A Associação Portuguesa de Apoio à Vítima lançou uma campanha de sensibilização sobre a violência no namoro, que consistia inicialmente na promoção de um novo produto no mercado: um chip subcutâneo para casais com localização. O objetivo: mostrar que o controlo digital no namoro, quando feito pelo telemóvel, é normalizado por milhares de jovens portugueses
Teresa, 30 anos, desabafa sobre o parceiro atual, com quem tem uma relação há sete. No seu caso, como em muitos outros, o controlo nem sempre surge no formato tradicional, por meio de um confronto. Surge como um episódio mundano que deixa a dúvida a remoer, um “talvez eu esteja a exagerar”, um medo de voltar a tocar no assunto.
Essa dúvida começou com um desabafo, algo que Teresa admite ser difícil de engolir, mas também de partilhar: comentários do namorado nas redes sociais, “imensos” e “cheios de corações”, dirigidos a outra mulher. Conta que procurava, “no mínimo”, ser ouvida, acolhida e sentir que a sua insegurança não seria tratada como uma fraqueza, mas a resposta teve um peso diferente.
“Ele admitiu que, às vezes, mexe no meu telemóvel sem eu saber. Isto para me acusar de uma coisa idiota e fugir com o rabo à seringa". O que sobrou daquela discussão não foi apenas uma enorme surpresa, não foi apenas raiva, foi receio, descreve à CNN Portugal. “Não sei como abordar isto em conversa porque tenho medo que dê discussão outra vez".
"Usava o IMEI para me localizar"
Ana, 31 anos, manteve um relacionamento com um agente da polícia nos últimos cinco. Não adianta muitos detalhes por receio de represálias. Relata apenas à CNN Portugal como a sensação de ser observada passou a fazer parte da sua rotina: “Ele usava o meu IMEI para me localizar, colocou um localizador no meu carro, o telemóvel foi colocado sob escuta e ainda teve acesso às minhas redes sociais".
Inicialmente eram apenas ameaças, conta. “Mas depois tive a certeza de que o fazia". O resultado foi um estado de permanente suspeita e culpa: “Senti-me muitas vezes como se fosse uma criminosa. De alguma maneira, ele conseguia fazer-me acreditar que era bem-intencionado e dei por mim a pensar que tinha de aceitar".
"Exigiu que eu desbloqueasse o telemóvel"
Marco, 39 anos, não esquece as três relações nas quais experienciou o mesmo em diferentes fases da vida. Admite, contudo, que não tinha particular preocupação com as passwords dos seus equipamentos – mas isso mudou.
“Espiaram a minha correspondência eletrónica regularmente até eu ter descoberto.” Uma das ex-parceiras, diz, abria-lhe o computador durante a noite para ler com quem falava nas redes sociais. Outra, continua, “exigiu mesmo que desbloqueasse o telemóvel para ela ler, dizendo regularmente que queria ler o chat com a rapariga X ou Y”.
E depois vieram as “proibições”. “Não podia interagir com outras mulheres, fazia manipulação psicológica, dizendo que era infidelidade da minha parte.” Trouxe-lhe ainda uma palavra nova para justificar um padrão velho. “Ensinou-me o conceito de ‘micro-cheating’ para justificar que eu era um ‘micro-cheater’ por conversar com outras mulheres.”
Hoje, na casa dos 30 e perto dos 40, Teresa, Ana e Marco reconhecem os seus limites, ainda que com alguma relutância, mas o problema cresce nos mais novos.
Os dados da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) indicam que 63% dos jovens já sofreram controlo digital no namoro, “o tipo de violência mais normalizado e frequentemente interpretado como demonstração de amor e confiança”. E expõem outra realidade inquietante: “4 em cada 10 jovens acham normal ver o telemóvel do/a namorado/a sem autorização” e “39% dos jovens acham normal dizer sempre com quem estão ao namorado/a”.
O que se ouve entre os mais novos
“A nossa geração”, diz Inês Marinho, ela que tem 27 anos e é presidente da associação Não Partilhes, “já sabe mais ou menos identificar estes padrões”. Ao passo que a geração mais nova, nomeadamente os adolescentes e pré-adultos, “está a regressar a esta tendência de normalizar comportamentos abusivos”.
A ativista considera que à medida que temas como o “feminismo, libertação das mulheres, movimentos queer, antirracistas, das pessoas trans” são mais debatidos, também surgem “os movimentos contra esses movimentos”. E é nesse “contra” que diz que muitos adolescentes acabam por aprender, ou reaprender, uma espécie de cartilha antiga, agora em versão digital.
Inês Marinho aponta o papel das redes sociais como catalisador desta regressão. Não apenas porque os jovens passam “muito mais tempo” online, mas porque o algoritmo tende a empurrar, repetidamente, conteúdos que legitimem e reforcem determinadas ideias e conceitos. Neste caso, “quem ama controla”, “quem controla protege”, “quem pede privacidade esconde”. “Se há pessoas com muitos seguidores a dizer isto, se há figuras públicas a dizer isto, a mensagem passa a parecer normal”, resume a ativista.
E assegura que isto não é uma intuição vaga. Observa-o, aliás, quando entra nas escolas, em várias ações da Não Partilhes. Lembra-se de uma em particular, quando perguntou a alunos do secundário se as suas namoradas podiam ter amigos. A resposta não a surpreendeu, mas também não a satisfez: “Cerca de 30% a 40% disse que não.” Ainda insistiu com “a tua namorada pode sair sem ti?”, mas “cerca de 30% voltou a dizer que não”.
E é justamente essa “normalização” que ajuda a explicar o impacto da campanha lançada pela APAV na semana do Dia dos Namorados. Durante os primeiros dias, o anúncio do “RelationChip” parecia real: um suposto microchip “para casais”, com promessa de localização 24/7, sincronização de passwords e monitorização de contactos. “Dois chips, um namoro, zero segredos”, dizia o slogan, ainda sem se saber que por detrás estava a APAV.
"Aquilo que parecia aberrante é o que muitos fazem"
A reação dos internautas foi imediata: indignação, choque, sarcasmo. Houve até quem falasse em distopia e fizesse referência à série “Black Mirror”, da Netflix. Só depois, a 12 de fevereiro, veio a revelação de que era tudo falso. O chip não existia, mas a lógica, sim: quando o controlo é materializado num “chip subcutâneo” parece abusivo, mas quando é no telemóvel julga-se aceitável.
Inês Marinho viu tudo acontecer em tempo real, antes mesmo de perceber que era uma campanha. “Estava muita gente a enviar-me o anúncio online, depois passei por mupis e também vi. Pensei que isto não podia ser a sério.” A avalanche de comentários e partilhas nas redes sociais fez a dúvida instalar-se e, para Inês Marinho, é aí que a campanha acerta: “Nós já partimos do princípio que é uma coisa que pode acontecer.”
Mais inquietante ainda, conta, foi perceber que havia quem não só não se chocasse como quisesse comprar. “Vi alguns comentários a dizer: ‘Eu quero adquirir um, isto é uma ótima ideia’.”
O “RelationChip” era afinal uma simulação criada para “confrontar indiretamente comportamentos normalizados e fomentar a reflexão através de uma inversão de perspetiva”, esclarece o presidente da APAV, João Lázaro, num comunicado enviado à comunicação social: “Aquilo que parecia aberrante num chip é, na verdade, o que muitos casais fazem diariamente e normalizam.” “Muda o chip. Controlo no namoro é violência”, é a mensagem final.
A APAV enumera, na mesma nota, sinais de alerta que tendem a ser relativizados: exigência de acesso a passwords, rastreio contínuo de localização, controlo de amizades e movimentos, monitorização de comunicações. E deixa o aviso: “Estes comportamentos não são expressões de amor, são sinais de violência.”
Violência não acaba na rutura
Entre 2022 e 2025, a associação apoiou 1.343 vítimas de violência no namoro em contexto de relação atual, registando-se um aumento de 36,5% ao longo do período. No mesmo intervalo, foram apoiadas 2.625 vítimas de violência no pós-rutura da relação, um crescimento ainda mais expressivo, de 56,8%, um indicador de que, em muitos casos, o controlo não termina quando a relação acaba.
A maioria das vítimas apoiadas está em relacionamentos heterossexuais (93,4% na relação atual e 93% no pós-rutura) e é do sexo feminino (88,6% nas relações atuais e 87,9% no pós-rutura). Ainda assim, histórias como a de Marco mostram que a violência digital pode atravessar género, idade e papéis.
A distribuição por idades reforça a dimensão geracional do problema: tanto na violência em contexto de relação atual como na violência no pós-rutura, cerca de 48% das vítimas têm entre 18 e 34 anos, com maior peso no grupo dos 25 aos 34 (24,2% nas relações atuais e 26,1% no pós-rutura), seguido dos 18 aos 24 (23,8% nas relações atuais e 21,9% no pós-rutura).