Arqueólogos de Jerusalém afirmam ter descoberto um anel de ouro com cerca de 2.300 anos, com uma pedra preciosa vermelha, muito semelhante a outra peça de joalharia encontrada há menos de um ano.
Os dois anéis, suficientemente pequenos para caberem nos dedos de uma criança, são artefactos que foram descobertos no sítio da Cidade de David, no Parque Nacional das Muralhas de Jerusalém. A equipa que está a analisar as peças acredita que os anéis podem estar ligados a um ritual de passagem à idade adulta das jovens mulheres antes do casamento, sugerindo que os artigos foram enterrados intencionalmente.
Os investigadores afirmam que os anéis, juntamente com brincos de bronze, um brinco de ouro que se assemelha a um animal com chifres e uma conta de ouro decorada, pertencem provavelmente ao período helenístico inicial em Jerusalém. A era helenística, associada à difusão da cultura e influência gregas, durou de 332 a 141 a.C. na cidade.
Efrat Bocher, responsável pelas escavações da Universidade de Bar-Ilan e do Centro para o Estudo da Antiga Jerusalém, refere, em comunicado divulgado a 21 de maio, que “esta riqueza exposta é muito rara em qualquer camada arqueológica e atesta a riqueza de Jerusalém e o elevado nível de vida dos habitantes da cidade durante este período”.
Recuperados das fundações de um grande edifício, ambos os objetos estavam numa camada de terra datada do final do século III ou início do século II a.C., de acordo com os responsáveis pela escavação, Yiftah Shalev, arqueólogo da Autoridade de Antiguidades de Israel, e Yuval Gadot, diretor do Instituto de Arqueologia Sonia & Marco Nadler e professor de arqueologia na Universidade de Telavive.
As descobertas estão a derramar luz sobre um capítulo da história de Jerusalém conhecido principalmente por textos antigos, uma vez que só existia um registo arqueológico escasso – até agora, indica Gadot.
Anéis gémeos sinalizam uma transição
O anel de ouro recém-encontrado, cravejado com o que parece ser uma granada, estava em tão excelentes condições que os escavadores pensaram inicialmente que se tratava de uma peça de joalharia moderna que um membro da equipa poderia ter deixado cair no local. Contudo, Rivka Lengler, uma das primeiras escavadoras a examinar o artefacto, reconheceu o seu design antigo e chamou o resto da equipa.
“Quando segurei este anel na mão, senti que podia realmente tocar e conectar-me com as pessoas que viveram aqui há milhares de anos”, diz Lengler em comunicado.
O anel descoberto no local há menos de um ano é também cravejado de uma pedra preciosa vermelha e não apresenta sinais de idade.
“Eu estava a remexer a terra através da tela e de repente vi algo a brilhar”, relatou Tehiya Gangate, um membro da equipa de escavação, num comunicado datado de 2024. “Gritei imediatamente: ‘Encontrei um anel, encontrei um anel!’ Em segundos, toda a gente se juntou à minha volta e houve uma grande excitação. É um achado emocionalmente comovente, não é o tipo de achado que se encontra todos os dias."
Ambos os anéis caberiam, no máximo, no dedo mindinho de uma mulher, mas mais provavelmente no dedo de uma rapariga, dizem os investigadores.
Marion Zindel, arqueóloga da Autoridade de Antiguidades de Israel, que analisou os anéis, acredita que os artesãos os fizeram martelando finas folhas de ouro em bases de anéis de metal.
Os escavadores recuperaram todas as jóias do local debaixo do chão do edifício, o que sugere que as peças foram colocadas lá de propósito, indica Zindel.
Uma hipótese é que as jóias tenham sido usadas num “conhecido costume do período helenístico em que as mulheres prometidas enterravam jóias e outros objetos de infância nos alicerces da casa como símbolo da transição da infância para a idade adulta”, explica Zindel em comunicado.
Associada ao início do período helenístico, a tendência de combinar gemas coloridas com ouro foi influenciada pela moda indiana e persa e trazida para a região pelas conquistas orientais de Alexandre, o Grande, que abriu canais de comércio para o transporte de bens de luxo entre várias regiões, segundo os investigadores.
Marcas de riqueza
Peças de joalharia e outros achados indicam que o período helenístico inicial em Jerusalém foi uma época associada à riqueza e ao planeamento urbano, mas a extensão da prosperidade e da riqueza dos seus residentes não era conhecida anteriormente, diz Bocher.
As escavações no parque de estacionamento de Givati, situado na encosta ocidental da colina da Cidade de David, estão em curso há vários anos, refere num vídeo do YouTube em que partilha a descoberta. As escavações foram conduzidas conjuntamente pela Autoridade de Antiguidades de Israel e pela Universidade de Telavive.
A equipa está ansiosa por compreender melhor Jerusalém entre os séculos I e IX a.C. – um período que até agora não constava do registo arqueológico – e o longo e diversificado património da cidade, diz Gadot.
Os objetos mostram que os habitantes da cidade estavam abertos à adoção de tendências culturais, estilo de vida e arquitetura helenísticos – o que difere das interpretações tradicionais dos textos antigos sobre Jerusalém. Os especialistas acreditavam anteriormente que a cidade era culturalmente isolada, rejeitando influências externas, com base em menções em textos antigos, refere Gadot. Mas as jóias e os costumes associados ao seu enterro alteram esse pressuposto, acrescenta Gadot.
Os investigadores têm agora uma nova forma de compreender como a região estava a mudar nessa altura. Com poucas estruturas e artefactos da época, era fácil assumir que Jerusalém era uma pequena cidade. Mas as descobertas até agora revelaram um bairro inteiro, incluindo edifícios domésticos e administrativos que se estendiam para oeste a partir do topo da colina da Cidade de David, onde outrora se situava um templo judaico, diz Gadot.
Para além de analisar as jóias, a equipa também estudará ossos de animais, moedas e cerâmica recuperados do local para saber mais sobre as ligações interregionais, a origem dos bens importados e até os hábitos culinários em Jerusalém na época. Os ossos poderão revelar se os habitantes praticavam os regulamentos da Kashrut, ou leis dietéticas judaicas kosher, que regem os animais que podem ser consumidos e a forma como devem ser preparados e manuseados.
“Só agora estamos a começar a explorar a história da Jerusalém dos séculos IV e II a.C.”, adianta Gadot numa mensagem de correio eletrónico. “Com o Templo numa extremidade e a presença cultural helénica na outra, queremos compreender a posição das pessoas que viviam em Jerusalém.”