Programas de TV interrompidos, séries paradas, milhares nas ruas: a greve que está a deixar Hollywood em alvoroço

4 mai 2023, 22:24
Greve dos argumentistas nos EUA

A greve dos argumentistas norte-americanos, convocada pelo Writers Guild of America (W.G.A.), começou na terça-feira e veio pôr fim a 15 anos de paz laboral. Muitas celebridades têm apoiado este protesto, cujos efeitos já se fazem sentir

O piquete de greve junto aos escritórios da Netflix em Nova Iorque impressiona. São milhares de argumentistas que protestam junto às instalações do gigante tecnológico. "Distribuam a riqueza", "Protejam os direitos de autor", "À vossa consideração: um acordo justo" são algumas das frases nos cartazes erguidos pelos manifestantes, esta quarta-feira. É um cenário que se estende a Los Angeles e que acontece como há muito não se via nos Estados Unidos: pela primeira vez desde 2007, os guionistas do cinema e da televisão estão em greve por melhores condições de trabalho.

A paralisação convocada pelo Writers Guild of America (W.G.A.), que junta os dois principais sindicatos dos argumentistas norte-americanos, começou na terça-feira e veio pôr fim a 15 anos de paz laboral em Hollywood. De um lado, estão 11.500 argumentistas, do outro os grandes estúdios de televisão e cinema, como a Disney, a Universal ou a Paramount, e os gigantes tecnológicos como a Netflix, a Amazon e a Apple. Segunda-feira era o último dia para que os argumentistas e a Aliança dos Produtores de Televisão e Cinema (AMPTP), que representa mais de 300 empresas, chegassem a acordo, mas as negociações para um novo contrato coletivo de trabalho não terminaram com um final feliz e os efeitos desta paralisação já se fazem sentir.

Os talk-shows, sejam os diários como o "The Tonight Show Starring Jimmy Fallon", o "Jimmy Kimmel Live!", o "The Late Show With Stephen Colbert", ou semanais, como o "Real Time with Bill Maher" ou o "Last Week Tonight with John Oliver", já foram interrompidos e as cadeias de televisão estão a recorrer a gravações de episódios já transmitidos.

A não realização destes programas implica o cancelamento de dezenas de entrevistas e atuações. Stephen Colbert, por exemplo, tinha convidado para esta semana as atrizes Priyanka Chopra Jonas e Chita Rivera, os atores Michael J. Fox e Zach Cherry e a argumentista Shonda Rhimes. Já Jimmy Fallon tinha entre os entrevistados a cantora Jennifer Lopez e a atriz Elle Fanning. Por sua vez, Jimmy Kimmel teria no programa o humorista Ricky Gervais, as atrizes Gina Rodriguez e Melissa McCarthy e as bandas The Pixies e The Smashing Pumpkins. O "Saturday Night Live", que é sempre apresentado por um artista diferente, ia ter esta semana o ator Pete Davidson na condução do programa, mas a transmissão já foi cancelada e será substituída por uma repetição.

Ainda que diretamente afetados, os principais protagonistas destes talk-shows já manifestaram solidariedade para com os colegas de trabalho. Foi o caso de dois anfitriões da NBC, Jimmy Fallon e Seth Meyers. "Não teria programa sem os meus guionistas. Apoio-os, sempre", afirmou Fallon, quando questionado sobre o assunto na Met Gala. "Nem todos conseguem ter um emprego nesta indústria. Mas para aqueles que têm é um direito que tenham uma compensação justa. É uma exigência bastante razoável a que está a ser reivindicada pelo sindicato. E eu apoio essa exigência", sublinhou Meyers, no seu "Late Night". A imprensa norte-americana até noticia, citando fontes próximas dos dois apresentadores, que tanto Fallon como Meyers prometem pagar aos grevistas depois de a NBC o deixar de fazer.

Mas os efeitos desta paralisação não ficam por aqui e já levaram à interrupção da produção de várias séries. São os casos de "Cobra Kai", "Yellowjackets", "Abbott Elementary", "Night Court" e "Big Mouth". E de acordo com a Deadline, a lista poderá aumentar, consoante a duração do protesto.

Jon Hurwitz, coautor de "Cobra Kai", série que já vai para a sexta temporada na Netflix, partilhou a seguinte mensagem no Twitter: "Não gostamos de fazer greve, mas se temos de o fazer, fazemos greve a sério. Não há guionistas no set. Não são tempos divertidos, mas infelizmente é o que é necessário. Quando um acordo justo entrar em vigor, voltaremos em força."

Também a escrita da terceira temporada de "Yellowjackets", da Showtime, foi interrompida por causa da greve. A notícia foi partilhada por Ashley Lyle, uma das argumentistas, no Twitter: "Bom, estivemos apenas um dia na sala de argumentistas de Yellowjackets. Foi incrível, criativamente revigorante e muito divertido e estou muito entusiasmada para voltar logo que a WGA consiga um acordo justo", sublinhou.

Espera-se que algumas séries já em rodagem, como "House of the Dragon" ou "Mandalorian", não sejam afetadas pelo facto de os argumentos já estarem prontos. Ainda assim, essa hipótese não está completamente descartada pois, não raras vezes, é necessário reescrever cenas dos guiões com a série já em rodagem, sendo até frequente os argumentistas estarem presentes nas gravações para eventuais alterações.

No caso do cinema, o impacto deverá será menor, uma vez que a maioria dos filmes com estreia prevista para 2024 estão já em pós-produção ou rodagem. Mas tudo dependerá da duração do protesto: se a greve durar quatro meses ou mais, poderá ser necessário rever calendários e até adiar estreias.

Celebridades juntam-se à greve

A última greve de argumentistas norte-americanos, em 2007, durou 100 dias, ou seja, mais de três meses, e estima-se que, por causa dessa paralisação, a economia de Los Angeles, cidade onde estão sediadas as principais empresas do setor, tenha perdido 2,1 mil milhões de dólares.

Desta vez, o impacto da paralisação também vai depender da sua duração, mas o certo é que a maioria das empresas tem vindo a tomar medidas para fazer face ao protesto, ao mesmo tempo que têm procurado tranquilizar os investidores nesse sentido. Foi isso que fez o diretor executivo da Netflix, Ted Sarandos, que garantiu que a plataforma tem conteúdos suficientes para aguentar a greve durante "um longo período".

Ninguém consegue antecipar por quanto tempo os guionistas estarão, de cartazes em riste, às portas dos grandes estúdios e das grandes produtoras (tudo vai depender da continuação de negociações que permitam chegar a um acordo que satisfaça ambas as partes), mas sabe-se que não estarão sozinhos. Muitos atores bem conhecidos têm-se juntado à luta, integrando as manifestações, tanto em Nova Iorque, como em Los Angeles. Susan Sarandon, Cynthia Nixon, Rob Lowe e Natasha Lyonne são algumas das celebridades que fizeram questão de apoiar os colegas na rua.

A atriz Cynthia Nixon, conhecida pelo papel em "Sexo e a Cidade", juntou-se ao protesto
Atriz Susan Sarandon participa no protesto dos argumentistas

Mas, afinal, o que reivindicam os argumentistas?

O momento é crucial e descrito pelos próprios profissionais como "existencial" e de "sobrevivência". Os argumentistas explicam que, por causa das várias transformações no setor, se tem assistido à progressiva degradação das suas condições de trabalho. É que, apesar de na última década, o boom das plataformas de streaming ter impulsionado um grande número de novas produções televisivas, os guionistas queixam-se de que os seus salários permaneceram estagnados e, em muitos casos, os rendimentos até diminuíram.

Com efeito, gigantes como a Netflix e a HBO trouxeram novas regras ao mercado: séries de televisão com menos temporadas, temporadas mais curtas, compensações por direitos de autor que deixaram de existir. Há dez anos, escrever para uma série com cerca de 20 episódios já garantia rendimentos suficientes para que o guionista vivesse bem o resto do ano, mas, atualmente, diz o W.G.A., com temporadas mais reduzidas (entre oito a 12 episódios, em média) isso já não acontece.

Por outro lado, se antes os argumentistas recebiam diversas compensações por direitos de autor, verbas chamadas de "residuals" - isso acontecia sempre que uma obra era licenciada ou através da venda de DVD's -, agora, as plataformas de streaming pagam um valor fixo por esses direitos, independentemente de o conteúdo ser um fenómeno de visualizações ou não. E o que os sindicatos exigem é precisamente uma maior participação nos lucros gerados pelas reproduções nas plataformas de streaming, pedindo uma reavaliação destes valores fixos, que considera "demasiado baixos".

Discutir o impacto da inteligência artificial na profissão é também uma prioridade para os sindicatos e, depois, um ponto fulcral que tem sido muito contestado pelos estúdios: garantir que as empresas tenham equipas de guionistas com um número fixo mínimo de trabalhadores por um determinado período de tempo, sejam eles necessários ou não. A AMPTP não aceita esta exigência, mas refere, em comunicado, que apresentou uma proposta com "aumentos generosos em compensações para os argumentistas" que não foi aceite.

Os executivos dos grandes estúdios têm defendido que este não é o momento para aumentos salariais, alegando que existe um contexto adverso para a indústria: uma situação económica volátil, turbulência nos mercados de tecnologia e media e o enfraquecimento do panorama publicitário. Muitas empresas do setor têm, de resto, optado por cortes de custos e despedimentos. A Disney, por exemplo, começou um processo no âmbito do qual vai despedir cerca de 7 mil trabalhadores, que representam cerca de 3% da força global de trabalho da empresa. O objetivo é cortar 5,5 mil milhões de dólares em custos. Também a Warner Bros, com uma dívida de 50 mil milhões, é outra das empresas que tem feito cortes e despedimentos. O receio é de que as grandes produtoras até aproveitem a greve para reduzir custos.

Ainda assim, os argumentistas prometem não parar os protestos. Os sindicatos acusam os grandes estúdios de se sentarem à mesa das negociações com uma "postura inamovível", que tem contribuído para a desvalorização da profissão. Chris Keyser, porta-voz do W.G.A., afirmou que "quer em termos filosóficos, quer em termos práticos" as duas partes estão "muito longe" uma da outra. Será necessário seguir os próximos episódios para conhecer o desenlace deste impasse, que já está a deixar Hollywood em alvoroço.

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