opinião
Diretor executivo CNN Portugal

O Governo está cheio de dinheiro. Vai gastá-lo todo na segunda-feira - e é uma loucura

2 set, 14:49
Fernando Medina e António Costa

O governo vai desatar a passar cheques. Se não tem paciência para ler quem discorda, leia só isto: o que vai ser melhor agora vai ser pior depois.

Na segunda-feira sai o Totobola, uma taluda de uns dois mil milhões em subsídios, pensões, energia, cabaz alimentar, rendas, salários, mais pompa e propaganda e toda a gente vai aplaudir porque a vida está cara e poucos querem parar para pensar. Paro já. Sim, este é um texto contracíclico. É isso que a política orçamental devia ser – mas não será.

Na pandemia, o governo gastou de menos, agora vai gastar de mais. Qual é a diferença? Oito letras: inflação.

A inflação muda tudo. Ela esteve tanto tempo tão baixa que nos esquecemos que quanto mais tarde se lida com ela mais dolorosa será a fatura. O que é dado agora com uma mão será retirado com outra.

Vai parecer sensibilidade social, vai parecer justo redistribuir o que se ganha, mas o pacote de medidas que aí vem ameaça ser errado no valor que inclui e nas medidas que exclui. Se for mesmo assim, estão doidos.

Quanto mais encharcar, mais terá de enxaguar

A inflação é um monstro que come dinheiro e que, se não é travado cedo, se descontrola morbidamente. Para travá-la, os bancos centrais tentam restringir a procura aumentando os juros. Mas a política monetária dos bancos centrais é só um braço, o outro é a política orçamental dos governos. Neste momento, o BCE está para um lado e o governo está para o outro.

O BCE está a secar a economia, o governo está a encharcá-la. Adivinhe o que acontece a seguir? O BCE vai secar ainda mais subindo taxas de juro. Na reunião da próxima semana do BCE, já se conta com um aumento de taxas. Eu já conto que, além disso, se sinalize um novo aumento posterior, o que fará taxas como as Euribor subir imediatamente.

Se Portugal não fosse um país endividado... Mas a nossa dívida pública e privada é de quase 800 mil milhões de euros, donde cada ponto percentual de juros custa mais oito mil milhões por ano à economia. Vamos subir mais do que isso: nos créditos à habitação, a Euribor já subiu quase 1,5 pontos este ano; o Estado, que durante anos se financiou a zero, acabará o ano talvez a roçar os 3%. São impostos futuros.

Para lidar com a inflação não se despeja moeda na economia, o que aumenta a procura e, logo, os preços; faz-se o contrário. E preferir a subsidiação (que é despesa do Estado) poupando no investimento (que faz crescer a economia) é deitar água num balde ao mesmo tempo em que o furamos.

Despesa a mais, alvos e menos

Se tiver paciência, já respondo em baixo à sua crítica* (os que insultaram já deixaram de ler).

O Estado está a nadar em dinheiro porque está a faturar mais em quase todos os impostos, incluindo o IRS (porque o emprego e os salários estão a subir) e sobretudo no IVA. Porque os consumidores pouparam muito na pandemia, estavam fartos de privação e vingaram-se a comprar férias e produtos, aumentando a procura. Os portugueses estão a consumir mais e a receber mais turistas, que também consomem, numa economia mais uma vez salva pelo turismo.

O governo parece que não sabe o que há de fazer ao dinheiro, logo gasta-o. Alternativas: em vez de aumentar tanto a despesa, descer impostos ou pagar dívida. A descer impostos, que fossem os diretos (como o IRS), mas o governo já se esqueceu da classe média outra vez. E quanto a descer dívida…

O que faz uma pessoa endividada quando os juros disparam se tiver um rendimento com que não contava? Paga dívida. O que faz o Estado endividado? Aumenta a despesa. Faça por exemplo esta conta: estes dois mil milhões prenunciados para segunda-feira vão custar ao Estado uns 3% ao ano, 60 milhões em juros. Por ano. Indefinidamente. São mais 60 milhões de euros em impostos. Por ano. Indefinidamente. E isto num Estado que outra coisa não tem feito se não aumentar despesa fixa. Não é preciso uma máquina do tempo para viajar ao futuro, já lá estivemos.

E depois, os alvos. O mesmo Estado que encaixa impostos e aumenta despesa não concretiza o investimento público que anunciou e atrasa-se no PRR. É uma lástima. Porque o investimento é que gera riqueza duradoura e empregos mais bem pagos. Além disso, a (boa) preocupação com os custos da energia nas famílias não tem paralelo para as empresas: António Costa vai aparentemente ficar à espera da Comissão Europeia. Mas as empresas estão aflitas, porque estão a pagar salários mais altos, têm dificuldades em encontrar mão-de-obra e estão a suportar faturas de energia colossais - nos altos fornos das grandes indústrias aos pequenos fornos das padarias ou aos agricultores nas colheitas.

Temos uma política de redistribuição, e ela ameaça ser inflacionista, mas não de crescimento económico. E o crescimento deste ano não se repetirá em 2022. Quem está a chegar de férias rapidamente vai cair na real.

E já agora: porque sobem tanto os preços?

Quando Mário Centeno disse esta semana que “não devemos ser exuberantes”, estaria a verbalizar o receio de ver o governo passar tantos cheques. Mas ele disse outra coisa: que grande parte dos preços internacionais de matérias-primas já está de novo ao nível de há um ano. É a procura global que continua a fazer subir os preços, em benefícios dos seus produtores.

A exceção são os produtos energéticos, é aqui que os governos estão a agir bem depois de terem agido mal. Como o governo alemão, pela dependência da Rússia que criou. Mas só para não darmos lições de moral: Portugal também é por exemplo dependente do gás natural da Nigéria, que não é propriamente uma democracia promissora de estabilidade.

Mas adiante. E adiante é olhar também para os salários, que estão a crescer 4% em Portugal com um emprego a crescer 6%, o que aumenta a massa salarial em quase 10%. Sim, a inflação tira poder de compra aos portugueses mas – por paradoxal que isto pareça – não está a tirar muito rendimento disponível à economia. A economia está com aumento de salários, de emprego e de inflação. E que fazemos? Incentivamos a procura.

É a política estúpida

O Ministério de Fernando Medina está cheio de economistas que sabem isto. O governo está a agir assim por razões políticas: porque tem dificuldade em explicar como está a encaixar tanto dinheiro, porque prefere aumentar despesa a descer impostos e a pagar dívida, porque talvez não queira descer tanto o défice como seria possível e porque está fragilizado por um mau arranque político desta legislatura e precisa de popularidade.

Que isto aconteça em Espanha, onde o governo está em farrapos, a pressão social é intensa e o primeiro-ministro está com medo das próximas eleições, é uma coisa. Em Portugal há estabilidade, há uma maioria absoluta no início… e há um PSD que ainda pede mais aumento de despesa.

A sua *crítica: “Queres cortar apoios aos pobres?”

A macroeconomia é uma abstração, a vida real das pessoas é que interessa. E, na vida real, as pessoas estão a perder poder de compra. Por isso, é fácil responder a este texto acusando-me de defender cortes nos apoios sociais aos mais carenciados.

Não. Defendo mais parcimónia na despesa e mais vigor no investimento, a não exclusão da classe média e das empresas e, sobretudo, mais capacidade de ver e mostrar o longo prazo. Este pacote de subsídios aponta para problemas no futuro, de inflação a subir ou a descer mais devagar, de taxas de juro altas, de desvalorização de rendimentos reais e de uma possível recessão em 2023 e com subida de desemprego. Aí sim, será necessário ativar estabilizadores e apoiar os mais necessitados. Com que dinheiro então, se já o estamos a gastar?

O governo há de apresentar este ano crescimento económico alto, desemprego baixo, défice controlado e dívida a cair em percentagem do PIB. Darão beijos a si próprios. Mas quando o primeiro-ministro disse esta semana que “a força vem da calma”, estaria também a sugerir que “para o ano logo se vê”? É que já se vê 2023 – e será pior. Ainda diremos que 2022 foi de vacas gordas.

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