Os seus filhos usam aplicações de encontros? Saiba porque os deve impedir

CNN , Análise de Kara Alaimo
16 ago 2025, 19:00
Um estudo recente revela que há mais probabilidades que um adolescente que se envolva noutros comportamentos de risco também utilize aplicações de encontros (vgajic/E+/Getty Images/File)

Um estudo recente revela que há mais probabilidades que um adolescente que se envolva noutros comportamentos de risco também utilize aplicações de encontros

Kara Alaimo é professora associada de comunicação na Fairleigh Dickinson University. O seu livro “Why Social Media Is Toxic for Women and Girls — And How We Can Take It Back” [Por que é que as redes sociais são tóxicas para raparigas e mulheres - e como podemos evitá-lo, em tradução livre] foi publicado em 2024 pela Alcove Press.

Os adolescentes estão a usar mais aplicações de encontros do que se imaginava, segundo um estudo publicado no “Journal of Psychopathology and Clinical Science”. A investigação apurou que 23,5% dos adolescentes entre os 13 e os 18 anos usaram este tipo de aplicações durante um período de seis meses. O número revela-se maior do que as anteriores estimativas.

Segundo os investigadores, acredita-se que este seja o primeiro estudo a monitorizar o uso de aplicações de encontros por adolescentes com base nos registos de atividade, em vez de depender dos relatos dos próprios utilizadores.

O estudo mostrou que, de uma forma geral, os adolescentes que usam estas aplicações não apresentavam, ao fim de seis meses, mais sintomas de problemas de saúde mental do que os adolescentes que não as usavam. Contudo, aqueles que usavam com mais frequência apresentavam maiores probabilidades de apresentar sintomas de transtorno depressivo.

“Este estudo mostrou indícios de que os utilizadores de aplicações de encontros apresentavam mais sintomas depressivos e maior envolvimento em comportamentos de risco”, refere Lilian Li, investigadora de pós-doutoramento no departamento de psiquiatria e ciências comportamentais da Feinberg School of Medicine da Northwestern University, em Chicago, que é a principal autora do estudo.

Li explica que não ficou claro se tal acontece porque os utilizadores foram prejudicados nestas aplicações, por exemplo, ao serem expostos a situações de assédio ou comportamentos de risco, ou se os adolescentes que já estavam deprimidos recorriam a estas plataformas por sentirem dificuldades em se conectarem com outras pessoas.

A investigadora alerta que a amostra deste estudo é pequena: incluiu 149 adolescentes nos Estados Unidos da América, dos quais 35 usavam aplicações de namoro. Como a pesquisa assentou apenas nos registos de atividade, não foi possível medir comportamentos concretos como ficar a ver perfis, gostar deles ou rejeitá-los.

Ainda assim, há motivos para os pais se preocuparem, uma vez que as aplicações de encontros podem prejudicar os adolescentes de outras maneiras. Por isso, quando converso com pais e estudantes sobre como devem lidar com o uso destas aplicações, o que sugiro é que não usem qualquer plataforma de encontros online.

Adolescentes podem ligar-se a predadores online

Os pais devem ensinar os adolescentes a manterem-se seguros em aplicações de encontros, mesmo que seja apenas uma preparação para o futuro (Iuliia Burmistrova/Moment RF/Getty Images/File)

Uma das razões que me leva a considerar que os adolescentes não devem estar nestas aplicações de encontros é o facto de elas serem perigosas. Há investigadores a alertar para a existência de pessoas condenadas por crimes sexuais, com cadastro, a usar estas plataformas sem qualquer tipo de controlo.

Este tipo de plataforma aumenta, em particular, o risco de os adolescentes se tornarem vítimas de ‘catfishing’ – ou seja, de serem emocionalmente manipulados por alguém que usa uma identidade falsa. Tal cria a oportunidade de convencer o adolescente a partilhar imagens íntimas, que depois podem acabar a ser usadas para chantagem ou para extorsão financeira.

Estes riscos tornam estas aplicações perigosas inclusive para os adultos. Ainda assim, o alerta para os adolescentes é mais premente, uma vez que, segundo o UCLA Center for the Developing Adolescent, o cérebro dos jovens é mais propenso a aceitar riscos de modo a obter recompensas.

Por isso, não me surpreendeu que este novo estudo tenha descoberto que os adolescentes que se envolvem noutros comportamentos de risco, como o uso de substâncias ou a violação de regras, também sejam mais propensos a usar aplicações de encontros.

Não podemos esperar que os adolescentes avaliem se a pessoa com quem estão a conversar, que acreditam possa vir a ser o seu novo namorado ou namorada, possa, na verdade, ser um adulto criminoso. Também não podemos esperar que eles pensem nas possíveis consequências de se encontrarem pessoalmente com alguém que conheceram online.

“Não são permitidos menores de idade nas nossas aplicações de encontro, ponto final”, reage um porta-voz do Match Group, empresa dona do Tinder, que era a aplicação mais usada pelos adolescentes considerados no estudo. “As nossas plataformas destinam-se a adultos, com 18 ou mais anos. Usamos tecnologia de ponta e monitorização humana para impedir o acesso de menores. As nossas marcas implementam ferramentas sofisticadas de segurança, incluindo a verificação de idade com inteligência artificial, a verificação de identidade, o bloqueio de dispositivos, bem como moderadores humanos, para detetar e remover menores de idade e utilizadores com más intenções”.

“Trabalhamos com parceiros de longa data, como a THORN, para melhorar as medidas de segurança. Este ano, apoiámos a fundação da ROOST, uma organização sem fins lucrativos focada no desenvolvimento de ferramentas escaláveis para a segurança infantil. Continuamos a investir em ferramentas, tecnologias e parcerias de vanguarda para ajudar a garantir que as nossas plataformas se mantêm seguras para as comunidades que servimos”, junta a mesma fonte.

O porta-voz também destacou que o Match Group oferece uma ferramenta de verificação de antecedentes. E nota que os dados do novo estudo incluem aplicações de ‘descoberta social’, que é algo diferente das aplicações de encontros.

Aplicações de encontros não ensinam os adolescentes a manter relacionamentos saudáveis

Os adolescentes que usam aplicações de encontros com frequência são mais propensos a apresentar sintomas mais graves de depressão, segundo o novo estudo (Georgijevic/E+/Getty Images/File)

O problema não assenta só nos perigos das aplicações de encontros. Elas podem também transmitir mensagens erradas sobre aquilo que são os relacionamentos humanos.

Para manter um relacionamento presencial, é preciso aprender a conversar de uma forma recíproca, a demonstrar consideração e a resolver desentendimentos. São habilidades fundamentais, que os adolescentes precisam de praticar - e que revelarão úteis ao longo da vida, não apenas para os relacionamentos amorosos, mas também para o contacto com professores, colegas de trabalho e outras pessoas com quem ser vão cruzar.

As relações próximas são mais importantes para a nossa felicidade do que o dinheiro ou a fama, segundo investigadores de Harvard, que apresentaram um dos estudos mais alargados sobre adultos entre aqueles que já foram levados a cabo.

Em entrevistas que fiz para o meu livro, havia pessoas que me diziam que os utilizadores de aplicações de namoro investem menos nos relacionamentos, uma vez que as aplicações passam a ideia de que há sempre mais opções disponíveis. “Se alguém te irrita por qualquer motivo, é só voltar para a aplicação e encontrar outra pessoa”, disse-me uma entrevistada.

Ou seja, os adolescentes estão a aprender que podem andar nas aplicações com a impressão de que os parceiros românticos são facilmente substituíveis — em vez de aprenderem a desenvolver habilidades que lhes permitam manter relacionamentos reais e duradouros.

Há outras formas de responder às necessidades dos adolescentes

Para iniciar uma conversa sobre estas preocupações, os pais devem perguntar aos filhos se estão a usar — ou se querem usar — aplicações de encontros. Se a resposta for sim, é uma oportunidade para refletir sobre outras formas de responder a essas necessidades.

Por exemplo, se os adolescentes estão se a sentir-se sozinhos ou à procura de um relacionamento, uma das melhores coisas a fazer é incentivá-los a passar tempo cara a cara com os colegas. Eles podem conectar-se com amigos — e até mesmo com potenciais parceiros — se participarem em atividades extracurriculares. É algo que também ajuda os adolescentes a sentirem-se valorizados, o que é essencial para o seu bem-estar emocional.

O estudo recente descobriu que as aplicações de encontros podem oferecer aos adolescentes de minorias sexuais e de género uma forma de fazerem ligações sociais valiosas. Contudo, o melhor seria que os pais desses adolescentes os ajudassem a encontrar formas de fazer essas mesmas ligações cara a cara com pessoas com interesses parecidos.

Há adolescentes que podem querer usar aplicações por acreditarem que os algoritmos os ligam mesmo às suas “almas gémeas” — ou, pelo menos, com parceiros compatíveis. Contudo, décadas de investigação mostram que tal não é possível, uma vez que os traços de personalidade não determinam se um casal terá ou não um bom relacionamento.

Preparar os jovens para usarem aplicações de encontros no futuro

Apesar de tudo, os dados mostram que 30% dos americanos já usaram uma aplicação ou outro tipo de plataformas de encontros em determinado momento das suas vidas, segundo um estudo de 2023 do Pew Research Center. É possível que o seu filho tente contornar as regras agora. Mas, se seguir as suas indicações, há uma coisa que não deverá conseguir evitar: o futuro, onde é provável que vá utilizar uma aplicação deste género. É por isso que os pais devem conversar já com os filhos, para que se mantenham seguros nesses ambientes. Agora ou no futuro.

Recomendo que lhes sugira que façam uma chamada de vídeo com a pessoa com quem estão a conversar antes de se encontrarem com ela pessoalmente. Quando isso acontecer, devem escolher locais públicos para o encontro, avisar a família sobre onde estão, mencionar à outra pessoa que os familiares sabem onde ele está e evitar ficar a sós com essa pessoa até terem a certeza de que é confiável.

Sei que muitos pais acreditam que os seus filhos nunca utilizariam uma aplicação de encontros ou que nunca se encontrariam com um desconhecido da Internet. Contudo, como indica o novo estudo, os adolescentes utilizam estas aplicações mais do que os pais imaginam. Por isso, convém estar preparado.

Estejam eles a desobedecer às regras ou a envolver-se em problemas online, os adolescentes acabam por perder a possibilidade de aprender a construir relacionamentos saudáveis cara a cara. É por este motivo que os pais devem conversar com os filhos o mais rapidamente possível, ajudando-os a começar a sua vida amorosa da maneira certa — em vez a limitarem ao ato de deslizar para a direita.

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