Deslizares intermináveis, horas sem fio nas aplicações e procura pro validação emocional são alguns dos problemas apontados ao Tinder e outras aplicações de relacionamentos
As aplicações de relacionamentos vieram para ficar e basta uma pesquisa rápida nas lojas de apps para perceber que são cada vez mais. Apesar da oferta, em 2024, a Match Group, proprietária do Tinder, Hinge e outras aplicações de encontros, foi alvo de um processo judicial onde é acusada de incentivar o uso compulsivo destas plataformas com recursos semelhantes aos dos jogos que “prendem os utilizadores a um ciclo perpétuo de pagar para jogar.”
Rute Batista e Filipa Jardim da Silva, ambas psicólogas clínicas, consideram que o incentivo ao uso compulsivo é real. Em declarações à CNN Portugal, explicam que "estas aplicações utilizam mecanismos de design baseados em recompensas intermitentes, semelhantes aos usados nas máquinas de jogo" e "são desenhadas com base nos mesmos princípios psicológicos que sustentam os casinos e as redes sociais: o reforço intermitente".
"O ato de deslizar funciona como um sistema de reforço variável, ou seja, nunca se sabe quando vai surgir uma “combinação” (match), o que mantém o utilizador motivado a continuar”, afirma Rute Batista, explicando que neste processo, “o cérebro liberta dopamina (neurotransmissor associado ao prazer) sempre que há uma recompensa inesperada, criando assim uma sensação de satisfação momentânea que incentiva o comportamento repetitivo”. Além disso, prossegue a psicóloga, o design simples e intuitivo, com o gesto fácil de deslizar, reduz o esforço necessário para interagir, tornando o uso quase automático. “O facto de haver sempre mais perfis para explorar cria a ilusão de infinitas possibilidades, o que alimenta o comportamento compulsivo", afirma.
Também Filipa Jardim da Silva, autora e líder da Academia Transformar, explica que o facto de "cada deslize poder trazer um "match", ou não, torna o processo imprevisível e, por isso, viciante".
"O nosso cérebro adora recompensas inesperadas, pois ativam o circuito de dopamina, levando-nos a continuar na busca pelo próximo ‘prémio’”, continua Filipa Jardim Silva, adiantando que “o design gamificado” das aplicações “incentiva a repetição, ao tornar o ato de deslizar quase automático, como um jogo em que queremos ‘ganhar’”.
O deslizar infinito é, por isso, propositado até porque "utilizam elementos de gamificação (como deslizar, notificações instantâneas e cores vibrantes) que estimulam a dopamina, o neurotransmissor associado ao prazer e à recompensa".
No entanto, não é apenas por isso que este tipo de aplicações se torna de utilização compulsiva. De acordo com as especialistas, há um componente psicológico mais importante que é a "validação social".
"O design é um fator-chave, mas não é o único. A dependência resulta de uma combinação de um design persuasivo, através de recompensas intermitentes, notificações constantes e feedback imediato; da validação social, onde cada “match” funciona como uma forma de aprovação, reforçando a autoestima de forma temporária, da curiosidade e expectativa (o “próximo deslize” pode sempre trazer alguém mais interessante, criando um ciclo de antecipação); e também do FOMO (medo de perder algo), deixando a sensação de que se pode perder uma oportunidade incrível se não se usar a aplicação com frequência”, salienta Rute Batista, concluindo que “este conjunto de fatores ativa mecanismos cerebrais associados à gratificação instantânea, o que favorece o uso repetitivo e, em alguns casos, compulsivo".
Uma afirmação corroborada por Filipa Jardim da Silva, que lembra que "receber um ‘match’ pode ser encarado como uma confirmação de valor pessoal, o que reforça o desejo de continuar a usar a app". A psicóloga aponta ainda outro fator que faz com que as pessoas não larguem estas aplicações: "A ilusão de escolha infinita, que leva as pessoas a ficarem presas na busca de "alguém melhor" em vez de investirem em conexões mais profundas".
Como perceber que se está viciado nas aplicações?
Em junho de 2024, o Tinder registou um recorde de 6,1 milhões de downloads e um estudo de abril de 2024 mostra que, nos Estados Unidos, os utilizadores passam uma média de 50,9 minutos por dia neste tipo de aplicações. O mesmo estudo mostra que são os millennials que mais apostam neste tipo de recurso para tentar encontrar o amor, com as mulheres a passarem mais tempo online do que os homens.
E como é que se percebe que se passou do uso normal para um consumo compulsivo ou para um cenário de dependência? A resposta está em alguns sinais de alerta que incluem o aumento do tempo de uso, impacto no humor, uso automático, busca constante por validação e dificuldade em parar. Mas não só.
"Se o uso da aplicação começa a afetar o bem-estar emocional e a qualidade de vida, é um sinal de que pode estar a tornar-se problemático. Alguns sinais indicam a transição para um uso compulsivo ou mesmo dependente, tais como a perda de controlo, onde a pessoa tem dificuldade em parar de usar a aplicação, mesmo quando há intenção de o fazer; o uso excessivo, em que se passa longos períodos a deslizar, muitas vezes sem um objetivo claro; o impacto na vida diária, começando a negligenciar responsabilidades, relações pessoais ou trabalho por causa do uso da aplicação; o estado emocional dependente, onde a pessoa começa a sentir ansiedade, irritação ou vazio quando não tem acesso à aplicação; e também a busca de validação constante, usando a aplicação para se sentir valorizado(a), em vez de para conhecer novas pessoas de forma saudável", explica Rute Batista.
Para as especialistas, ficar viciado no Tinder/Bumble/Hinge/Grindr é diferente do vício em aplicações como o Instagram ou o TikTok, uma vez que nas aplicações de relacionamento "o reforço está ligado à validação pessoal direta". No entanto, isso não quer dizer que outras aplicações não sejam viciantes.
"Depende da pessoa, mas há diferenças importantes. O Instagram e o TikTok oferecem um fluxo constante de conteúdos variados (vídeos, fotos, histórias), enquanto o Tinder e o Bumble têm um reforço intermitente muito específico e emocionalmente carregado: a aceitação ou rejeição. A possibilidade de um "match" cria uma expectativa forte, o que pode tornar estas apps mais envolventes e emocionalmente intensas do que redes sociais baseadas apenas em entretenimento. Por outro lado, o Instagram e o TikTok também usam mecanismos viciantes, como o scroll infinito e os algoritmos que mantêm o utilizador preso à plataforma", afirma Filipa Jardim da Silva.
No entanto, Rute Batista explica que "se uma pessoa tiver uma maior necessidade de validação emocional ou romântica, pode achar mais difícil resistir ao Tinder ou Bumble. Já quem procura entretenimento ou comparação social, pode ficar mais preso ao Instagram ou TikTok".
E esta dependência e necessidade de validação emocional ou romântica tem, muitas vezes, vários efeitos negativos a nível mental, uma vez que a ausência de matches ou falta de respostas pode levar a problemas como ansiedade e stress.
"O uso excessivo pode ter vários efeitos psicológicos negativos, como uma baixa autoestima pela constante exposição à rejeição (falta de matches ou mensagens não respondidas) o que afeta a autoconfiança; ansiedade e stress, pois a espera por respostas ou a obsessão com a aparência/perfil ideal podem gerar ansiedade; uma dependência emocional, porque algumas pessoas começam a depender das aplicações para se sentirem valorizadas ou queridas; a despersonalização, pelo processo de ‘deslizar’ transformar as interações humanas em algo superficial, o que pode levar a uma sensação de vazio emocional; e também a distorção da perceção das relações, porque pode criar a ideia de que há sempre alguém “melhor” à espera, dificultando o compromisso em relações reais", refere Rute Batista.
Filipa Jardim da Silva enumera mesmo os impactos negativos que estas aplicações podem ter na saúde mental: "baixa autoestima, ansiedade social, síndrome do impostor (acreditar que há sempre alguém "melhor" do que nós e devemos apenas mostrar o melhor, pode levar a que nos sintamos condicionados, como se o nosso verdadeiro ‘Eu’ não fosse suficientemente interessante), dependência e esgotamento emocional".
Como sair desse círculo vicioso?
O uso destas apps pode chegar quase a um ponto sem retorno tal o círculo vicioso em que os utilizadores se encontram. Rita, de 36 anos, gestora, conta à CNN Portugal que tinha regressado à casa onde vive sozinha depois de uma semana com a família quando se sentiu "aborrecida" e decidiu instalar o Tinder.
"Estava solteira há quase um ano e a minha rotina não me permitia conhecer pessoas novas fora do trabalho. Então, num impulso, instalei a app, mas disse a mim mesma que antes do fim da semana a ia desinstalar", conta.
A desinstalação aconteceu não ao fim de uma semana, mas de um mês. "Tinha conseguido alguns matches, conheci um rapaz pessoalmente e cansei-me. Mas depois voltei a sentir-me aborrecida e reinstalei a aplicação e foi o meu pior erro".
Rita conta que as horas mortas eram passadas a deslizar no telemóvel e que o sentimento de validação de que as especialistas falam estavam muito presentes.
"Se não conseguisse mais de que um match e um convite para café, era como que uma derrota e o sentimento era de 'não sou suficientemente interessante para que ele me queira conhecer fora da aplicação'", confessa.
Aos poucos, a gestora foi percebendo que estava a ficar viciada no uso da aplicação e que o retorno que tinha era "vazio". "As pessoas que fui conhecendo validavam apenas o exterior, não se importavam pelo conteúdo, e queriam apenas 'colecionar' contactos. E comecei a cansar-me".
Mas, do cansaço até a tomar a decisão de desinstalar as aplicações, Rita foi passando por várias fases. "Primeiro desativei as notificações, depois desativei o aviso na app de que tinha notificações, por fim, desativei a aplicação. Mas ainda recaí e um mês mais tarde voltei a instalar por um dia e tive a certeza de que aquilo não me fazia bem".
A estratégia usada por Rita vai ao encontro das recomendadas pelas especialistas com quem a CNN Portugal falou. "Existem algumas estratégias para interromper esse ciclo. Podem começar por definir limites de tempo, através de temporizadores ou aplicações de controlo de tempo para limitar o uso diário”, explica Rute Batista, adiantando que se deve também promover o uso intencional, ou seja, “antes de abrir a aplicação, perguntarem: ‘Qual é o meu objetivo agora?’ e se não houver um propósito claro, talvez não seja necessário abrir”. Outras possibilidades passam por “desativar notificações, reduzindo o estímulo constante que cria a urgência de verificar a aplicação; fazerem pausas regulares, como um género de ‘detox digital’ de forma periódica para avaliar o impacto da aplicação na vida pessoal; e podem ainda trabalhar a autoestima fora da aplicação, procurando atividades, amizades e interesses reais", explica Rute Batista.
Apesar do risco de cair em dependência nestas aplicações, as psicólogas consideram que é possível utilizá-las de forma saudável, mas que "isso exige um uso consciente", até porque, como explica Filipa Jardim da Silva, "a app deve ser tratada como uma ferramenta e não como um estilo de vida".
A psicóloga diz mesmo que é importante "lembrar que cada perfil representa uma pessoa real, e não apenas uma escolha num catálogo" e que "em vez de deslizar compulsivamente, é necessário investir tempo em conversas mais significativas". Para além disso, quem usa as aplicações não deve "medir o próprio valor pelo número de "matches" ou interações" e deve "criar um equilíbrio com a vida offline", ou seja, "manter interações presenciais e não substituir completamente os encontros reais pelas interações virtuais".
Rute Batista adianta ainda que é preciso "saber exatamente o que se procura" nestas aplicações "para evitar deslizar sem propósito".
"É possível usar estas aplicações de forma saudável se houver equilíbrio e consciência. Há que traçar objetivos claros, como saber exatamente o que se procura (amizade, namoro, encontros casuais) para evitar deslizar sem propósito. Manter o equilíbrio, para não deixar que as aplicações substituam outras formas de socialização e lazer. Pode-se focar na qualidade, não na quantidade, ou seja, em vez de procurar o máximo de matches, investir em conversas significativas. Utilizar para o autoconhecimento, estando atento(a) ao impacto emocional que a aplicação tem sobre si e fazer pausas quando necessário. Mas o mais importante é garantir que as aplicações são ferramentas a favor da pessoa, e não o contrário", conclui.