Onda de calor na Índia e no Paquistão “testa os limites da sobrevivência humana”, diz especialista

CNN , Rhea Mogul, Esha Mitra, Manveena Suri e Sophia Saifi
3 mai, 12:33
Pessoas refrescam-se num canal em Lahore, no Paquistão, a 29 de abril. Foto: Arif Ali/AFP/Getty Images

As temperaturas em certas zonas da Índia e do Paquistão atingiram níveis recordes, colocando em risco a vida de milhões de pessoas, à medida que os efeitos da crise climática são sentidos em todo o subcontinente

A temperatura máxima média para o noroeste e centro da Índia, em abril, foi a mais alta desde que começaram a ser feitos registos, há 122 anos, atingindo os 35,9 e os 37,78 graus Celsius, respetivamente, de acordo com o Departamento Meteorológico da Índia (IMD).

No mês passado, Nova Deli teve sete dias consecutivos acima dos 40 graus Celsius, três graus acima da temperatura média do mês de abril, segundo os meteorologistas da CNN. Em alguns estados, o calor obrigou ao encerramento de escolas, danificou as colheitas e colocou sob pressão o abastecimento de energia, já que as autoridades alertaram os moradores para permanecerem dentro de casa e para se manterem hidratados.

A onda de calor também foi sentida pelo país vizinho da Índia, o Paquistão, onde as cidades de Jacobabad e Sibi, na província de Sindh, no sudeste do país, registaram máximas de 47 graus Celsius na passada sexta-feira, segundo dados partilhados com a CNN pelo Departamento Meteorológico do Paquistão. Segundo o Departamento, esta foi a temperatura mais alta registada em qualquer cidade do hemisfério norte, naquele dia.

Um peão num dia quente de verão em Connaught Place, a 30 de abril em Nova Deli, na Índia. Foto: Raj K Raj/Hindustan Times/Getty Images

“É a primeira vez em décadas que o Paquistão passa pelo que muitos apelidam de ‘ano sem primavera’”, disse a ministra paquistanesa das Alterações Climáticas, Sherry Rehman, em comunicado.

As temperaturas na Índia devem diminuir esta semana, disse o IMD, mas os especialistas dizem que a crise climática causará ondas de calor mais frequentes e mais longas, afetando mais de mil milhões de pessoas nos dois países.

A Índia está entre os países mais afetados pelos efeitos da crise climática, segundo o Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas (IPCC).

“Não há dúvida de que esta onda de calor não tem precedentes”, disse o Dr. Chandni Singh, autor membro do IPCC e investigador do Instituto Indiano de Dinâmica Demográfica. “Vimos uma mudança de intensidade, de época de chegada e de duração. Foi isto que os especialistas em clima previram e terá efeitos em cascata na saúde.”

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Perda de colheitas

É frequente para a Índia passar por ondas de calor durante os meses de verão, maio e junho, mas este ano as temperaturas começaram a subir em março e abril.

No estado de Punjab, no norte, conhecido como “cesto do pão da Índia”, isso está a provocar tensão térmica não só para os milhões de trabalhadores agrícolas, mas também para os campos de trigo dos quais dependem para alimentar as suas famílias e vender por todo o país.

Gurvinder Singh, diretor de agricultura em Punjab, disse que um aumento médio de até 7 graus Celsius, em abril, reduziu a produtividade do trigo.

“Por causa da onda de calor, tivemos uma perda de mais de 500 quilos por hectare, no rendimento de abril”, disse Singh à CNN, na segunda-feira.

Chandni Singh do IPCC, sem qualquer ligação a Gurvinder Singh, disse que os trabalhadores agrícolas são os mais propensos a sofrer com o calor opressivo.

“As pessoas que trabalham ao ar livre – os agricultores, os construtores, todos os que têm um trabalho manual - sofrerão mais. Essas pessoas têm menos opções para se refrescar e não se podem afastar do calor”, disse ela.

O rio Yamuna no dia 1 de maio, em Nova Deli, na Índia. Foto: The Yamuna River on May 1 in New Delhi, India

Encerramento de escolas e cortes de energia

Em algumas zonas da Índia, a procura por eletricidade levou a uma escassez de carvão, deixando milhões sem energia durante até nove horas por dia.

Na semana passada, as reservas de carvão em três das cinco centrais de energia de que Deli depende, atingiram níveis criticamente baixos, caindo abaixo dos 25%, segundo o Ministério da Energia de Deli.

A Índia cancelou mais de 650 comboios de passageiros até o final de maio, para libertar os caminhos de ferro para os comboios de carga, enquanto o país se debate para reabastecer as reservas de carvão nas centrais de energia, disse à CNN um alto representante do Ministério das Ferrovias.

A Indian Railways é um importante fornecedor de carvão para as centrais de energia em todo o país.

Alguns estados indianos, incluindo Bengala Ocidental e Odisha, anunciaram o encerramento de escolas como medida para lidar com o aumento das temperaturas.

“Muitas das crianças que têm de viajar para a escola sofrem de hemorragias nasais porque não conseguem tolerar esta onda de calor”, disse o ministro de Bengala Ocidental, Mamata Banerjee, aos jornalistas, na passada semana.

Nos últimos anos, tanto o governo federal como os governos estaduais implementaram uma série de medidas para mitigar os efeitos das ondas de calor, incluindo o encerramento das escolas e a divulgação de alertas de saúde ao público.

Mas, segundo Chandni Singh, mais deve ser feito na preparação para futuras ondas de calor.

“Não temos um plano de ação para o calor e há lacunas no planeamento”, disse Singh. “Só nos conseguimos adaptar até certo ponto. Esta onda de calor está a testar os limites da capacidade de sobrevivência humana.”

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