Um trader acumulou quase um milhão de dólares com apostas altamente precisas sobre ações militares no Irão na plataforma Polymarket, levantando suspeitas de uso de informação privilegiada. Especialistas apontam taxas de sucesso anormalmente elevadas e timing suspeito, enquanto reguladores e legisladores reforçam preocupações sobre a integridade dos mercados de previsão
Um trader ganhou quase um milhão de dólares (862.340 euros) desde 2024 com dezenas de apostas bem cronometradas na Polymarket que previram corretamente ações militares dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão, segundo uma análise partilhada com a CNN.
O apostador venceu uns impressionantes 93% das suas apostas de cinco dígitos sobre o Irão, apesar de os eventos que previu serem operações militares não anunciadas.
O trader apresentou um padrão de apostas quase premonitórias, incluindo horas antes de ataques israelitas em outubro de 2024 durante o conflito de retaliação com o Irão, horas antes de ataques aéreos dos EUA contra instalações nucleares iranianas em junho de 2025, e horas antes do ataque surpresa conjunto EUA-Israel em fevereiro, que deu início à guerra atual.
As conclusões da Bubblemaps, uma empresa de análise que acompanha transações em blockchain, destacam as crescentes preocupações sobre o potencial de uso de informação privilegiada em alguns mercados de previsão, onde os utilizadores podem apostar em tudo, desde desporto a eleições e guerras.
“Tudo isto são fortes sinais de atividade com informação privilegiada, tendo em conta o montante que ganhou, os mercados em que apostou, o momento das suas operações, as taxas de sucesso dessas apostas e o facto de estarem ligadas na blockchain”, afirmou à CNN o CEO da Bubblemaps, Nick Vaiman. “Isto é bastante suspeito, na minha opinião.”
Não é claro se o trader identificado pela Bubblemaps é um insider, e as contas que utilizou são anónimas e não podem ser publicamente associadas a uma pessoa específica.
As apostas foram feitas no site internacional da Polymarket, que está fora do alcance da regulamentação dos EUA. A Polymarket não respondeu aos vários pedidos de comentário da CNN.
A Commodity Futures Trading Commission (CFTC), a agência federal que regula os mercados de previsão, aprovou no ano passado a Polymarket para começar a oferecer negociações a clientes norte-americanos. O seu site direcionado aos EUA ainda não está totalmente operacional, mas especialistas dizem que os americanos podem aceder facilmente ao site offshore através de uma rede privada virtual (VPN).
A aprovação da CFTC surgiu meses depois de a administração Trump ter encerrado uma investigação criminal da era Biden sobre se a Polymarket estava a permitir indevidamente o acesso de utilizadores norte-americanos às suas plataformas offshore.
‘Bom demais para ser verdade’
Todd Phillips, professor de finanças na Georgia State University e antigo membro de um conselho consultivo da CFTC, disse ver sinais de alerta nas operações relacionadas com o Irão identificadas pela Bubblemaps.
A maioria dos traders de alta frequência apresenta normalmente uma taxa de sucesso ligeiramente acima dos 50%, referiu Phillips. A análise da Bubblemaps mostrou que o trader do Irão teve uma taxa global de sucesso de 83% e de 93% nas operações superiores a 10 mil dólares (8 626 euros). O lucro líquido foi de cerca de 967 mil dólares (834 174 euros).
“Parece mesmo que esta pessoa ou teve uma sorte incrível ou recorreu a informação privilegiada”, referiu Phillips. “Taxas de sucesso entre 80% e 90% são simplesmente boas demais para serem verdade. Olho para isto e acho que algo estranho está a acontecer.”
Embora muitas das apostas mais lucrativas tenham sido feitas horas antes de ações militares dos EUA ou de Israel, outras foram colocadas dias ou semanas antes — o que, segundo Phillips, é menos indicativo de uso de informação privilegiada.
Algumas das contas ligadas a este utilizador ainda tinham posições ativas na Polymarket na noite de segunda-feira. Embora as apostas mais lucrativas estivessem relacionadas com o Irão, também foram feitas dezenas de apostas mais pequenas em vários eventos desportivos.
A guerra no Irão colocou sob os holofotes plataformas como a Polymarket e a Kalshi, outro site popular de previsões. Legisladores e entidades de supervisão governamental levantaram preocupações sobre possível uso de informação privilegiada e os chamados “mercados da morte”, após apostas mediáticas sobre o destino do líder supremo iraniano.
A Kalshi, que proíbe o uso de informação privilegiada, opera plenamente nos EUA após obter aprovação da CFTC no ano passado. A empresa anunciou na segunda-feira novas salvaguardas contra este tipo de práticas, incluindo verificações adicionais para atletas e políticos que utilizem a plataforma.
A CNN tem uma parceria com a Kalshi e utiliza os seus dados para cobrir grandes eventos. Os colaboradores editoriais estão proibidos de participar em mercados de previsão.
Ao contrário da Kalshi e de alguns outros sites, a Polymarket tem destacado o papel de potenciais insiders. O seu CEO, Shayne Coplan, disse à Axios, em novembro, que era “super interessante” que a sua plataforma “criasse este incentivo financeiro para que as pessoas divulguem informação ao mercado”, incluindo potenciais insiders.
Onde está a linha vermelha?
Existe agora um padrão bem estabelecido de operações com timing suspeito em sites de previsão, sobretudo na Polymarket, aparentemente sempre que ocorrem grandes eventos geopolíticos. Aconteceu antes de forças norte-americanas capturarem o líder venezuelano Nicolás Maduro em janeiro, e já havia exemplos durante a guerra no Irão.
De facto, investigadores em Israel acusaram recentemente duas pessoas, incluindo um reservista militar, por alegadamente utilizarem informação classificada para apostar na Polymarket durante a guerra do país contra o Irão no ano passado, segundo relatos locais.
Preocupados com esta tendência, um número crescente e bipartidário de legisladores norte-americanos propôs recentemente nova legislação que proibiria responsáveis federais de usar informação não pública para apostar em plataformas de previsão.
E a CFTC publicou recentemente orientações que “recordam” aos operadores aprovados de mercados de previsão que o “uso de informação privilegiada” é ilegal e que a agência pode “investigar e avançar com ações civis de execução relacionadas com esse tipo de atividade”.
Naturalmente, os riscos de uso de informação privilegiada existem em todos os mercados financeiros, incluindo em Wall Street. E a definição legal nos EUA é restrita, focando-se sobretudo em traders que têm obrigação legal de manter certas informações confidenciais.
Jason Trost, CEO da Smarkets, um site regulado de previsões que opera no Reino Unido, disse que há situações em que informação valiosa está “em teoria, disponível para todos”, mas é difícil de encontrar, como imagens de satélite obscuras ou ouvir uma conversa por acaso. Isso não constitui atividade com informação privilegiada, disse Trost.
“Quanto mais dessa informação entrar no mercado, melhor”, afirmou. “Mas se há algo que sabe que está prestes a acontecer e é informação material não pública, então essa é, na minha opinião, a linha vermelha.”
