Concertos dos Arcade Fire em risco? Vocalista Win Butler é acusado de abusos sexuais e a cantora Feist abandona a digressão

2 set, 10:24
Win Butler, Arcade Fire, abril de 2022 (AP/Amy Harris)

Investigação da Pitchfork revelou quatro acusações de assédio e abuso sexual contra o cantor da banda canadiana. Feist, que deveria fazer a primeira parte dos concertos, decidiu assumir as suas "responsabilidades e voltar para casa". E nas redes sociais já há quem peça o cancelamento da digressão

A cantora e compositora canadiana Feist anunciou que não vai continuar na digressão com os Arcade Fire depois de ter conhecimento das acusações de assédio e abuso sexual contra o líder da banda, Win Butler. E já há quem peça o cancelamento da digressão, que começou há dias na Irlanda e irá passar por Lisboa a 22 e 23 de setembro.

Uma investigação da Pitchfork publicada na semana passada revelou que o cantor e guitarrista de 42 anos da banda de indie rock canadiana teve comportamentos impróprios com quatro pessoas: três mulheres, com idades entre 18 e 23 anos na altura, alegaram que Butler lhes enviou mensagens sexuais indesejadas entre os anos de 2015 e 2020; uma quarta pessoa, de género fluido, acusa Butler de abusos sexuais, por duas vezes, em 2015, quando tinha 21 anos e o cantor 34. A Pitchfork viu as mensagens de texto e Instagram entre Butler e os quatro acusadores e entrevistou amigos e familiares, que se recordam dos incidentes.

Butler negou as acusações e garantiu que todas as relações eram consensuais, acrescentando em comunicado: “É profundamente revisionista, e francamente errado, alguém sugerir o contrário”.

"A maioria dessas relações foi de curta duração, e são do conhecimento da minha mulher [a cantora Régine Chassagne, também membro dos Arcade Fire] – no passado, o nosso casamento foi mais não convencional do que o habitual. Eu relacionei-me com as pessoas diretamente, em concertos e através das redes sociais, e enviei mensagens das quais não me orgulho. Mais importante ainda, cada uma dessas interações foi mútua e sempre entre adultos que consentiram", garante. "Nunca toquei numa mulher contra a sua vontade e qualquer insinuação de que o tenha feito é falsa. Nego veementemente qualquer sugestão de que me impus a uma mulher ou exigi favores sexuais. Isso simplesmente, e inequivocamente, nunca aconteceu."

No entanto, Win Butler admite que nem sempre as suas atitudes foram as mais corretas: “Embora essas relações tenham sido todas consensuais, sinto muito por qualquer um que tenha sido magoado com o meu comportamento”, escreveu o cantor. “Continuo a aprender com os meus erros e trabalho arduamente para ser uma pessoa melhor no futuro, alguém de quem o meu filho se pode orgulhar. [...] Lamento não estar mais atento e sintonizado com o efeito que tenho nas pessoas - fiz merda e, embora não seja uma desculpa, continuarei a olhar  para a frente, a curar o que pode ser curado, e a aprender com as experiências passadas”.

Régine Chassagne, casada com Win Butler desde 2003, emitiu um comunicado em defesa do marido, a que chama a sua "alma gémea": "Eu sei o que está no seu coração, e sei que ele nunca tocou e nunca tocaria numa mulher sem o consentimento dela e tenho certeza de que nunca o fez", disse. "Ele perdeu-se e encontrou o caminho de volta. Amo-o e amo a vida que criámos juntos." 

Feist: "Não posso continuar"

Na sequência destas revelações, a cantora Leslie Feist publicou uma longa declaração nas redes sociais, na qual explica porque decidiu afastar-se da digressão europeia dos Arcade Fire, que tinha começado no dia 31 de agosto em Dublin, na Irlanda. Feist iria fazer a primeira parte dos concertos, incluindo as duas datas já esgotadas em Lisboa. O que está aqui em causa, diz, “é maior do que eu, maior do que as minhas canções e certamente maior do que qualquer digressão". "Ficar na digressão significaria que estou a defender o Win Butler ou a ignorar o mal que ele fez, e abandoná-la faria de mim o juiz”.  Perante este dilema, a cantora decidiu que o melhor seria terminar a colaboração com os Arcade Fire.

A cantora de 46 anos explica que, “como toda a gente”, já passou por situações de masculinidade tóxica, misoginia ou assédio sexual. “Esta situação toca-nos a todas e não há uma só forma de nos curarmos, nem uma só forma de reabilitar os abusadores. (...) Não posso resolver nada abandonando a digressão, e não posso resolver nada ficando. Mas não posso continuar.”

"Sou imperfeita e irei viver com esta decisão de forma imperfeita, mas tenho a certeza que a melhor forma de cuidar da minha banda, da minha equipa e da minha família é afastar-me desta digressão, não desta conversa", explica. "Nas duas últimas noites em palco, as minhas canções tomaram a decisão por mim. Ouvi-las à luz destes acontecimentos tornou-as incoerentes face ao trabalho que sempre desenvolvi ao longo da minha carreira. Sempre escrevi canções para identificar as minhas próprias dificuldades mais subtis, tentar ser o melhor que pudesse e assumir as minhas responsabilidades. Então, vou assumir as minhas responsabilidades e voltar para casa".

Em comunicado, citado pela Pitchfork, os Arcade Fire responderam: “Lamentamos muito ver Leslie ir para casa, mas entendemos e respeitamos completamente a sua decisão”.

Até agora, o músico Beck, que deverá tocar nos concertos de Arcade Fire no continente americano, ainda não se pronunciou sobre o assunto.

Digressão dos Arcade Fire em risco?

As alegações levaram de imediato algumas estações de rádio no Canadá a retirar os Arcade Fire das suas playlists, relata a BBC. Um representante da CBC disse que a emissora iria "parar temporariamente" de passar as músicas "até que saibamos mais sobre a situação". Também a Indie88 de Toronto tomou "uma decisão rápida de retirar as músicas da banda do ar", disse o diretor do programa, Ian March, ao Ottowa City News.

Entretanto, nas redes sociais, vários fãs têm mostrado o seu descontentamento e há pessoas a pedir o cancelamento da digressão. Segundo a imprensa local, em Birmingham, Inglaterra, onde o grupo deverá atuar esta noite, vários fãs estão a pedir o reembolso do bilhete à Ticketmaster, alegando que, depois de saberem das acusações, já não querem ir ao concerto. 

 

 

 

 

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