Archie iria morrer “dentro de semanas” – então porquê desligar as máquinas agora?

4 ago, 07:00

Caso do menino britânico de 12 anos gera debate exaustivo sobre a ética na medicina. Pode o tempo artificialmente prolongado de uma vida ser "fútil"?

O caso de Archie Battersbee, o menino de 12 anos em morte cerebral alegadamente depois de fazer um desafio viral do TikTok, mantém a atenção internacional, após a justiça britânica ter decretado o desligar do suporte de vida que o tem mantido vivo.

Em comunicado, os juízes do Royal Courts of Justice justificaram a decisão com o facto de os pais terem esgotado os “direitos legais” para manter a criança viva, e argumentam que, mesmo que o tratamento fosse mantido, Archie morreria dentro de poucas semanas devido a falência total dos órgãos e, de seguida, insuficiência cardíaca.

Foi assim que surgiu a questão: se Archie tem poucas semanas de vida, porquê desligar as máquinas agora e não esperar que o menino morra de forma mais natural, permitindo também aos pais fazer um luto menos tumultuoso, sem disputas nos tribunais?

A “tomada de decisão tem de ser em função do melhor interesse da criança”, afirma à CNN Portugal, a presidente da Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos (APCP), Catarina Pazes. Na qualidade de paliativista, prossegue, esse “é o primeiro aspeto a ter em conta: tem de ser o melhor para a criança. Não deve sofrer por obstinação terapêutica, mas também não pode ser sujeita a nenhum procedimento que acrescente tempo de vida que seja tempo de sofrimento”.

"Necessidades psicológicas e emocionais"

Relevando que é preciso atender às “necessidades psicológicas e emocionais” dos pais, que estão a “a sofrer imenso e precisarão de todo o suporte e acompanhamento durante esta situação”, a presidente da APCP defende que tem de existir um “equilíbrio”.

"Estando em grande sofrimento, [os pais] podem ter reações fortes de negação ou revolta. Este facto não pode levar a intervenções negativas para o paciente, mas tem de haver um equilíbrio que permita a boa prática clínica face ao paciente e a boa prática clínica face aos pais, que estão num sofrimento imenso e precisam de ajuda para entender que esta é a melhor decisão tendo em conta todo o contexto."

"Por muito que doa" continua Catarina Pazes, "temos de ter um consenso com os pais no sentido de eles perceberem que a decisão tomada é a que não permite um sofrimento acrescentado por medidas impostas por nós”. A responsável ressalva que este processo implica “competência ao nível da comunicação de toda uma equipa, que será multidisciplinar e não só médica, para abordar as várias dimensões do caso”.

Prolongamento "fútil"

Sofia Baptista, correspondente médica da CNN Portugal, afirma que o prolongamento da vida do menino britânico é “fútil” [termo técnico utilizado nestes casos].

“Archie Battersbee encontra-se em morte cerebral, estando as funções vitais asseguradas de forma artificial, pelo que o prolongamento desta vida é fútil, isto é, não é no melhor interesse da criança.  Isto custa ouvir e custa dizer. Como mãe, não consigo imaginar o sofrimento e sensação de impotência destes pais. Como médica, temos sempre o objetivo de salvar vidas e torná-las melhores”, subinha.

Vincando que “casos como este” provocam “angústia para pais e médicos”, Sofia Baptista salienta que o debate em torno deste caso deve ser “recentrado na ciência e na ética”.

“Recordemos que quer os médicos que assistiram o menino, quer os peritos ouvidos em tribunal, referiram que os exames realizados não revelaram atividade cerebral e que partes do cérebro de Archie apresentavam significativa necrose tecidual. Por outro lado, os princípios bioéticos da beneficência e não maleficência aplicam-se, na medida em que se pretende agir no melhor interesse do doente e evitando um prolongamento desproporcional, fútil e artificial da vida”.

O sofrimento dos pais

No programa “CNN Meio-dia”, a psicóloga Marta Leite afirmou que os pais devem esgotar todas as possibilidades de recurso de modo a poderem ter a “consciência tranquila de que fizeram tudo o que estava ao seu alcance”, apesar de todos os cenários apontarem para a inevitável morte de Archie.

“Essa parte é extremamente importante no processo de luto”, diz.

Marta Leite defende ainda que os pais de Archie precisam de um “excelente apoio psicológico” não só durante esta altura, mas também numa fase posterior, dado que o luto “tem várias fases” e a morte do menino “é o desfecho mais provável”.

O sentimento de os pais do menino de 12 anos estarem com dificuldades em aceitar um desfecho inevitável é “perfeitamente legítimo”, salienta a psicóloga. “Trata-se de um filho. Na prática clínica, o luto infantil é das questões mais complicadas de gerir. É contranatura, é um filho, uma criança, um ser extremamente pequeno. Não faz sentido para nós enquanto lei natural da vida, não é essa a sequência normal”.

Marta Leite realça também que o facto de o coração de Archie ainda bater constitui “a réstia de esperança que os pais precisam”, apesar do quadro clínico irreversível. “No fundo, não querem decidir quando é que termina a vida do filho, nem que ninguém decida por eles. Não contrariando tudo o resto, pois existem leis e procedimentos, para um pai e uma mãe [essa decisão] é completamente contranatura. Parece, de certa forma, que lhes estão a roubar a vida do filho. Nenhum pai ou mãe vai suportar ou aceitar isso. Estão a tentar lutar, agarrar-se a um milagre e ir até onde for necessário”, afirma.

Médicos turcos e japoneses dizem ter tratamento que permitirá que Archie “recupere” – será possível?

Esta quarta-feira, a mãe de Archie, Hollie Dance, revelou ter sido contactada por médicos turcos e japoneses, que asseguraram dispor de métodos de tratamento que permitiriam ao jovem “recuperar”. Será possível? Sofia Baptista refuta essa ideia. “Pelas razões que elenquei, e com base nos factos que foram trazidos a público, não vejo que as promessas vindas de médicos da Turquia e Japão tenham fundamento científico”, avalia a correspondente médica da CNN Portugal.

Catarina Pazes, por sua vez, refere que a discussão sobre as práticas terapêuticas a adotar “deve ser discutida entre profissionais”.

“A discussão sobre as abordagens terapêuticas a aplicar perante um caso clínico concreto deve ser discutida entre profissionais que tenham uma comunicação mais imparcial do ponto de vista afetivo, para perceber se faz sentido ou não [aplicá-las]”. A presidente da APCP refere, contudo, que a “apresentar possibilidades de tratamento a pessoas que estão desesperadas torna muito difícil que a decisão seja ponderada e adequada àquilo que a criança precisa. Pode ser um pouco injusto desse ponto de vista”.

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