Esta sexta-feira é uma oportunidade para provar que não temos medo: Arcade Fire

12 mai, 21:20
Win Butler, Arcade Fire, abril de 2022 (AP/Amy Harris)

"Não podemos ter medo para poder dizer algo sincero", dizem os Arcade Fire a propósito do seu novo disco. Podia ser dito a propósito da vida. E eles, os Arcade Fire, vêm cá a Portugal provar que são corajosos. Quem quiser provar o mesmo tem bilhetes para comprar esta sexta-feira

As músicas dos Arcade Fire são para serem cantadas o mais alto possível, de olhos fechados e no meio de uma multidão, dizem os fãs que têm motivos para estar felizes: a partir das 10.00 desta sexta-feira estão disponíveis os bilhetes para os dois concertos dos Arcade Fire em Portugal, agendados para os dias 22 e 23 de setembro no Campo Pequeno, em Lisboa, e com primeira parte assegurada pela cantora Feist.

Em palco vão estar Win Butler, vocalista e guitarrista, e Régine Chassagne, vocalista e multi-instrumentista, bem como o multi-instrumentista Richard Reed Parry, o baixista Tim Kingsbury e o baterista Jeremy Gara, além de outros músicos contratados para a digressão. 

“Conhecidos pelos concertos evidentemente grandiosos, únicos e energéticos”, como os descreve a promotora Everything Is New, os canadianos Arcade Fire vão apresentar-se no âmbito da digressão mundial de apresentação do álbum “We”, editado há apenas uma semana e que o grupo define como um disco sobre “as forças que nos afastam das pessoas que amamos e a necessidade urgente de superá-las”. 

De certa forma, “We” é o reflexo de dois anos de pandemia e de isolamento. O disco foi realmente afetado pelos acontecimentos de 2020, uma vez que o grupo tinha-se juntado para sessões de trabalho e criação em New Orleans quando, por causa da pandemia, todos os outros membros tiveram de voltar a casa ao fim de três dias e Win e Régine ficaram apenas com algumas demos e muitas ideias que, ao contrário do que costumam fazer, desenvolveram sozinhos, praticamente só com piano e guitarra. “Estávamos fechados em casa, que mais poderíamos fazer se não trabalhar naquelas músicas?”, perguntou-se Win Butler.

O álbum abre com “Age of Anxiety” I e II, faixas que devem o nome ao poema de 1958 de Lawrence Ferlinghetti, “I Am Waiting”. Ao The Guardian, Butler explicou que quando tinha 15 anos o seu professor de inglês, que integrava o movimento beatnik, convidou o amigo Ferlinghetti para fazer uma leitura de “Coney Island of the Mind” na escola. Foi um momento definidor na sua vida. Há algum tempo, o músico encontrou o livro numa caixa na casa dos pais e quando releu o poema “I Am Waiting” começou a chorar. “Tocou-me profundamente. Foi como se um espírito entrasse em mim.” Percebeu que os temas do poema são os temas sobre os quais tem escrito a vida toda: as dúvidas e a ansiedade sobre o que andamos aqui a fazer e o que caminho que tomamos.

“We” parece estar dividido em duas partes: a primeira fala do “eu” e do isolamento, a segunda é sobre a determinação que é necessária para encontrar o outro, o “nós”. “We can make it if you don’t quit on me / I won’t quit on you”, canta Butler. “You and me / Could be we”, responde-lhe Chassagne mais à frente.

“Trata-se do amor incondicional, o amor que não é baseado em mérito”, explicou o músico ao jornal inglês. “Não se trata de amar alguém porque é uma pessoa boa ou talentosa. É um amor que não tem nada que ver com o que que se faz, é algo que é dado livremente e é por isso que é a coisa mais preciosa.” “Amar alguém é difícil”, conclui. “Tem altos e baixos. E a beleza está no compromisso.”

Win Butler nasceu na Califórnia, cresceu no Texas e viveu numa série de locais até que aos 20 anos se mudou para Montreal, onde fundou os Arcade Fire com um amigo no ano de 2001. Eram jovens e tocavam guitarra. Pouco depois conheceram Régine Chassagne, uma estudante de música de Montreal com raízes no Haiti. Butler costuma contar que a viu a tocar standards de jazz num evento e ficou fascinado pela sua energia.

Na primeira vez que saíram juntos foram ver o filme “O Tigre e o Dragão”, na versão original em mandarim com legendas em francês e ela passou o filme a traduzir-lhe as falas ao ouvido. A colaboração começou ali, no escuro da sala do cinema, e mantém-se até hoje. Têm um filho de nove anos e vivem em New Orleans, nos EUA. 

Ele veio da pop e do rock, ela trouxe uma série de outras influências, do jazz a Jacques Brel ou Edith Piaf. Compõem juntos, produzem os discos juntos e em palco Régine canta, dança, alterna entre o acordeão, teclas ou xilofone. “O nosso processo de trabalho é a nossa vida”, explicou Win Butler ao New York Times. "Algumas músicas levam 20 anos a serem escritas, outras músicas levam 20 minutos.”

Nesse início da banda estiveram mais uma série de amigos e instrumentistas. Entre entradas e saídas, Reed Parry e Kingsbury apareceram logo a seguir e mantêm-se até hoje. Will Butler, irmão de Win, também se juntou pouco depois mas em março deste ano, após o lançamento do primeiro tema de “We”, “The Lightning I,II”, Will anunciou a saída da banda. “Não há nenhuma razão específica além do facto de eu ter mudado - e a banda também ter mudado - durante os últimos 20 anos. É tempo para coisas novas”, explicou no Twitter o músico que editou já dois álbuns a solo, o último dos quais “Generations”, em 2020.

Sem aprofundar muito a questão, o irmão revelou numa entrevista recente que compreendia a decisão e lembrou que Will tem três filhos pequenos: “A verdade é que só temos uma oportunidade para criar uma família e termos uma vida com ela”, disse. “Tenho orgulho que ele faça outras coisas.”

Em 2004, o álbum de estreia dos Arcade Fire, “Funeral”, tornou-se um dos maiores sucessos da história da editora indie Merge. No ano seguinte, entre muitas outras conquistas, estiveram em Coachella e Lollapalooza e receberam elogios de David Bowie e David Bryne (com quem haveriam de colaborar). O sucesso atingiu-os como um raio.

O segundo álbum de estúdio, “Neon Bible”, valeu-lhes o prémio de melhor álbum internacional nos Meteor Music Awards de 2008 e um Juno para álbum alternativo do ano. O disco de 2010, “The Suburbs” entrou diretamente para o número 1 do top norte-americano. Com ele, os Arcade Fire ganharam o Grammy de álbum do ano, o Juno de álbum do ano e o Brit Award para melhor álbum internacional. 

2013 foi o ano de “Reflektor” e foi ainda o ano de “Her”, filme de Spike Jonze com Joaquin Phoenix e Scarlett Johansson e com banda sonora original dos Arcade Fire - com a qual o grupo conseguiu uma nomeação para um Óscar.

“Everything Now”, de 2017, já não correu tão bem. Mas, ainda assim, tal como já tinha acontecido com os anteriores álbuns de estúdio, os Arcade Fire voltaram a estar nomeados para o Grammy de melhor álbum de música alternativa.

Ao longo destes 20 anos os músicos estiveram sempre envolvidos em algum tipo de ativismo, ajudaram organizações sem fins lucrativos na área da saúde, manifestantes indígenas e várias instituições haitianas. Apoiaram Obama, claro. Recentemente, a banda angariou 100 mil dólares para o Fundo de Socorro da Ucrânia fazendo uma série de pequenos concertos em clubes nos EUA. No sábado passado, quando promoveram o disco novo no programa de televisão “Saturday Night Live”, Butler defendeu “o direito da mulher a escolher, agora e para sempre, ámen” - numa referência às ameaças à lei do aborto nos EUA.

Cinco anos depois do relativo fracasso de "Everthing Now", o grupo está de volta com o seu sexto álbum, “We”, a que os críticos da imprensa especializada têm chamado “um recomeço”. O título foi roubado da autobiografia do aviador Charles A. Lindbergh, que Butler se lembra de ver em casa da avó. Mas também é uma referência à novela distópica do russo Yevgeny Zamyatin, de 1920. Como de costume, na cabeça de Win Butler e Régine Chassagne as referências misturam-se para se tornarem algo novo.

O disco conta com produção do britânico Nigel Godrich (conhecido pelo seu trabalho com os Radiohead), Peter Gabriel canta em “Unconditional II (Race and Religion)” e, aparentemente, o filho de Win e Régine também faz uma pequena colaboração em “The End of Empire”. No total, são apenas 40 minutos que eles esperam que se ouçam como uma unidade. 

“O importante para mim é não me preocupar com nenhum tipo de julgamento que as pessoas terão sobre o que eu faço como artista, porque isso é o oposto do que deve ser o espírito da música”, disse Butler ao New York Times. “Não podemos ter medo para poder dizer algo sincero.”

Estas são as canções de "We":

  1. "Age of Anxiety I"    
  2. "Age of Anxiety II (Rabbit Hole)" 
  3. "Prelude"
  4. "End of the Empire I–III"  
  5. "End of the Empire IV (Sagittarius A*)"
  6. "The Lightning I"    
  7. "The Lightning II"
  8. "Unconditional I (Lookout Kid)"  
  9. "Unconditional II (Race and Religion)" (featuring Peter Gabriel)
  10. "We"

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