John Ternus herdará, no próximo dia 1 de setembro, uma Apple que Tim Cook transformou numa das máquinas financeiras mais poderosas da história empresarial, avaliada em cerca de 4,5 biliões de dólares (cerca de 3,8 biliões de euros)
John Ternus herdará, no próximo dia 1 de setembro, uma Apple que Tim Cook transformou numa das máquinas financeiras mais poderosas da história empresarial, avaliada em cerca de 4,5 biliões de dólares (cerca de 3,8 biliões de euros), mas também uma empresa que enfrenta o dilema de utilizar parte dessa força para gastar mais e recuperar terreno na corrida pela inteligência artificial (IA).
Durante os quase 15 anos de Cook como diretor executivo, a Apple passou de valer cerca de 350 mil milhões de dólares (302 milhões de euros) para mais de 4 biliões (3,4 biliões de euros), além de ter multiplicado as suas receitas anuais até ultrapassarem os 416 mil milhões de dólares (perto de 360 mil milhões de euros) no exercício fiscal de 2025.
Além disso, Cook transformou a divisão de Serviços num negócio com receitas superiores a 100 mil milhões de dólares (86 mil milhões de euros) anuais e elevou para mais de 2,5 mil milhões o número de dispositivos Apple ativos em todo o mundo.
Os últimos resultados divulgados sob a liderança de Cook deixam uma imagem clara da força do modelo: a Apple registou receitas de 109,4 mil milhões de dólares (94 mil milhões de euros) no terceiro trimestre fiscal, mais 16% em termos homólogos, com um lucro por ação de 2,02 dólares (1,74 euros), mais 29%, e atingiu máximos históricos trimestrais no iPhone, Mac e Serviços.
Só os Serviços geraram 30,7 mil milhões de dólares (26,5 mil milhões de euros), quase 30% da faturação total.
Mas o mercado começa a exigir à Apple algo mais do que eficiência, músculo financeiro ou uma ampla base de utilizadores, numa altura em que os seus concorrentes investiram enormes quantias no desenvolvimento de modelos de IA e centros de dados.
Assim, a principal questão deixada pela saída de Cook é saber se Ternus manterá a disciplina de gastos que transformou a Apple no gigante que é hoje ou se abrirá uma nova fase de maior investimento em investigação e desenvolvimento e em novos produtos.
O analista do Bank of America Wamsi Mohan aponta nessa direção e prevê «uma maior disponibilidade para assumir riscos» sob a liderança de Ternus, com “mais investimento em I&D, aquisições de maior dimensão e novas categorias de produtos”, refere num relatório.
O analista defende que a Apple terá de alterar a sua estratégia de investimento para «acompanhar o ritmo» da inovação em IA num mercado em que Google, Nvidia e OpenAI, entre outras empresas, estão a investir enormes quantias.
O desafio da infraestrutura
A comparação com a Nvidia é “especialmente relevante”, considera Ben Wood, analista-chefe da CCS Insight. Enquanto a Apple desenvolveu a IA sobretudo como uma funcionalidade integrada nos seus dispositivos, a Nvidia tornou-se o principal fornecedor da infraestrutura que permite treinar e executar os modelos desta tecnologia.
“Ternus terá de abordar as questões pendentes da Apple no domínio da IA e, sobretudo, definir a direção estratégica: se a empresa dependerá mais de alianças com empresas como a Google ou se começará a investir e a construir a sua própria infraestrutura”, afirma.
A decisão determinará quanto capital a Apple terá de dedicar à construção de uma posição mais ambiciosa sem pôr em risco o modelo rentável herdado de Cook.
Os investidores, para já, não esperam uma rutura radical. Quando a Apple anunciou, em abril passado, a sucessão, as suas ações recuaram apenas cerca de 1%, enquanto os principais bancos de investimento de Wall Street mantiveram recomendações favoráveis, com preços-alvo entre 315 (271 euros) e 350 dólares (302 euros), acima dos cerca de 310 dólares (267 euros) a que são atualmente negociadas.
Uma reação que reflete uma das grandes vantagens da transição: Ternus não chega de fora. Está há mais de 25 anos na Apple e participou no desenvolvimento de quase todos os seus produtos recentes, incluindo o iPhone, o iPad, os AirPods e os Apple Silicon que substituíram os processadores da Intel.
Esse percurso alimenta as expectativas de uma Apple mais centrada no produto: “A possível rutura com a era Cook está sobretudo na disponibilidade para assumir riscos”, afirma Mohan.
Sob a liderança de Ternus, Wall Street estará atenta a uma eventual subida do investimento em IA, à aceleração do lançamento de novos dispositivos e à utilização de parte da capacidade financeira da empresa para adquirir tecnologia e talento.
Para o Bank of America, a dimensão alcançada pela Apple torna cada vez mais difícil que uma melhoria gradual seja suficiente para inaugurar uma nova etapa, pelo que Ternus terá de demonstrar que o gigante ainda consegue reinventar-se.
