Amostra lunar recolhida há 50 anos foi finalmente aberta. O que nos pode dizer sobre o futuro da exploração espacial?

CNN , Ashley Strickland
13 abr, 10:00
Aberta amostra lunar da Apollo 17

Era uma das últimas amostras por abrir da derradeira missão do programa Apollo, destinado a levar seres humanos à Lua

Cerca de 50 anos desde que foi recolhida pela missão Apollo 17, uma amostra lunar foi finalmente aberta, no Centro Espacial Johnson da NASA, em Houston

“Desfrutámos da oportunidade de abrir esta amostra de incalculável valor, preservada em vácuo durante 50 anos, e vamos finalmente poder descobrir os tesouros que encerra”, declarou em comunicado Thomas Zurbuchen, administrador-adjunto da Direção de Missões Científicas da NASA em Washington.

A amostra foi recolhida em dezembro de 1972 pelos astronautas da NASA Eugene Cernan e Harrison “Jack” Schmitt, que recorreram a tubos de perfuração cilíndricos de 36 centímetros num depósito de deslizamento de terras no Vale de Taurus-Littrow. O tubo foi selado a vácuo pelos dois astronautas ainda na superfície lunar.

Assim que a missão regressou à Terra, a amostra em questão foi colocada dentro de um segundo tubo protetor, num compartimento especial do laboratório lunar Johnson, onde permaneceu intacta até agora.

A amostra, rotulada de 73001, contém solo lunar e fragmentos de rocha e poderá fornecer à comunidade científica um registo histórico da geologia da Lua. Uma outra amostra recolhida pela Apollo 17 só foi aberta em 2019, aquando do 50.º aniversário da primeira chegada à Lua.

Amostras a aguardar por tecnologia futura

Algumas amostras da Apollo foram propositadamente deixadas por abrir, para que gerações futuras, dispondo de tecnologia mais avançada, pudessem estudá-las e trazer à luz informações mais detalhadas sobre o satélite natural da Terra. “Tínhamos bastantes núcleos de boa qualidade, que estão a fornecer-nos novos dados”, afirmou Schmitt, num vídeo divulgado pela NASA durante um episódio de Science Live. “Desde o começo do programa Apollo que se previu que, com o passar do tempo, a tecnologia de análise iria progredir e tornar-se muito mais sofisticada. Na verdade, para os cientistas, a missão Apollo ainda está a decorrer.”

O geólogo Schmitt foi o único cientista e o único não militar a pisar o solo da Lua. Os restantes 11 homens que o fizeram eram considerados militares no ativo.

Antes de esta amostra ser aberta, uma equipa da Universidade do Texas, em Austin, recorreu à tecnologia de tomografia computorizada de raios X para obter imagens 3D da amostra dentro do tubo.

“Este será o registo permanente do aspeto que tem o material no interior da amostra antes de ser retirado e dividido em segmentos de meio centímetro”, disse em declaração à imprensa Ryan Zeigler, curador de amostras da Apollo. “O tubo estava demasiado preenchido, um dos aspetos que percebemos através das tomografias, e que gerou algumas dificuldades quanto à forma como tencionávamos extrair o material, mas conseguimos adaptar-nos recorrendo a esta tecnologia”.

Em fevereiro, a equipa de cientistas abriu cuidadosamente o tubo exterior, de forma a que todo o gás que pudesse estar aí alojado fosse recolhido.

“Extraímos gás e esperamos que isto ajude os cientistas a compreender melhor qual as características distintivas do gás lunar, analisando as diferentes alíquotas (amostras extraídas para análise química)”, acrescentou Zeigler.

As tomografias e as análises iniciais, bem como a abertura de uma amostra de simulação, prepararam terreno, para que os cientistas não fossem apanhados de surpresa na segunda e na terça-feira, quando chegou o momento de abrir a amostra real.

Posteriormente, eles abriram o tubo dentro de uma câmara de luvas selada, na Divisão de Investigação e Exploração de Astromateriais da NASA, em Houston.

Juliane Gross, vice-curadora de amostras da Apollo, garantiu que o processo, com o movimento dos braços limitado pelas enormes luvas da câmara, foi minucioso, mas que valeu a pena.

“Avançámos passo a passo, tendo o máximo cuidado ao lidar com todas as pequenas peças e os parafusos”, explicou Gross. “Somos os primeiros a observar este solo nunca dantes visto. É a melhor sensação do mundo, parecemos uma criança numa loja de brinquedos.”

Rumo à missão lunar Artemis

A abertura desta amostra preparará a NASA para a recolha de mais material lunar, quando os humanos voltarem à Lua, no final desta década, através do programa Artemis, assim denominado em homenagem à irmã gémea de Apolo.

A equipa de trabalho, composta por (da esquerda para a direita) Charis Krysher, Andrea Mosie, Juliane Gross e Ryan Zeigler, posa para a foto em frente da amostra recém-aberta.

“As amostras terrestres são muito diferentes das lunares, e a equipa do programa Artemis teve isso em conta ao conceber os instrumentos que vai utilizar”, adiantou Zeigler. “Eles não partiram do zero. Partiram da missão Apollo 17 e do que nesta correu realmente bem, progredindo daí para o programa Artemis.”

A equipa de astronautas do Artemis, que contará com a primeira mulher e a primeira pessoa negra a pousar na Lua, irá alunar no polo sul do satélite, o que será inédito.

Em condições muito díspares das que se tornaram conhecidas pelos astronautas da Apollo quando visitaram o equador lunar, os exploradores do Artemis irão deparar-se, nesta zona inferior da Lua, com uma luminosidade dramática, temperaturas gélidas e um solo lunar misterioso.

“O Pólo Sul da Lua é um excelente lugar para a eventual acumulação de grandes depósitos daquilo a que chamamos voláteis (substâncias que se evaporam a temperaturas normais, tal como o gelo formado a partir da água e o dióxido de carbono)”, referiu em comunicado Lori Glaze, diretora da Divisão de Ciência Planetária, localizada na sede da NASA.

“Estas substâncias voláteis podem fornecer-nos pistas acerca de como terá surgido a água na nossa zona do sistema solar – se ela provém de cometas, asteroides, ventos solares ou se terá outras origens.”

As novas amostras recolhidas pelo programa Artemis permitirão um melhor entendimento científico da evolução da Lua.

“Teremos a oportunidade de explorar questões fundamentais acerca da Lua, a partir das informações extraídas daquilo que ficou registado e preservado no rególito (solo rochoso) destas amostras da Apollo”, disse em declaração de imprensa o curador de astromateriais Francis McCubbin.

“Preservámos estas amostras pensando a longo prazo, de modo a que pudessem ser estudadas pelos cientistas 50 anos mais tarde. Através do programa Artemis, esperamos recriar esta oportunidade para as gerações vindouras de cientistas.”

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