«Em 96, quando Southgate falhou aquele penálti, tive uma bebedeira de 44 dias»

2 dez 2024, 12:01
Tony Adams e Wenger (Stuart MacFarlane/Getty)

Tony Adams, antigo capitão do Arsenal, abriu o livro sobre os problemas com álcool e drogas, homenageando os heróis que o salvaram

Os problemas com o álcool acompanharam a carreira de Tony Adams, histórico defesa central do Arsenal, camisola que vestiu entre 1983 e 2002, e emblema que capitaneou durante 14 anos. Em entrevista ao Guardian, o inglês, de 58 anos, admite que a «bravura» demonstrada dentro de campo sempre contrastou com a fragilidade difícil de combater no quotidiano.

«Os apagões eram frequentes. Até conheci a minha primeira esposa [Jane Shea] durante um apagão. Coloquei-a na reabilitação, porque ela usava crack, e rodeei-me de pessoas doentes para me sustentar. Achava que os meus problemas eram culpa dela, eu tinha de ser o objetivo de ser o capitão de Inglaterra.»

«Em 1996, com 29 anos, não queria estar no Mundo. Foi um período muito sombrio. Quando não jogava, não queria viver. Estava completamente preso. Em fevereiro daquele ano, lesionei-me. Em março, retiraram-me os meus filhos, porque desmaiei numa noite de domingo. Bebi sete garrafas de Chablis [vinho]. Então, a minha sogra levou as crianças», relata o antigo jogador.

A propósito deste tema, Adams aproveita para recordar a recente morte de James W., «herói, terapeuta, padrinho e mentor», e durante 20 anos diretor da Sporting Chance, instituição de solidariedade fundada pelo antigo jogador. Este amigo – que conheceu durante uma «bebedeira» – foi decisivo para o processo de reabilitação.

«Morreu com cancro no pulmão. O funeral foi na quarta-feira. Ele salvou a minha vida e deixou centenas de pessoas limpas. Depois do Europeu de 1996, quando o Gareth Southgate falhou aquele penálti [nas meias-finais, frente à Alemanha], tive uma bebedeira de 44 dias. Fiquei paranóico.»

«Em agosto desse ano, o James levou-me aos alcoólicos anónimos, o que me mudou», recorda, com os olhos lavados em lágrimas.

E quanto à «primeira sogra», a mãe de Jane Shea foi decisiva para Tony Adams conhecer o referido «herói». Acontece que Barbara, esposa de Frank Shea – antigo atleta e próximo do «gangster» Reggie Kray – ajudou o marido a deixar o álcool e as drogas, além de lidar com os vícios e problemas da filha.

«A minha [primeira] sogra deu-me o número de James W., colocou no meu bolso e salvou a minha vida. Não tenho mais nenhuma angústia do passado. Limpei tudo isso – estou há 28 anos sem beber ou drogar-me – e estou confortável pela primeira vez na vida. Cresci e não há tentáculos do passado.»

«Estou totalmente recuperado, mas continuo a frequentar as reuniões e vou a três ou quatro prisões por ano, transmitindo mensagens de ajuda», explica.

Embalado, o antigo jogador aproveita a entrevista ao Guardian para apontar à família, supostos amigos e até ao empresário George Graham: «Antes, face aos meus comportamentos, davam palmadinhas nas costas. Eu era capitão do Arsenal e o meu empresário dizia que era um exemplo, a melhor propaganda para os adeptos não beberem e conduzirem no Natal».

E, de facto, o britânico foi detido e esteve preso por condução perigosa e sob efeito de álcool. Depois de dois meses afastado, Tony Adams foi acolhido de braços abertos no regresso ao Arsenal.

«A insanidade não é entrar na prisão e conduzir por cima de um muro. A insanidade é repeti-lo. Eu não precisava da prisão, mas sim de reabilitação», sublinha.

Já com Arsène Wenger ao leme do Arsenal, Tony Adams selou a conquista da Premier League de 1998, com um golo frente ao Everton. E o icónico festejo foi imortalizado com uma estátua nas imediações do estádio.

O antigo defesa terminou a carreira em 2002, com a conquista da Taça de Inglaterra. Enquanto treinador, foi adjunto em Inglaterra, Azerbaijão e orientou, por sete jogos, o Granada, em 2016/17.

 

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