Primeiros fósseis humanos encontrados numa gruta são um milhão de anos mais velhos do que se pensava (e o que isso significa sobre os nossos antepassados)

CNN , Por Ashley Strickland, CNN
4 jul, 22:00
Crânios de Australopithecus (Jason Heaton/Ronald Clarke/Ditsong Museum of Natural History)

Quatro crânios diferentes de Australopithecus foram encontrados nas grutas de Sterkfontein, África do Sul. O revestimento destas grutas contém este e outros fósseis de Australopithecus. Estes achados têm entre 3,4 e 3,6 milhões de anos. Por isso, são muito mais antigos do que se pensava. A nova informação anula o conceito enraizado de que o Australopithecus sul-africano é um ramo mais jovem do Australopithecus Afarensis da África Oriental.

Os fósseis de humanos primitivos encontrados numa gruta sul-africana têm entre 3,4 e 3,6 milhões de anos. Tornaram-se um milhão de anos mais velhos do que se suspeitava anteriormente. Isto está a abalar a forma como os investigadores entendem as origens e a evolução humana.

Esta nova data torna os fósseis da gruta de Sterkfontein mais antigos do que o famoso fóssil Lucy - também conhecido como Dinkinesh - da Etiópia. Encontrado em 1979, este fóssil representava a espécie Australopithecus Afarensis que viveu há 3,2 milhões de anos.

Os fósseis recém-datados também pertencem ao género Australopithecus, um antigo hominídeo que, primeiramente, se pensava ter vivido há cerca de 2 e 2,6 milhões de anos. Os investigadores usaram uma nova técnica para atribuir uma data aos sedimentos das grutas de Sterkfontein. Estas fazem parte do “berço da humanidade” do Património Mundial da UNESCO e encontram-se a cerca de 50 quilómetros a noroeste de Joanesburgo.

As grutas incluídas nesta rede mostraram detalhes sobre a evolução humana e ambiental, que se estendem por cerca de 4 milhões de anos.

O local alberga uma coleção de fósseis que ajudam a contar a história da evolução humana, história esta que parece mudar a cada descoberta.

Foi publicado, na semana passada, no “Proceedings of the National Academy of Sciences”, um novo estudo que dá detalhes sobre os novos achados.

A importância das grutas de Sterkfontein tornou-se evidente em 1936, quando foi feita a descoberta do primeiro fóssil Australopithecus adulto pelo paleontólogo Robert Broom.

Desde então, foram encontrados aí centenas de fósseis Australopithecus, incluindo o famoso “Pé Pequeno”, que viveu há 3,67 milhões de anos. Hoje, este representa o esqueleto Australopithecus mais completo. De igual maneira, este achado ajuda os investigadores a aprender mais sobre os nossos antepassados, que se assemelhavam a chimpanzés.

"Há mais fósseis de Australopithecus nas grutas de Sterkfontein do que em qualquer outro lugar do mundo", disse, num comunicado, Darryl Granger, o autor principal do estudo e professor de Ciências Terrestres, Atmosféricas e Planetárias na Faculdade de Ciências da Universidade de Purdue.

"Mas é difícil atribuir-lhes uma data precisa. As pessoas olharam para os fósseis animais encontrados perto destes achados. Então, compararam as idades das características das grutas, tais como pedras. Dessa forma, obtiveram uma série de datas diferentes. As nossas informações tentam resolver essas controvérsias. Mostram que esses fósseis são velhos. Na verdade, são muito mais velhos do que pensávamos primeiramente.”

Um novo olhar para os antepassados

Os investigadores determinaram que todos os sedimentos das grutas, incluindo os fósseis de Australopithecus, têm entre 3,4 e 3,6 milhões de anos. Por esse motivo, isso coloca-os no início da era Australopithecus e não no fim dela. Agora, eles antecedem outros hominídeos em locais próximos por mais de um milhão de anos.

Muitos dos fósseis de Sterkfontein foram encontrados no chamado “Membro 4”, o depósito mais rico em fósseis Australopithecus encontrado em qualquer lugar do mundo. Pesquisas anteriores sugeriram que o depósito poderia ser jovem e ter 2 milhões de anos. Isto torna-o mais jovem do que quando o género Homo, ao qual nós (Homo sapiens) pertencemos, apareceu pela primeira vez, há cerca de 3 milhões de anos.

Essas datas sugeriram que os Australopithecines se sobrepunham a membros do género Homo, bem como a um hominídeo de dentes grandes chamado Paranthropus. Até agora, e com base nessa ideia, os investigadores aceitaram que os Australopiths sul-africanos eram descendentes de espécies da África Oriental, como Lucy, bem como outros membros do género Australopithecus Afarensis.

"O que a nossa idade mostra é que isto não pode ser verdade, uma vez que têm aproximadamente a mesma", disse Granger. "Deve haver um antepassado comum mais velho. Isto também deu muito mais tempo para que as espécies sul-africanas evoluíssem. Assim, reabre-se o debate sobre o papel da espécie sul-africana em hominídeos posteriores, como o Paranthropus."

“Reavaliar a idade dos Australopiths das grutas de Sterkfontein tem implicações importantes. Avalia-se a forma como a África do Sul desempenhou um papel na diversificação e expansão dos nossos antepassados humanos”, disse Dominic Stratford, coautor do estudo, diretor de pesquisa nas grutas e professor da Universidade de Witwatersrand, em Joanesburgo.

Olhar para o passado

Para atribuir uma data aos sedimentos das grutas, Granger aplicou um método que desenvolveu, pela primeira vez, em meados dos anos 90. No entanto, atualmente, é usado por muitos investigadores na área.

Granger trabalha com nuclídeos cosmogénicos. "Estas são partículas radioativas muito raras, produzidas dentro de grãos minerais por raios cósmicos vindos do espaço", disse ele. O alumínio-26 e o berílio-10 são dois exemplos de nuclídeos cosmogénicos, ambos encontrados no quartzo. O alumínio-26 forma-se quando uma rocha é exposta a raios cósmicos enquanto se encontra na superfície da Terra. No entanto, isso não acontece quando está dentro de uma gruta.

Usou-se o acelerador de tandem PRIME Lab FN da Universidade de Purdue, de maneira a garantir as novas datas dos fósseis.

Granger disse: "A sua degradação radioativa ocorreu quando as rochas foram enterradas na gruta, juntamente com os fósseis.”

Anteriormente, ele usou o seu método para atribuir uma data ao fóssil “Pé Pequeno”. Mas a era dos outros fósseis Australopith dentro das grutas de Sterkfontein tem sido debatida, sobretudo porque o sistema complexo e intrincado das cavernas tem uma longa história de ocupação por hominídeos que viviam naquela altura.

A África Oriental é outro local rico em fósseis de hominídeos primitivos. Muitos foram encontrados no Grande Vale do Rift, onde os vulcões criaram camadas de cinzas. Isso faz com que seja mais fácil atribuir-lhes uma data.

No entanto, o mesmo não acontece com as grutas na África do Sul. Aqui, os investigadores devem confiar no uso de fósseis animais, de maneira a ajudar a determinar a idade de outros ossos que estão por perto, bem como as calcites. Quando a água cai pelas paredes ou no chão das grutas, podem depositar-se camadas de calcites ou outros carbonatos.

Atribuir uma data aos sedimentos encontrados em grutas é complicado. Isso torna-se ainda mais difícil à medida que as rochas e os ossos caem de diferentes camadas na gruta. Por vezes, a calcite mais jovem pode ser encontrada misturada com sedimentos antigos.

Em vez da simples descamação das camadas, trata-se de classificar através de uma mistura.

Em 2014, Granger fez um avanço enquanto trabalhava no Laboratório de Medição de Isótopos Raros da Universidade de Purdue. Os investigadores descobriram que poderiam medir pequenas quantidades de alumínio-26 com muita precisão. Ele disse que isto fez com que se abrissem as portas para locais onde era muito mais difícil atribuir uma data.

Granger e a sua equipa estudaram brechas, a substância ligada por um cimento natural e onde os fósseis se encontram incrustados. Usaram o seu método para determinar as novas datas dos fósseis. Os investigadores fizeram, de igual maneira, mapas dos depósitos das grutas. Estes mostraram como alguns deles se misturaram durante as escavações que ocorreram durante as décadas de 1930 e 1940.

"Parte do equívoco sobre a sua idade veio da mistura de fósseis, de diferentes camadas, durante as primeiras escavações", disse Granger. "Ao usarmos este método, podemos classificar com maior precisão os antepassados humanos e os seus parentes nos períodos corretos, quer seja em África, quer seja noutros lugares do mundo."

Ciência

Mais Ciência

Patrocinados