Um dos arguidos no esquema utilizava motas de água para esconder as armas numa ilha do rio São Lourenço, onde seriam recolhidas e levadas para o Canadá, segundo um memorando de detenção relativo a um dos arguidos
Há dois anos, em agosto de 2024, polícias que investigavam um rapto numa residência em Montreal, no Canadá, encontraram uma pistola Glock com o número de série adulterado que tinha sido legalmente comprada no New Hampshire, mostram documentos judiciais.
No final, aquela única pistola e dois invólucros de munição recuperados posteriormente, rastreados pelas autoridades norte-americanas, deram às forças de segurança informação suficiente para desmantelar uma rede internacional de tráfico de armas, através de uma parceria relativamente recente que permite a partilha sofisticada de informações para travar a violência armada no Canadá, afirmaram as autoridades.
Os investigadores utilizaram técnicas avançadas de rastreamento para recuperar o número de série da Glock 26 apreendida em agosto de 2024 e acabaram por acusar 13 arguidos como parte de uma alegada conspiração que fazia chegar as armas do New Hampshire ao Canadá através de território indígena no norte do estado de Nova Iorque. Pelo menos cinco dos arguidos declararam-se culpados de acusações federais relacionadas com armas de fogo, segundo o Departamento de Justiça dos EUA.
Um dos arguidos no esquema utilizava motas de água para esconder as armas numa ilha do rio São Lourenço, onde seriam recolhidas e levadas para o Canadá, segundo um memorando de detenção relativo a um dos arguidos.
A grande operação policial fez parte de uma tendência emergente relacionada com armas de fogo ilegais encontradas no Canadá: até metade das armas utilizadas em crimes e recuperadas no Canadá eram introduzidas clandestinamente a partir dos EUA, segundo estatísticas do Bureau of Alcohol, Tobacco, Firearms and Explosives (ATF).
Para travar esta situação, as autoridades canadianas estabeleceram uma parceria com o ATF para utilizar tecnologia avançada de rastreamento, na esperança de obter pistas, afirmaram as autoridades. A parceria já teve efeitos em cadeia, identificando alvos que, de outra forma, teriam passado despercebidos e conduzindo a acusações formais, como no caso dos 13 arguidos.
“Conseguimos concentrar-nos na violência criminal na sua origem”, afirmou Thomas Greco, agente especial responsável pela Divisão de Boston do ATF, à CNN. “Muitas destas armas têm origem nos Estados Unidos, por isso é nossa responsabilidade, nosso dever e nosso trabalho chegar à origem e garantir que isto não volte a acontecer.
“E, no futuro, estamos a construir uma base de dados e conhecimento, para que, se estas coisas começarem a aparecer e conduzirem à mesma zona, aos mesmos intervenientes e às mesmas pessoas, estejamos preparados. É uma abordagem tão preventiva quanto reativa.”
O rastreamento de armas no centro da parceria
A parceria entre o ATF e as autoridades policiais canadianas começou em 2023, altura em que ferramentas de informação sobre armas utilizadas em crimes - como a análise balística, que pode, em última instância, associar invólucros de munição às armas e aos atiradores - passaram a ser partilhadas em tempo real com várias forças de segurança.
Desde a expansão para a província do Quebeque em 2023, por exemplo, o número de rastreamentos de armas passou de 100 a 200 por ano para cerca de 4500 por ano, mostram estatísticas do ATF. Em todo o Canadá, o ATF facilita cerca de 15 mil pedidos de rastreamento, mostram os dados.
O rastreamento de armas tornou-se particularmente útil à medida que as autoridades continuam a apreender armas de fogo ilegais. As autoridades canadianas identificam entre 17 mil e 20 mil armas de fogo ilegais por ano, segundo as estatísticas. Dessas armas ilegais, entre 44% e 50% são introduzidas clandestinamente no Canadá a partir dos EUA, mostram os dados.
Nas principais cidades canadianas, entre 78% e 90% das armas utilizadas em crimes e recuperadas tiveram origem nos Estados Unidos ou foram introduzidas clandestinamente a partir daí, afirma o ATF.
O rastreamento permite finalmente às autoridades obter uma imagem completa das armas ilegais no Canadá, afirmou Greco.
“Não se trata necessariamente de um aumento da atividade. Trata-se de um aumento do rastreamento destas armas de fogo”, afirmou Greco. “A atividade sempre existiu. A diferença é que agora temos muito mais recursos dedicados a rastreá-la. Assim, desde 2023, o número de armas que rastreamos aumentou, o que nos permitiu construir uma base de conhecimento muito mais ampla sobre quem compra estas armas, quem as trafica e de onde vêm.”
Embora a violência armada não seja tão prevalente no Canadá como nos EUA, estatísticas recentes dão uma ideia da dimensão que a utilização ilegal de armas de fogo alcançou no país.
As forças policiais canadianas registaram uma queda de 4,2% nos crimes violentos relacionados com armas de fogo entre 2023 e 2024 — a maior descida em 10 anos, segundo dados compilados pela agência estatística central do Canadá. Apesar da descida, os crimes relacionados com armas de fogo continuavam a ser 44% mais frequentes em 2024 do que em 2014, mostram as estatísticas.
O aumento destes crimes relacionados com armas de fogo foi impulsionado por infrações específicas, incluindo disparar uma arma com intenção criminosa, utilizar uma arma na prática de um crime e apontar uma arma a alguém, mostram os dados. Estes crimes duplicaram entre 2014 e 2024, sendo que uma das categorias, a de disparar uma arma de fogo, aumentou mais de três vezes durante esse período.
Registaram-se recentemente vários incidentes violentos de grande impacto em que as armas de fogo foram o principal fator.
Duas pessoas morreram e várias outras ficaram feridas quando dois atiradores abriram fogo no maior festival de rua do Canadá, em Toronto, em julho.
Um agente da polícia morreu e outra pessoa ficou ferida quando um atirador abriu fogo num bairro de Montreal, em junho, afirmaram as autoridades.
Uma mulher abriu fogo dentro de uma escola e matou oito pessoas, ferindo dezenas de outras, numa cidade montanhosa do Canadá, em fevereiro. Cinco estudantes, com idades entre os 12 e os 13 anos, morreram naquele que as autoridades classificaram como o pior tiroteio numa escola em décadas.
“Em vez de estar limitado a gangues de rua, estamos agora a ver grupos de crime organizado que operam em diferentes tipos de atividades criminosas a atuar de forma bastante descarada nos crimes com armas”, afirmou Trishann Pascal, diretora executiva e responsável nacional pelo combate ao contrabando de armas na Canada Border Services Agency. “Os tiroteios em massa continuam a não ser a norma, mas os grupos criminosos organizados que utilizam e obtêm armas de fogo são, sem dúvida, algo que está a aumentar e que constitui uma preocupação pública.”
Armas introduzidas clandestinamente através de uma ilha
Foi o rastreamento de armas de fogo - como no caso da pistola com o número de série adulterado e dos dois invólucros de munição recuperados posteriormente - que ajudou a combater a violência armada, afirmaram as autoridades.
Membros do Departamento de Polícia de Montreal encontraram a arma, uma Glock 26, em 30 de agosto de 2024, quando agentes fizeram uma rusga a uma residência no âmbito de uma investigação a um rapto, mostram os registos judiciais. Os investigadores conseguiram rastrear a arma até uma compra legal em Keene, New Hampshire, feita por um dos chamados compradores fictícios do esquema, segundo o memorando de detenção.
Cerca de uma semana depois, a polícia indígena de Akwesasne forneceu às autoridades norte-americanas invólucros de munição provenientes de uma detenção em território indígena no Quebeque, onde um suspeito tinha disparado a sua arma em 22 de julho de 2024, segundo o memorando. Um desses invólucros foi introduzido na National Integrated Ballistic Information Network (NIBIN) do ATF, que compara invólucros e outras provas e estabelece ligações com tiroteios envolvendo a mesma arma de fogo. Os dados mostraram uma correspondência com esse suspeito, segundo os registos judiciais.
Cerca de uma semana depois, o suspeito conduzia um automóvel em Nova Iorque, perto da fronteira com o Canadá, quando foi avistado pela polícia local e fugiu, acabando por abandonar o Toyota Camry de 2007 que conduzia, segundo o memorando. A polícia encontrou outro invólucro de munição no veículo, que foi introduzido na NIBIN e correspondeu ao caso do rapto investigado pelo Departamento de Polícia de Montreal, segundo o memorando.
A alegada conspiração, que os investigadores federais afirmam ter começado em julho de 2021, foi detetada graças à partilha desta sofisticada tecnologia de rastreamento de armas entre os EUA e o Canadá, anunciaram as autoridades policiais numa conferência de imprensa em maio.
O plano previa utilizar território de Akwesasne para atravessar entre os EUA e o Canadá, segundo os registos judiciais. Um dos arguidos no esquema chegou a utilizar motas de água para transportar armas da margem nova-iorquina do território de Akwesasne até à vizinha Cornwall Island, de onde as armas seriam depois transportadas de barco para o Canadá, segundo os registos judiciais.
Os investigadores afirmaram que várias das armas de fogo tinham sido recuperadas em diferentes locais de crimes no Canadá e estavam na posse de membros ou alegados membros do crime organizado.
Para proteger melhor o território indígena de atividades ilegais como o contrabando de armas, as autoridades policiais locais estão a reforçar a presença no terreno e a apostar fortemente na tecnologia, como drones e uma linha para denúncias, além da parceria entre as autoridades norte-americanas e canadianas, que inclui rastreamento, partilha de informações e até competências jurisdicionais.
“Tudo o que podemos fazer é tentar utilizar os recursos que existem”, afirmou Matthew Roark, chefe da Polícia Tribal Mohawk de St. Regis, salientando que proteger a fronteira não é responsabilidade exclusiva da sua agência e que a comunidade também deve denunciar atividades suspeitas. A Tribo Mohawk de St. Regis governa a comunidade de Akwesasne.
“Se acreditarem no vosso próprio povo e conseguirem o apoio da comunidade, esses grupos de crime organizado irão para outro lado”, afirmou Roark.
Poucos dias antes de as autoridades policiais do New Hampshire anunciarem, em maio, a acusação relativa à rede de contrabando de armas, as autoridades federais de Nova Iorque detiveram e acusaram três homens por alegadamente tentarem introduzir clandestinamente 89 armas de fogo no Canadá - incluindo 17 que tinham sido dadas como roubadas. O arsenal foi encontrado no interior do veículo em que viajavam, com a maioria das armas acondicionada numa grande mala e algumas escondidas no banco traseiro, segundo as autoridades federais de Nova Iorque.
Bryan DiGirolamo, agente especial responsável pelo ATF em Nova Iorque, afirmou à CNN que, quanto mais armas são rastreadas, mais crimes entre os EUA e o Canadá podem ser relacionados, acabando por expor redes de tráfico. São as parcerias, não apenas no Canadá, mas também com agências locais em todo o estado de Nova Iorque, que, segundo DiGirolamo, fazem a diferença.
“Estabelecemos essas relações, especialmente ao longo da fronteira, à medida que assistimos a um aumento das armas que seguem para norte, e estamos a detetar esse aumento porque as estamos a intercetar, algumas por acaso e outras através da análise dos nossos dados”, afirmou DiGirolamo. “Conseguimos estabelecer ligações entre crimes e identificar redes criminosas mais cedo do que alguma vez conseguimos.”
E, embora as forças de segurança continuem a combater os traficantes de armas, a natureza do negócio continua a ser suficientemente lucrativa para levar algumas pessoas a correr o risco.
Um dos cúmplices acusados no caso da rede entre o New Hampshire e o Canadá disse aos investigadores que considerava que a venda de armas de fogo dava bom dinheiro e lhe renderia mais do que o seu trabalho habitual como mecânico, segundo os registos judiciais. Os procuradores afirmaram que um dos arguidos tentou vender cinco armas de fogo por pelo menos 3000 dólares cada e fazê-las passar através da ilha, segundo o memorando de detenção.
“Podemos obter uma Glock por qualquer valor entre 350 e 500 dólares, digamos, a preço de retalho, e … a margem de lucro, dependendo da altura ou do que quer que seja, é muito boa”, afirmou à CNN Jackie Cunningham, chefe interina dos assuntos internacionais do ATF. Se um contrabandista conseguir fazer passar várias armas pela fronteira, “isso é algo que torna extremamente vantajoso para as redes de tráfico de armas fazê-lo”.
