Acordo entre Arménia e Azerbaijão encerra décadas de conflito, mas pode esbarrar no Irão

9 ago 2025, 17:45
Ilham Aliyev, Donald Trump e Nikol Pashinyan (Nathan Howard/EPA via Lusa)
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A disputa entre os dois países tinha como palco principal a região de Nagorno-Karabakh, controlada pelos arménios até 2023, quando uma ofensiva azeri permitiu a Baku recuperar a totalidade do território perdido nos anos 90

Arménia e Azerbaijão assinaram esta sexta-feira, na Casa Branca, um acordo histórico que põe fim a décadas de conflito entre os dois países desde a dissolução da União Soviética.

Para a história ficará o surpreendente aperto de mão, incentivado por Donald Trump, entre Nikol Pashinyan, primeiro-ministro da Arménia, e Ilham Aliyev, presidente do Azerbaijão.

"Estava para acontecer há muito tempo. É muito tempo, 35 anos (foram, na verdade, 37), eles lutaram e agora são amigos, e vão continuar amigos por muito tempo", disse Trump aos jornalistas na Sala Oval, ladeado pelos chefes de governo dos dois países.

A disputa entre os dois países tinha como palco principal a região de Nagorno-Karabakh, controlada pelos arménios até 2023, quando uma ofensiva azeri permitiu a Baku recuperar a totalidade do território perdido nos anos 90.

"Estamos hoje a estabelecer a paz no Cáucaso. Perdemos muitos anos preocupados com guerras, ocupações e derramamento de sangue", disse Aliyev, citado pela BBC.

Por seu turno, o primeiro-ministro da Arménia referiu que o acordo significa a “abertura de um capítulo de paz”.

“Estamos a lançar as bases para escrever uma história melhor do que a que tivemos no passado", afirmou Nikol Pashinyan, citado pelo The Guardian.

Uma peça central para a resolução do conflito foi o estabelecimento de um corredor económico, o corredor de Zangezur, que permitirá ligar o território do Azerbaijão ao seu exclave de Naquichevão e, consequentemente, à Turquia e à Europa, o que facilitaria a exportação de petróleo e gás natural do país do Cáucaso para o Velho Continente.

Esta era uma antiga exigência de Baku, que consegue uma grande vitória diplomática em Washington D.C.

Donald Trump (ao centro) foi o anfitrião da cerimónia que marcou o fim do conflito entre Arménia, representada por Nikol Pashinyan (à direita), e o Azerbaijão, que se fez representar por Ilham Aliyev (à direita) (Nathan Howard/EPA via Lusa)

O nome oficial da rota, a “Rota Trump para a Paz e Prosperidade Internacionais” (Trump Route for International Peace and Prosperity em inglês) foi sugerido pelos arménios, disse fonte da administração americana ao The Guardian. “É uma grande honra para mim, mas eu não pedi isto”, disse o presidente dos EUA.

Os dois líderes foram ainda mais longe e sugeriram a nomeação de Donald Trump para o Prémio Nobel da Paz, com Pashinyan a descrever o presidente americano como “pacificador” e merecedor da distinção.

“Quem, senão o presidente Trump, merece o Prémio Nobel da Paz?”, questionou Ilham Aliyev.

Rússia fica para trás, o Irão não gosta

O acordo mediado por Trump constitui um forte revés para a diplomacia russa na região. A Arménia, tradicional aliado de Moscovo, já tinha congelado a sua afiliação com a Organização do Tratado de Segurança Coletiva (CSTO), uma espécie de NATO do espaço pós-soviético, e o Azerbaijão está interessado em desenvolver as relações com o Ocidente, nomeadamente através da venda de petróleo e gás natural.

A Rússia foi sempre o ator chamado a mediar este conflito, mas falhou sempre naquilo que Trump alcançou em pouco tempo: a paz definitiva.

Ainda assim, o governo russo congratulou as partes por chegarem a acordo. “A assinatura e a entrada em vigor do acordo de paz e o estabelecimento de relações entre o Azerbaijão e a Arménia serão de extrema importância para o estabelecimento da paz entre as duas repúblicas do Cáucaso Meridional”, disse Maria Zakharova, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia.

Contudo, a história pode não acabar aqui, pois o Irão já manifestou a sua oposição ao corredor, que passaria diretamente na fronteira do país com a Arménia.

“Com ou sem a Rússia, o Irão irá bloquear [o corredor]”, disse Ali Akbar Velayati, principal conselheiro do aiatola Ali Khamenei, citado pela AFP. "Este corredor não se tornará uma passagem sob controlo de Trump, mas sim um cemitério para os seus mercenários", prosseguiu Velayati, citado pela Reuters, que apelidou o plano de “impossível”.

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