EUA com a maior taxa de mortes relacionadas com armas em mais de 25 anos

CNN , Jaqueline Howard
11 mai, 10:15
Desfile de armas em Milwaukee, Wisconsin, nos Estados Unidos

Novos dados mostram subida de 35% de um ano para o outro nas mortes com armas de fogo nos Estados Unidos.

Com demasiada frequência, a Dra. Debra Houry viu-se coberta de sangue.

Como médica de urgências nos Estados Unidos há cerca de 20 anos, disse Houry, era uma "ocorrência frequente" tratar homens jovens na sala de urgências com ferimentos de balas. Eles muitas vezes "sangravam" em cima dela enquanto os ressuscitava.

Depois, ela procurava no hospital uma bata branca limpa para usar, "para que parecesse respeitável e apresentável para conversar com as suas famílias - ou com alguém que sobrevivera, mas em resultado disso ficara paralisado ou sofrendo stress traumático", contou.

"Isso era de partir o coração."

A taxa de mortes relacionadas com armas nos EUA parece estar a piorar.

A taxa de homicídios com armas de fogo nos EUA em 2020 foi a mais alta registada desde 1994, de acordo com dados publicados esta terça-feira pelos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA, onde Houry é vice-diretora principal e chefe do Centro Nacional de Prevenção de Ferimentos.

Entre 2019 e 2020, a taxa geral de homicídios com armas de fogo aumentou cerca de 35%, de acordo com os novos dados do Relatório Semanal de Morbidade e Mortalidade do CDC.

“A pandemia da covia-19 pode ter exacerbado os fatores de stress sociais e económicos existentes, que aumentam o risco de homicídio e suicídio, particularmente entre certas comunidades raciais e étnicas”, escreveram os investigadores do CDC no seu relatório.

“Os aumentos nas taxas de homicídio com armas de fogo e as taxas persistentemente altas de suicídio com arma de fogo em 2020, com aumentos entre populações que já estavam em situação de elevado risco, ampliaram as disparidades e aumentaram a urgência de ações que podem ter benefícios imediatos e duradouros”.

Em 2020, 79% de todos os homicídios e 53% de todos os suicídios envolveram armas de fogo, de acordo com o CDC, o que é um pouco mais do que nos cinco anos anteriores.

Homicídios com armas de fogo aumentam, taxas de suicídio permanecem estáveis

Os investigadores do CDC examinaram os dados sobre mortes com armas dos Sistemas Nacionais de Estatísticas Vitais da agência e do Centro Nacional de Estatísticas de Saúde, enquanto observavam de perto os dados a nível de condados e os dados dos censos americanos sobre pobreza.

Os investigadores descobriram que, durante a pandemia da covid-19, em 2020, os condados dos EUA com o maior nível de pobreza tinham taxas de homicídio e suicídio com armas de fogo 4,5 e 1,3 vezes maiores, respetivamente, do que os condados com o menor nível de pobreza.

"Isto é uma grande lição para mim", disse Houry. "Porque se vamos olhar para onde intervir, é em muitas dessas comunidades empobrecidas."

De 2019 a 2020, a taxa geral de homicídios com armas de fogo subiu de 4,6 mortes para 6,1 mortes por 100.000 pessoas em todo o país, de acordo com os novos dados. Mas esse aumento não foi distribuído igualmente, revelando crescentes disparidades nos homicídios.

Os maiores aumentos em 2020 ocorreram entre rapazes e homens negros de 10 aos 44 anos, e índios americanos ou nativos do Alasca com idades entre 25 e 44 anos, mostram os dados.

As descobertas do CDC sobre a taxa de homicídios com armas de fogo seguem de perto o Relatório Uniforme de Crimes de 2020 do FBI, divulgado em setembro. Os dados do FBI mostram um aumento de 29,4% nos homicídios entre 2019 e 2020, o maior salto que a agência já registou. A UCR registou a taxa de homicídios nos EUA como 6,5 por 100.000 pessoas. O relatório também afirmou que os homicídios são cada vez mais realizados com armas de fogo, afirmando que cerca de 77% dos homicídios reportados em 2020 foram cometidos com armas de fogo, contra 74% em 2019. Não há base de dados federal de vendas de armas, mas outros estudos independentes descobriram que as vendas de armas dispararam durante a pandemia da covid-19.

Mais de 21 mil homicídios registados em 2020 nos EUA

Os números divulgados pelo FBI em 2021 mostram que 2020 teve o maior aumento de homicídios num ano desde que a agência começou a rastrear estes crimes, na década de 1960.

Enquanto isso, a taxa geral de suicídio com arma de fogo entre pessoas com 10 anos ou mais permaneceu quase ao mesmo nível entre 2019 e 2020, subindo apenas ligeiramente de 7,9 para 8,1 mortes por 100.000 pessoas, apuraram os investigadores do CDC no seu novo relatório.

“Embora a taxa geral de suicídio com arma de fogo tenha permanecido relativamente inalterada entre 2019 e 2020, jovens e alguns grupos raciais/étnicos minoritários experimentaram aumentos no suicídio com arma de fogo”, escreveram os investigadores.

O maior aumento ocorreu entre os índios americanos e nativos do Alasca, resultando no grupo com a maior taxa de suicídio com arma de fogo em 2020.

O relatório não incluiu informações sobre o tipo específico de armas de fogo utilizadas. "Muitas vezes essa informação não está incluída na certidão de óbito. Quando está incluída, o tipo mais comum de arma de fogo é uma pistola", disse na terça-feira Thomas Simon, diretor associado de ciências da Divisão de Prevenção à Violência do CDC.

“Quando fui para a faculdade de Medicina, não conversávamos sobre isto”

A violência armada é um "problema significativo de saúde pública", escreveu Houry num artigo de opinião com Simon e com o Dr. Alexander Crosby, publicado terça-feira na revista médica JAMA.

Eles observam que os médicos podem desempenhar um papel importante ao conversar com os pacientes sobre segurança no uso de armas, mas as escolas de Medicina geralmente não incorporam a segurança com armas de fogo, a prevenção da violência e determinantes sociais de saúde nos seus currículos.

"Quando fui para a faculdade de medicina, isto era algo sobre o que não conversávamos nem éramos treinados. Não comecei a pensar nisto até ver as consequências", disse Houry.

Como estudante da faculdade de Medicina no final dos anos 1990, Houry sabia que a violência armada era um problema nos Estados Unidos. "Mas acho que não conhecia a magnitude e que não percebi o impacto pessoal que isto teria em mim e nos meus pacientes", afirmou.

No seu artigo na JAMA, Houry e os seus colegas fizeram referência a um estudo com mais de mil médicos de família que apurou que quase metade dos médicos de família (46%) relataram não ter treino em aconselhamento de segurança de armas de fogo, e que cerca de dois terços (68%) não se sentiam bem informados para discutir sobre dispositivos de armazenamento seguro de armas de fogo.

"Mas aqueles que receberam treino formal eram mais propensos a relatar um nível mais alto de conforto ao perguntar aos pacientes sobre a posse de armas de fogo", disse Houry. “Então, para mim, trata-se de garantir que os médicos entendam o seu papel e tenham as ferramentas sobre o que fazer”.

“Precisamos de descobrir como baixar o nível de conflito da nossa sociedade”

As comunidades também podem usar estes novos dados sobre mortes com armas de fogo para considerar intervenções para reduzir a violência.

"Subsídios para cuidados infantis podem reduzir os fatores de stress e prevenir a violência", disse Houry. "Também financiamos estudos à volta de iniciativas verdes para onde se pode entrar e fazer um terreno vago parecer melhor ao plantar relva e árvores. Isso demonstrou poder reduzir os ataques com armas de fogo em até 29% em zonas pobres".

O CDC está a financiar 18 projetos de estudos de dois anos sobre violência armada. "Com as recentes dotações do Congresso nos últimos dois anos, conseguimos financiar 18 promissores projetos para analisar inovações para prevenir a violência com armas de fogo", disse Houry durante uma teleconferência na terça-feira.

A crescente taxa de homicídios nos EUA é uma ameaça preocupante à saúde pública do país - mas não é surpreendente, disse à CNN o Dr. Georges Benjamin, diretor executivo da Associação Americana de Saúde Pública, no ano passado. Ele afirmou que o aumento dos homicídios ocorreu em paralelo com um recente aumento geral da violência, ódio, tensões, divisões políticas e raiva exibidas em comunidades em todo o país.

"Estamos literalmente a ver isso à frente dos nossos olhos - em reuniões do conselho escolar e eventos públicos", disse Benjamin. "As pessoas parecem ter perdido toda a civilidade, e então você junta isso com ter de ficar em casa e ficar stressado com isso, perder o seu emprego, perder recursos, medo com a sua saúde, mais armas", disse ele. "Acho que precisamos descobrir como reduzir o nível de conflito da nossa sociedade."

 

Como obter ajuda: Em Portugal, contacte o Serviço de Saúde Mental do Hospital da sua região – AdultosInfância e Adolescência. A linha SNS24 (808 242424 e www.sns24.gov.pt) e o 112 também estão disponíveis. Entre em contacto através das Linhas de Crise e da Linha de Aconselhamento Psicológico. Para mais informações, consulte o Plano Nacional de Prevenção do Suicídio.

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