Archie, 12 anos, tinha a morte marcada para as 11h00: o que todas as mães e os pais do mundo devem saber sobre ele e o TikTok

3 ago, 13:16

Archie Battersbee, uma criança britânica de 12 anos, está em morte cerebral. Os médicos defendem que a máquina de suporte de vida que o mantém vivo devem ser desligadas, os pais contestam, a Justiça do Reino Unido deu razão aos médicos. A ONU foi chamada a intervir, sem sucesso. Os médicos iam desligar a máquina pelas 11:00 desta quarta-feira. Mas de repente apareceu o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos. Archie ficou em morte cerebral na sequência de um desafio viral no TikTok - por isso mesmo, saiba o que você deve fazer para proteger os seus filhos destes desafios

Hollie Dance chegou a casa e deparou-se com o filho, Archie Battersbee, de 12 anos, inconsciente, com uma ligadura envolta ao pescoço. Aconteceu a 7 de abril deste ano no Reino Unido: a mãe acredita que este foi o resultado de um desafio viral da rede social Tik Tok, conhecido como "Blackout Challenge", que consiste em apertar o pescoço até se perder a consciência por falta de oxigénio.

A criança foi transportada para o Royal London Hospital, em Londres, onde foi diagnosticada com morte cerebral. O diagnóstico foi início de uma batalha judicial entre o hospital e os pais de Archie, que se recusam a aceitar a recomendação dos médicos para desligar as máquinas de suporte de vida que mantêm os sinais vitais da criança, em coma há vários meses. Hollie e Paul argumentam que o filho, apesar de não estar consciente, continuava vivo e desejam que assim se mantenha, ligado a um ventilador e um tubo de alimentação até à sua "morte natural".

Os médicos, por sua vez, acreditam que, mesmo que o tratamento de suporte de vida seja mantido, Archie irá acabar por morrer no decorrer das próximas semanas por falência de órgãos e insuficiência cardíaca. Mas a família mantém a esperança e recusa-se a acreditar que este será o desfecho de Archie. O caso foi a tribunal e os pais chegaram a recorrer às instâncias internacionais, nomeadamente à Organização das Nações Unidas (ONU), que escreveu uma carta dirigida aos médicos daquele hospital a apelar para que as máquinas continuem ligadas.

Porém, a Justiça britânica rejeitou o apelo da ONU, apontando que o organismo não possui força vinculativa sobre a lei nacional e, após vários requerimentos e deliberações, os juízes deram razão aos médicos, considerando que a manutenção dos tratamentos de suporte de vida não seriam do "melhor interesse" para a criança.

Juiz disse que Archie já não era "o mesmo menino" que os pais conheciam

Os três juízes do Royal Courts of Justice decidiram adiar o fim do tratamento de Archie durante 48 horas (até esta quarta-feira) para permitir que os pais da criança apresentassem um requerimento junto do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos para que se pronunciasse sobre o caso. Andrew McFarlane, um dos juízes do tribunal londrino, chegou a dizer que Archie "já não é o mesmo menino da fotografia" que se tornou viral após a divulgação do caso. A criança é agora "alguém cujas funções corporais são todas elas mantidas por meios artificiais”, acrescentou.


Archie Battersbee, o menino de 12 anos que morreu após um desafio na Internet (D.R.)

À saída do Royal Courts of Justice, Hollie Dance garantiu que não iria desistir do filho: "O sistema não deveria ter permissão para fazer isto às pessoas. Tudo o que pedi desde o primeiro dia foi tempo. Estamos a falar do meu menino e eu vou lutar tanto quanto possível."

Os pais de Archie decidiram então recorrer da decisão através do Supremo Tribunal, que garantiu que o caso mereceria a sua atenção com carácter de "urgência". A decisão foi anunciada no mesmo dia, mas não era a resposta que o casal esperava. Em comunicado, os juízes referem que os pais esgotaram os "direitos legais" para manter a criança ventilada. "O painel chega a esta conclusão com o coração pesado", pode ler-se no texto, citado pelos media britânicos.

Entretanto, Hollie e Paul recorreram ao Tribunal Europeu dos Direitos Humanos numa tentativa de adiar a decisão do Supremo Tribunal britânico de desligar as máquinas de suporte de vida do filho, evitando assim que as máquinas fossem desligadas.

O caso de Archie não é único - de acordo com o The Washington Post, são já várias as famílias que enfrentam um desfecho destes na sequência do desafio do Tik Tok. Nylah Anderson, uma menina de 10 anos, natural de Chester, no estado norte-americano da Pensilvânia, foi encontrada inconsciente no quarto em dezembro de 2021. Passado cinco dias a receber cuidados médicos no hospital, Nylah acabou por morrer.

Outras famílias de vários países denunciam situações semelhantes ao longo dos últimos dois anos: James Boyd-Gergely, um menor de 14 anos, da Austrália, morreu depois de participar no desafio em abril de 2020, e o mesmo aconteceu com uma menor de 10 anos, de Palermo, Itália, que morreu em janeiro do ano passado. 

Em declarações ao The Washington Post, na altura em que se soube da morte de duas crianças de 12 anos - uma de Colorado e outra de Oklahoma, nos Estados Unidos - em 2021, um porta-voz do Tik Tok classificou o desafio como "perturbador", mas demarcou a rede social das mortes decorrentes do mesmo, argumentando que as crianças parecem aprender sobre este desafio através de outras fontes além do Tik Tok, sendo aliás "um desafio que já existia" antes do surgimento da rede social [criada em 2016]. "Nunca foi uma tendência do Tik Tok", sublinhou.

"Não vale a pena proibir"

Face à gravidade destas situações, é natural que os pais se questionem sobre o que devem fazer para evitar que os seus filhos caiam na tentação de imitar os conteúdos a que assistem na Internet, tal como o fazem com as famosas danças do Tik Tok e outros desafios da rede social. Mas desengane-se quem acredita que proibir o acesso das crianças aos conteúdos é a solução.

De acordo com a psicóloga Bárbara Ramos Dias, especialista em Psicologia do Adolescente e autora do livro "Consegues Tudo o Que Queres", que explora este tema, "não vale a pena proibir" o acesso às aplicações, até porque as crianças "têm acesso a estas aplicações nas escolas" quando interagem com os colegas. A solução passa, por isso, por "alertar para os perigos e ensinar a navegar na Internet de forma segura", tal como ensinam os filhos "a atravessar a estradam, a pôr a mesa ou a não aceitar nada de desconhecidos na rua".

"Cabe-nos dar-lhes responsabilidade, maturidade, ensiná-los a dizer que não. Se controlarmos ou proibirmos, aí é que eles vão fazer muito pior", diz, invocando a velha máxima de que "o fruto proibido é sempre o mais apetecido".

Para os pais que acreditam que abordar o assunto pode ter o efeito contrário, isto é, pode despertar o interesse das crianças para estes conteúdos, a psicóloga Bárbara Ramos Dias garante que o pior mesmo é não mencionar estes temas e não alertar para os perigos: "Devemos alertá-los para que estejam preparados para, se isso acontecer, eles saberem dizer 'nã'o."

O controlo parental à distância

A psicóloga e psicoterapeuta Tânia Annes, da Clínica da Mente, também considera que proibir não é a solução, mas defende que "os pais têm de ter alguma autoridade nesta matéria", desde logo através do controlo parental dos conteúdos e do tempo que as crianças passam na Internet. Já existem aplicações que permitem fazer isso mesmo, como a Family Link da Google, que os pais podem instalar nos seus dispositivos e controlar à distância o que as crianças podem aceder quando utilizam telemóveis e tablets.

"Todas as aplicações têm essas restrições de conteúdos do que se pode ver, do número de horas que eles podem estar em frente ao ecrã, portanto os pais devem valer-se e devem utilizar esses controlos parentais para bloquear determinados conteúdos que não são adequados para a idade das crianças", diz.

Além das aplicações de controlo parental, Tânia Annes sugere que os pais não permitam o acesso das crianças às palavras-passe das aplicações das redes sociais, de modo a terem de pedir aos pais a autorização nesse sentido.

"Não podemos dar um telemóvel a uma criança e deixar que ela navegue livremente na Internet sem qualquer supervisão. Isto não é educar", sublinha

As recomendações da PSP

Contactada pela CNN Portugal, a PSP diz que "até ao momento não tem registo de casos ou conhecimento de qualquer situação suspeita passível de ser enquadrada neste desafio viral", mas alerta para a "necessidade uma forte supervisão relativamente ao acesso dos mais jovens à Internet".

"Os pais, tutores e ou adultos que tenham crianças ou jovens à sua responsabilidade devem estar atentos aos conteúdos por estes consultados e partilhados, mantendo observação direta sobre o dispositivo que está a ser utilizado e/ou através da consulta do histórico", refere.

A polícia aconselha os pais a "procurar obter informação relativamente às características destes 'desafios', assim como às diferentes formas de difusão, por forma a saber identificar os mesmos", e abordar a temática com as crianças e jovens "numa perspetiva educativa, construtiva e encaminhadora, elucidando-os acerca dos perigos que se encontram associados às mesmas e à utilização da internet em geral".

Os pais devem estar particularmente "atentos a alterações de comportamento das crianças/jovens, sobretudo a disposições anómalas de cariz depressivo ou apáticas/alheadas da realidade", acrescenta.

A segurança na internet é das temáticas "mais abordadas pela PSP", desde logo no âmbito do Programa Escola Segura, indica, apontando que, neste contexto, a polícia procura realizar "ações de sensibilização grupais com recurso a apresentações alusivas ao tema em sala de aula" e estabelecer "contactos individuais com toda a comunidade educativa, incluindo os pais dos alunos".

"Nestas ações são abordados os riscos inerentes à utilização da Internet, em geral, e das redes sociais, em particular, pelas crianças e jovens, dando-se especial ênfase aos “desafios”. Dessa forma procura-se criar uma comunidade mais informada acerca desta temática que possa, por sua vez, estar mais atenta e capacitada para conseguir reconhecer potenciais situações de risco, auto proteger-se e, se necessário, procurar apoio e comunicá-las à PSP", pode ler-se na resposta escrita enviada à CNN Portugal.

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