega
Crânios de renas que representam traumas do passado e tentativas de progresso das comunidades Sámi da Escandinávia. Sprays de penas de arara a celebrar as vivas tradições do povo Tapirapé do Brasil. São apenas alguns dos destaques de “Histórias Indígenas”, uma exposição patente no museu Kode, em Bergen, na Noruega.
Os curadores, a representar sete regiões indígenas na América do Sul, na América do Norte, na Oceânia e nos países nórdicos, escolheram apresentar cerca de 280 obras que evidenciam como diferentes culturas em todo o mundo consideram os ossos dos seus queridos rebanhos ou as espampanantes penas tão importantes do ponto de vista artístico quanto as pinturas ou as gravuras. A exposição reúne um vasto conjunto de peças – tanto antigas como contemporâneas, de mais de 170 artistas -, incluindo pinturas a óleo e aguarelas, fotografias, cerâmicas, esculturas, têxteis e instalações conceptuais. Enquanto coletivo, traçam uma antologia de “histórias negligenciadas”, conta Petter Snare, diretor do Kode.
Nas galerias, cada país ou território tem o seu próprio espaço, com salas dedicadas ao Brasil, Peru, México, Canadá, Austrália, Nova Zelândia e Sápmi, o território dos Sámi. A abordagem enfatiza as diferenças regionais – como cada comunidade indígena se conecta com as especificidades do seu clima e da sua paisagem, os seus costumes e vestuário –, mas também as suas experiências partilhadas, com destaque para a forma como foram tratadas nas mãos dos poderes coloniais.
“Histórias Indígenas” corresponde a uma nova forma de pensar sobre o que é ou não arte. Nos últimos anos, o aumento do interesse público por elementos por contar na história da arte, bem como por programa curatoriais menos rígidos, colocaram debaixo de olho o cânone artístico – e a sua bússola eurocêntrica, a sua predileção por figuras masculinas brancas e as suas fundações coloniais. Os museus estão agora a procurar novas formas de ver e de mostrar.
No Kode há urnas funerárias anteriores a Cristóvão Colombo ao lado de máscaras com fitas de cetim feitas no Brasil moderno. Há fotografias documentais da Lapónia do século XIX, xilogravuras com Sámis apaixonados produzidas anos 1920 e esculturas contemporâneas feitas com chifres e zimbro. Fotografias de trabalhadores agrícolas peruanos, tiradas no início do século XX, mostram como os indígenas eram conhecidos por números e não pelos seus nomes. Já na secção da Nova Zelândia, os motivos orgânicos dos Māori superam a estética Art Déco europeia.
Para os artistas contemporâneos a trabalhar com estas comunidades, há, às vezes, uma tensão entre manter os métodos tradicionais e a procura de novas abordagens, explica Katarina Spik Skum, uma artista Sámi, da parte sueca de Sápmi, que apresenta uma peça que consiste numa tenda feita de ramos de bétula, couro, lã, pele e tecido estampado de uma forma digital.
E também para os museus existem desafios muito próprios na exibição destes trabalhos. “Fica-se preocupado por estar a usar materiais que deixaram contentes as pessoas que os fizeram”, explica Philippa Moxon, conservadora de têxteis a trabalhar na exposição. “Uma das minhas colegas teve de avaliar as condições dos estômagos de duas renas. São peças fascinantes. Ela foi presenteada com algo que nunca tinha visto antes”.
Cores vibrantes, dinamismo cultural e raiva
As obras mais reconhecidas no Kobe talvez sejam as icónicas pinturas de “pontos” de artistas aborígenes, tais como Mick Namarari Tjapaltjarri, criadas na região norte do território australiano no início dos anos 1970. Não são pinturas de paisagens, antes pinturas de canções das paisagens. Bem menos conhecidos, mas também um dos destaques da exposição, são os vasos, com grande personalidade, criados há cerca de dois mil anos pela civilização Moche do Peru.
A par das cores vibrantes e do dinamismo cultural, há uma raiva justificada e uma indignação política, uma vez que os artistas lutam contra o legado da opressão colonial. Uma secção intitulada “Ativismos” explora aquilo a que os curadores chamam de “uma história de lutas emaranhadas”.
A exposição é uma manta de retalhos de criatividade e trauma, sendo apenas um exemplo do esforço que está a ganhar destaque para reformular a arte indígena. Em 2019, o Tate, no Reino Unido, criou lugar de curador dedicado a esta área. Na Bienal de Veneza de 2022, o Pavilhão Nórdico foi transformado no Pavilhão Sámi, uma vitrina de alto nível para obras com carga política.
A emergência climática mudou as opiniões ortodoxas sobre as comunidades indígenas, aponta Katya García-Antón, curadora da exposição em Veneza e agora diretora do Nordnorsk Kunstmuseum em Tromsø. “As perspetivas dos povos indígenas sobre a terra, a fauna, a flora e a água são muito diferentes das perspetivas modernistas – leia-se, ocidentais – que são responsáveis por esta crise”, argumenta. Katya García-Antóna acrescenta que os movimentos de justiça social “ativaram a consciência das pessoas sobre a natureza hierárquica e discriminatória das nossas sociedades, tanto no passado como atualmente”.
As obras da artista Sámi Marét Anné Sara, que consistem em caveiras de renas, exibidas tanto em Veneza como em Bergen, foram exibidas no passado no parlamento norueguês em Oslo, num protesto contra as medidas governamentais sobre o abate de renas. Mostrar arte indígena num museu financiado pelo Estado – que teve impacto nos direitos, nas convenções e no acesso à terra, que estão na origem da resposta dada através da arte – levanta questões embaraçosas relativas à hipocrisia.
García-Antón discutiu esta questão com anciãos Sámi, com artistas e com intelectuais antes da abertura do Pavilhão Sámi em Veneza. “Todos concordámos que havia mais a ganhar do que a perder”, justifica, acrescentando que o contributo do evento “para a consciência global das perspetivas indígenas no campo das artes provou que a aposta valeu a pena”.
Em Bergen, essa campanha de sensibilização mergulha o público num poço profundo de conhecimento esotérico, crenças espirituais, considerações ecológicas e arte, todos adquiridos ao longo de séculos, de vivências sincronizadas com a natureza e no âmbito de culturas sustentáveis em vez de exploradoras. Mostra também que esta história – embora escrita nas paredes da Noruega – está em curso em todo o mundo.
“Histórias Indígenas”, em colaboração com o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP) estará patente no Kode, em Bergen, Noruega, até ao próximo dia 25 de agosto.