São muitas as causas possíveis para o apagão de segunda-feira que deixou a Península Ibéria às escuras. Mas entre o pouco que se sabe e tudo o que ainda não se conhece, há quem tenha algumas certezas. Portugal não depende de Espanha e é capaz de produzir a energia que consome. As energias renováveis não são um problema, mas a rede precisa de ser modernizada. E como em quase tudo: é uma questão de dinheiro
O apagão que deixou Portugal e Espanha às escuras não está relacionado com nenhuma “dependência” energética, nem está relacionado com o facto de estarmos a “importar” eletricidade no momento que aconteceu. Na verdade, Portugal “tem capacidade” para abastecer a sua “procura de eletricidade”. Mas o apagão também não estará ligado às energias renováveis. Falta investir e modernizar o sistema elétrico porque aqui "não há fronteiras".
“Não existe uma dependência energética de Portugal com Espanha ou de Espanha com França. Existe uma interdependência”, explica Jorge Vasconcelos, ex-presidente da ERSE (Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos), à CNN Portugal, depois de convidado a analisar o apagão que deixou a Península Ibérica às escuras durantes mais de dez horas. Até porque “Portugal tem capacidade suficiente para abastecer a procura de eletricidade”, afirmou.
Nas redes elétricas, Jorge Vasconcelos garante que “não há fronteiras” e por isso “somos todos dependentes uns dos outros. Os fenómenos elétricos propagam-se à velocidade da luz. Quando alguma coisa acontece num ponto da rede da Europa continental, propaga-se imediatamente por todos os países”.
Na verdade, só importamos “por razões económicas ou por razões de emergência”. E é nos dois sentidos.
Sobre as longas horas que milhões estiveram às escuras, o ex-presidente da ERSE garante que foi feito “um trabalho notável” e que foi conseguido “restabelecer o abastecimento com uma velocidade impressionante”. Como exemplo, recorda um apagão em Itália, onde algumas zonas esperaram “24 horas pelo restabelecimento”.
O facto de no momento do apagão, Portugal estar a importar energia, Jorge Vasconcelos garante que “podia haver até um fluxo nulo naquelas linhas porque o problema tinha chegado cá na mesma”.
"As próprias centrais elétricas ficaram sem eletricidade"
Do pouco que se sabe, “tratou-se de um problema de oscilação de tensão que tem outras razões”. Saber o que levou a essas oscilações é o que falta. E desligar o sistema foi para segurança de todos. Seja “proteger os equipamentos da rede elétrica, mas também os nossos equipamentos”.
Existiu “uma situação extrema onde deixou de haver eletricidade”, num cenário em que “as próprias centrais elétricas ficaram sem eletricidade” e “fazer o arranque de uma central elétrica requer muita energia". O processo foi “lento, progressivo” por necessidade absoluta: “Porque não podemos correr o risco de criar, de repente, desequilíbrios que iriam levar a um outro apagão”. Na prática, e como explicaram as autoridades, é preciso reconectar tudo devagar para não correr o risco de novo apagão geral numa das ligações.
E como se pode evitar novos apagões deste nível? Investindo. “Há pelo menos 20 anos que especialistas nesta área vêm alertar para a necessidade de investimentos novos no sistema elétrico, tanto do ponto de vista dos equipamentos que estão instalados, como do ponto de vista da digitalização da energia, da inteligência do sistema elétrico”, acrescenta Jorge Vasconcelos.
“Não só falta a capacidade física de ligação à rede, como faltam depois equipamentos. Falta a modernização do nosso sistema elétrico”, defende o especialista. E é algo que vai ter de acontecer “mais cedo ou mais tarde”.
Desde que o apagão deixou a Península Ibérica às escuras muitas vozes vieram condenar o encerramento das centrais termoelétricas de Sines e do Pego, que produziam energia à base de carvão. Mas o ex-presidente da ERSE defende que este desligar não teria sido evitado: “Não, a solução não é construir novas centrais a carvão”.
E explica de forma simples o motivo: “Tivemos o colapso do sistema elétrico, nós não queremos o colapso do planeta. O nosso planeta corre o mesmo risco, que é de estarmos aqui todos a gozar esta primavera magnífica e depois de um dia para o outro temos um colapso do planeta”.
"Não houve nenhum problema de abastecimento do lado das renováveis"
A garantia foi deixada esta terça-feira por Pedro Amaral Jorge, presidente da Associação Portuguesa de Energias Renováveis, que esteve na CNN Portugal para rebater algumas críticas e teorias relativamente ao apagão. Defendeu mesmo que tudo estará relacionado com “um problema de evolução do sistema de gestão da rede”.
"Se olharmos para a condição de base em que Portugal estava no momento do apagão, que tinha vento, sol e as albufeiras cheias, não houve nenhum problema de abastecimento do lado das renováveis. O que ainda não se conseguiu averiguar foi porque é que houve aquela queda de 15 gigawatts de potência e isso não está minimamente justificado", afirma. "Aqui o tema não é um problema nem do abastecimento, nem um problema do consumo, foi um problema que aconteceu na rede".
Algo que não tem nada "a ver com termos mais ou menos renovável no sistema. Tem a ver com o facto de termos de avançar para sistemas de gestão compatíveis com esta questão de termos variabilidade na produção e variabilidade no consumo". A grande questão que intriga todos os especialistas é a perda de 15 gigawatts em poucos segundos. "A rede elétrica nacional e a rede elétrica espanhola têm acesso aos sistemas de produção de eletricidade de fontes renováveis e eles automaticamente podiam reduzir a potência se fosse esse o caso".
"Ou seja, se tivéssemos excesso de potência renovável na rede, o próprio operador da rede de transporte, que é o gestor global do sistema, teria capacidade de ter desligado ou reduzido essa potência", clarifica o presidente da Associação Portuguesa de Energias Renováveis. "Há um princípio físico básico: eu nunca posso ter excesso de produção porque o sistema tem de estar equilibrado a cada milissegundo".
E para que qualquer pessoa possa perceber o que eventualmente aconteceu, mesmo que o motivo ainda seja desconhecido, usa o exemplo de uma mangueira: "Se eu tiver uma mangueira onde passa um litro de água por segundo, se de repente essa mangueira tiver um estrangulamento e só passar um quarto de litro por segundo, eu vou ter de passar essa água para algum lado. Se eu tivesse um retorno desse escoamento de água para trás, eu poderia, entre aspas, voltar a pôr água na canalização". Só que "isto não pode acontecer". Quando a restrição existe está ligada à passagem de potência e não tem nada a ver com "a tipologia de fonte energética que está a produzir a eletricidade naquele momento". E é por isso que insiste: "Tem a ver com a gestão da rede".
Haver um "mercado elétrico único e ibérico" representa "redução de preços" porque algumas vezes "Portugal está a importar de Espanha porque há excedente renovável em Espanha que é mais barato que utilizar ciclos combinados em Portugal".
"Houve algum problema de programação, de despacho, de operação de rede ou algo à volta disto"
O antigo presidente da Endesa, Nuno Ribeiro da Silva, também esteve esta terça-feira na CNN Portugal e acredita que o apagão "com certeza que poderia ser evitável". E explica: "Se não temos uma situação que é um ato de Deus, como se costuma dizer, de um terramoto, de uma queda de uma árvore em linhas, da célebre cegonha. Se não há, digamos, uma causa exógena que atua sobre o sistema elétrico é porque houve algum problema de programação, de despacho, de operação de rede algo à volta disto".
E é aqui que, na sua opinião, a investigação se deve focar no imediato. Acredita mesmo que será "uma coisa simples e uma coisa que pode ser anunciada e tornada pública em horas, em poucos dias". O que não significa que, depois, não seja feita uma análise mais profunda e "exaustiva" que indique, por exemplo, "onde é que o sistema elétrico, onde é que a rede, onde é que a subestação é débil e deve ser alvo de reforço se todo o sistema de comunicação entre operadores de rede de Portugal, de França, de Espanha, de Marrocos deve ser agilizado e melhorado, se os sensores que estão no sistema para dar alertas devem ser reforçados, etc".
Em relação ao um excesso de produção de energia fotovoltaica, Nuno Ribeiro da Silva não tem dúvidas em afirmar que "a fotovoltaica é uma benesse, não é um problema". Ou seja, essa "não é a origem da questão de haver a mais ou de haver a menos". Até porque, "há vento, não há vento, amanhã há sol, não há sol, há água, não há água. Os sistemas na Península Ibérica têm estado a operar, muitas das vezes, com 100% das renováveis. Portanto, esse não é o problema. Há tecnologias, há já experiência sobeja de lidar com esta geração de eletricidade dispersa pelo território e proveniente de uma mistura de tecnologias".
Voltar ao carvão? Ao nuclear? Para o antigo antigo presidente da Endes "quando isto aconteceu, uma série de centrais nucleares em Espanha estavam paradas porque não eram necessárias". E acrescenta: "Falava-se das centrais a carvão, que fazem muita falta. Não fazem falta nenhuma. Na Endesa tínhamos uma central a carvão, participávamos na central do Pego e antes de ela ser parada em definitivo há oito meses que não arrancava, porque era muito caro, não era competitiva. Não precisávamos da central para nada".
