O apagão que atingiu Portugal e Espanha a 28 de abril veio chamar a atenção para algumas fragilidades do sistema elétrico europeu.
É extremamente prematuro atribuir a culpa seja a quem for, muito menos à utilização de energias renováveis na produção de eletricidade, como muitos, apressadamente, sugeriram. Isto porque o problema, como já avançaram vários especialistas, prende-se com questões de gestão da rede elétrica de transporte e distribuição.
Importa desfazer o mito de que são apenas as renováveis que aumentam o risco de falhas no sistema elétrico que tem, obrigatoriamente, que manter o equilíbrio entre produção e consumo de eletricidade.
O que aconteceu foi que uma falha no equilíbrio do sistema, com causas ainda por explicar, originou uma perda súbita de 15 gigawatts de injeção de potência na rede. Num sistema elétrico, onde a produção e o consumo têm de estar equilibrados a cada milissegundo, um breve desfasamento é fatal.
O episódio reforça a necessidade de repensar o sistema elétrico do futuro com o objetivo de assegurar a soberania energética europeia, o que só pode ser conseguido com a aposta em mais renováveis. Só com a expansão da capacidade renovável conseguiremos preços mais baixos e estáveis, e ser realmente independentes energeticamente.
Paralelamente, é necessário reforçar as interligações elétricas com a Europa. Continuamos com uma restrição crónica na ligação entre a Península Ibérica e França. Hoje, apenas 2% da potência ibérica consegue passar essa fronteira. Esta fragilidade limita a resposta a falhas e prejudica a integração no mercado único europeu. Num continente que aposta na energia verde como motor económico e geopolítico as interligações constituem uma necessidade estratégica, que se encontra determinada no “Clean Industrial Deal”, definido pela Comissão Europeia.
O apagão de 28 de abril foi grave porque impactou fortemente na vida da comunidade, mas a verdade é que o último episódio similar, que se tornou conhecido como o “apagão da cegonha”, aconteceu há 25 anos. A REN, que merece ser felicitada pela forma com geriu a recuperação do sistema e do fornecimento de potência elétrica, conseguiu repor boa parte do fornecimento em poucas horas e evitou consequências mais graves em diversas atividades-chave da nossa sociedade.
Que este último episódio tenha servido, pelo menos, para acender esta luz: a gestão global do sistema é tão essencial como o investimento na produção de eletricidade de origem renovável. O investimento na rede de transporte, na rede de distribuição, em sistemas de armazenamento e flexibilidade e na contratação de serviços de reposição de frequência do sistema elétrico são igualmente críticos.
O sistema elétrico do futuro precisa de algoritmos sofisticados. Precisa de serviços de sistema eficazes e resilientes. Precisa de uma rede que possua inércia adequada fornecida pelas fontes de energia certas, reaja em tempo real, antecipe falhas e redistribua fluxos potência gerada de forma ágil. A inteligência artificial é a base de uma rede elétrica moderna.
A transição energética é inevitável, mas não podemos cair na ilusão de que bastam painéis e turbinas. Sem a rede elétrica adequada, não há transição. Sem interligações, não há segurança. Sem inteligência aplicada à rede elétrica, não há futuro. Precisamos de mais renováveis para garantir a soberania e independência energética, mas necessitamos, paralelamente, de uma rede elétrica cada vez mais interligada e cada vez mais inteligente.