Este país rico em petróleo tem travado a ação climática. Está discretamente a construir um império de energia limpa

CNN , Laura Paddison
7 mar, 15:00
Imagem de satélite da central solar Al Shuaibah, perto de Jeddah, na Arábia Saudita, a 8 de novembro de 2025. (Imagem: Agência Espacial Europeia)

A Arábia Saudita, um dos maiores produtores de petróleo do mundo e historicamente um travão à ação climática, está a acelerar a aposta na energia solar: quer chegar aos 50% de eletricidade renovável até 2030 e já lançou um boom de megacentrais no deserto, num movimento impulsionado sobretudo pelos baixos custos e pela procura interna crescente

Uma mancha geométrica escura interrompe a vasta extensão de areia em tons ocres na Arábia Saudita. De perto, a estrutura é composta por filas e mais filas de painéis solares, a brilhar sob o sol intenso que incide sobre esta terra árida e despida, a cerca de 100 quilómetros a sul da cidade de Jeddah.

Al Shuaibah 2 é a maior central solar da Arábia Saudita, com uma capacidade superior a 2 gigawatts, suficiente para abastecer cerca de 350 mil casas. Mas não deverá manter esse estatuto por muito tempo. Instalações ainda maiores já estão em desenvolvimento, à medida que megacentrais solares se multiplicam pelas zonas desérticas do país.

“Há um boom solar, ninguém pode negar isso”, afirma Nishant Kumar, analista de energias renováveis e do setor elétrico na empresa de investigação Rystad Energy. A Arábia Saudita comprometeu-se a produzir 50% da sua eletricidade a partir de fontes renováveis até 2030, e a corrida para cumprir essa meta já começou.

À primeira vista, pode parecer uma reinvenção improvável: afinal, este é um país do petróleo. A Arábia Saudita detém as segundas maiores reservas de crude do mundo, é o maior exportador global e tem, de forma consistente, resistido aos esforços internacionais para abandonar os combustíveis fósseis. Mas o que está a acontecer mostra que até o maior petro-Estado do planeta está a apostar na energia limpa, precisamente numa altura em que a administração Trump tenta travar esse setor.

O ritmo do crescimento solar na Arábia Saudita tem sido vertiginoso. “Nenhum país está a avançar mais depressa”, diz Dave Jones, cofundador do think tank climático Ember.

Em 2020, o país praticamente não tinha energias renováveis. Até ao final deste ano, deverá atingir 12 gigawatts de energia solar, disse Kumar à CNN. A Arábia Saudita acrescentou tanta capacidade em 2025 que entrou, pela primeira vez, no top 10 dos maiores mercados mundiais em novas instalações solares anuais, segundo dados da BloombergNEF.

E o boom não dá sinais de abrandar. A ACWA Power, gigante dos serviços públicos do país, que detém conjuntamente o complexo de Al Shuaibah, anunciou em julho - juntamente com empresas como a estatal petrolífera Saudi Aramco - um investimento de 8,3 mil milhões de dólares em 15 gigawatts de energias renováveis, maioritariamente solares.

Até 2030, a energia solar crescerá “a um ritmo muito rápido”, afirma Kumar. A Rystad prevê que mais de 70 gigawatts estejam instalados até ao final da década. “Além disso, estão também a instalar energia eólica em terra”, acrescenta.

Há planos para alimentar grandes projetos de infraestruturas com energia limpa, incluindo a cidade futurista de NEOM, avaliada em 500 mil milhões de dólares, e um projeto turístico de luxo no Mar Vermelho.

Conjuntos de painéis solares ajudam a alimentar a usina de dessalinização de água Jazlah em Jubail, Arábia Saudita, em 2024. (Imagem: Iman Al-Dabbagh/The New York Times/Redux)
Trabalhadores fabricam módulos fotovoltaicos na cidade de Suqian, província de Jiangsu, China, em julho de 2025. A Arábia Saudita estava entre os principais importadores de painéis solares chineses no ano passado. (Imagem: CFOTO/Future Publishing/Getty Images)
Um homem está à sombra debaixo de um painel solar numa fábrica em Uyayna, Arábia Saudita, em 2018. (Imagem: Fayez Nureldine/AFP/Getty Images)

É uma mudança marcante para um país construído sobre o petróleo. O “ouro negro” financiou a transformação da Arábia Saudita, de uma sociedade nómada do deserto para uma potência global significativa em apenas algumas décadas.

Mas os especialistas dizem que o avanço solar faz sentido por várias razões, sendo uma das principais a económica. Em termos simples: é barato.

“A energia solar é tão competitiva em termos de custos que faz todo o sentido financeiro”, diz Karen Young, investigadora sénior do Center on Global Energy Policy da Universidade de Columbia. Isto é especialmente relevante tendo em conta o rápido crescimento da procura de eletricidade no reino, impulsionado pelas necessidades de arrefecimento e dessalinização de água.

Os custos da energia solar caíram drasticamente graças à entrada massiva de painéis solares chineses baratos no mercado. Nos últimos dois anos, registaram-se “preços sem precedentes de tão baixos”, diz Jones, da Ember. Os custos das baterias também caíram, com os preços médios a descerem 40% só em 2024, segundo a Ember. As baterias tornam a energia solar — que de outra forma só está disponível quando o sol brilha — mais flexível e ainda mais atrativa.

Além disso, a energia solar adequa-se bem à Arábia Saudita: o sol brilha de forma fiável durante a maior parte do ano, o país dispõe de terrenos vastos e baratos, e a ligação à rede elétrica é pouco dispendiosa, já que há espaço para grandes centrais solares perto das grandes cidades, explica Jones.

O país beneficia também de economias de escala. “Todas as suas instalações são enormes”, o que lhes permite negociar preços mais baixos para equipamentos e construção, afirma Abdullah Alkattan, analista de transição energética para o Médio Oriente e Norte de África na BloombergNEF.

Outro motivo central para a aposta nas renováveis, dizem os especialistas, é substituir o petróleo na produção de eletricidade interna — e vendê-lo no exterior.

Um funcionário passa por tanques de armazenamento de petróleo bruto na Juaymah Tank Farm, parte do complexo Ras Tanura da Saudi Aramco em Ras Tanura, Arábia Saudita, em 2018. (Imagem: Simon Dawson/Bloomberg/Getty Images)

No âmbito da estratégia Visão 2030, destinada a diversificar a economia e reduzir a dependência do petróleo, a Arábia Saudita comprometeu-se a obter 50% da sua eletricidade a partir de energias limpas e 50% a partir de gás até ao final desta década.

Existem fortes incentivos económicos para isso. Queimar petróleo internamente é ineficiente e retirá-lo do mix elétrico permite vendê-lo nos mercados globais, explica Alkattan. “É aí que está o lucro.”

Isto não significa que as considerações climáticas estejam ausentes das políticas de energia limpa do país, acrescenta Alkattan. “Dizer que ‘50% renováveis, 50% gás’ é o sistema elétrico mais barato disponível para a Arábia Saudita é falso”, afirma. “Isto faz parte da iniciativa verde saudita.”

Alguns especialistas, no entanto, pedem cautela quanto à dimensão das ambições solares do país. “É significativo no sentido em que não estavam a fazer absolutamente nada… e depois, nos últimos dois anos, vê-se claramente uma mudança”, diz Ana Missirliu, analista de políticas climáticas do Climate Action Tracker (CAT), que avalia as políticas climáticas dos governos. “Mas diria que, comparado com o que é necessário, continua a ser muito, muito insuficiente”, diz à CNN internacional. 

As políticas e ações climáticas globais da Arábia Saudita são classificadas como “criticamente insuficientes” pelo CAT. As energias renováveis representavam apenas cerca de 2% do mix elétrico do país no final de 2024, diz Missirliu. Embora grandes quantidades tenham sido acrescentadas em 2025, ela considera que a meta para 2030 está longe de ser exequível.

Outros adotam uma perspetiva mais otimista. As projeções da Rystad indicam que a Arábia Saudita está no caminho para obter mais de um terço da sua eletricidade a partir de renováveis até 2030, e que a meta dos 50% poderá ser alcançada alguns anos depois.

Independentemente de a meta ser cumprida ou não, as ambições solares do país ainda assim enviam uma mensagem, afirma Missirliu. “Até um petro-Estado como a Arábia Saudita sabe e reconhece que as renováveis são inevitáveis.”

O contraste é marcante com o que se passa atualmente nos Estados Unidos, onde a administração Trump tenta travar projetos solares e eólicos em nome da “dominância energética”, uma estratégia que equivale a apostar apenas nos combustíveis fósseis.

A abordagem da Arábia Saudita é “verdadeiramente uma estratégia energética ‘de tudo um pouco’, e é aí que está, de facto, mais envolvida em tecnologia limpa e renováveis do que os EUA (neste momento)”, diz Karen Young. O país está também interessado em desenvolver uma cadeia de produção nacional de energia solar, incluindo armazenamento em baterias, e na produção de veículos elétricos, acrescenta.

Esta atração pela energia limpa não é exclusiva da Arábia Saudita. Outros países do Médio Oriente estão a expandir as renováveis, incluindo os Emirados Árabes Unidos e Omã. Até o Irão, outro grande petro-Estado com vastas reservas de petróleo e gás, está a recorrer à energia solar para tentar lidar com crises energéticas ligadas a infraestruturas envelhecidas, má gestão e sanções.

Nada disto, contudo, sinaliza o fim da era dos combustíveis fósseis - muito menos na Arábia Saudita. Pode haver um boom solar, mas o país continua a ser um petro-Estado.

A instalação de líquidos de gás natural ergue-se entre as dunas do deserto no campo petrolífero Shaybah da Saudi Aramco, no deserto Rub' Al-Khali, em Shaybah, Arábia Saudita, em 2018. (Imagem: Simon Dawson/Bloomberg/Getty Images)

A Arábia Saudita planeia ainda obter 50% da sua eletricidade a partir de gás natural, altamente poluente, por exemplo. “Estamos a assistir a um aumento da capacidade de gás”, diz Kumar. O consumo de energia no reino está também a crescer tão rapidamente que, mesmo com a expansão das renováveis, estas ainda não estão a substituir grandes quantidades de combustíveis fósseis, acrescenta.

Entretanto, o país mantém-se como um porta-estandarte do petróleo, tanto nos negócios como à mesa das negociações diplomáticas. A Arábia Saudita, juntamente com os Estados Unidos, desempenhou recentemente um papel importante no bloqueio de uma taxa sobre a poluição climática da indústria do transporte marítimo. Pode apostar na energia solar a nível interno, diz Kumar, mas “a nível global, estão a defender que o petróleo não vai desaparecer”.

À medida que a COP30 decorre no Brasil, os especialistas estarão atentos à Arábia Saudita. O país “sempre teve um papel muito disruptivo nas negociações climáticas”, diz Missirliu. Resta saber se isso poderá agora mudar - “é algo que ainda estamos à espera de ver”.

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