Espanha já tem algumas justificações para o apagão ibérico: há uma coisa "estranha" e outra "normal"

17 jun 2025, 15:34
Apagão total (Lusa)

Apagão aconteceu a 28 de abril e afetou Portugal e Espanha

O governo espanhol responsabiliza a Red Eléctrica e as empresas de eletricidade pelo apagão de 28 de Abril, apresentando os primeiros vislumbres de explicação para as várias horas que Portugal e Espanha estiveram sem luz.

A ministra da Transição Ecológica de Espanha, Sara Aagesen, apresentou esta terça-feira, na conferência de imprensa após do Conselho de Ministros, as principais conclusões da investigação ao apagão, sublinhando que este resultou de uma "combinação de fatores" que provocaram elevada sobrecarga de tensão que o sistema elétrico de Espanha foi incapaz de absorver por diversos motivos, incluindo "má planificação" do operador.

A operadora do sistema elétrico - Red Eléctrica de España (que é 20% pública) não programou toda a geração necessária para controlar a sobrecarga, pelo que foi isso que acabou por provocar a falha de todo o sistema.

"Havia capacidade de geração suficiente para responder", afirmou Aagesen, deixando claro que o problema não era a falta de geração - como temiam aqueles que, durante o auge da crise energética de 2021 e 2022, avisavam para um apagão em larga escala -, mas sim a incapacidade de Red Eléctrica em programar toda a energia que deveria ter no dia anterior ou nas horas que antecederam o incidente. Havia centrais disponíveis, mas o gestor não as considerou no seu cronograma.

Aagesen especificou que, das 10 centrais programadas pela Red Eléctrica para garantir o fornecimento devido a restrições técnicas, "todas elas apresentaram algum grau de incumprimento" da sua obrigação de absorver energia reativa. No dia anterior, uma dessas centrais, cuja principal função é mitigar as oscilações de energia, foi declarada indisponível.

A Rede Eléctrica "decidiu não substituir aquela central durante a hora de ponta do dia" e isso fez com que o sistema elétrico nacional operasse no dia 28 com "menor potência reativa do que em qualquer outro dia do ano", abaixo dos níveis que a própria Red Eléctrica tinha calculado poucas horas antes. Ou seja, o sistema elétrico nacional encontrava-se numa posição vulnerável face a picos de energia sem precedentes até então em 2025. Minutos antes do apagão, a gestora da rede ordenou a entrada em funcionamento de uma nova central, que só ficou disponível às 14:00 locais, quase uma hora e meia depois do apagão.

Existem também suspeitas de incumprimento dos protocolos previstos para situações de sobrecarga de tensão. Algumas das medidas implementadas pela empresa presidida por Beatriz Corredor durante essa manhã agravaram o aumento da tensão, em vez de a mitigar. Por exemplo, a operadora teve de controlar fortes flutuações de frequência, interligando a rede e fechando as exportações para França, o que permitiu o controlo das flutuações, mas contribuiu para tensões mais elevadas.

No entanto, o relatório realça que a operadora estatal cumpriu os protocolos de operação, cuja revisão e atualização são da responsabilidade da Comissão Nacional de Mercados e Concorrência (CNMC) e do próprio ministério.

Mas, além de culpar a empresa presidida por Beatriz Corredor, o governo apontou também ações "impróprias" das empresas de eletricidade. Nenhuma das nove centrais convencionais (a gás natural, nuclear ou a carvão) que foram declaradas disponíveis para amortecer o pico de energia nesse dia - o que é conhecido na gíria como fornecimento de energia reativa - reagiu como esperado.

Outro pormenor importante incluído no relatório é que algumas das centrais geradoras, presumivelmente renováveis, que foram desligadas quando a tensão começou a subir, fizeram-no "de forma inadequada". Ou seja, foram desligadas às 12:33 locais, antes do exigido pela regulamentação.

Dizer que houve centrais que não absorveram energia reactiva como deviam é apontar directamente para as grandes empresas eléctricas: Iberdrola, Endesa, Naturgy e EDP, que são responsáveis ​​por quase todo o parque de geração tradicional, explica o El Pais

"Faltava no sistema capacidade de regular a tensão", embora haja em Espanha "parque de geração suficiente para responder” a uma situação como a que ocorreu, disse Sara Aagesen. Assim, como consequência desta sucessão de eventos e falhas, chegou-se, nos momentos antes do apagão, a "um ponto de não retorno, com uma reação em cadeia incontrolável", quando um "fenómeno de sobrecarga de tensão", muito elevada, levou a desconexões sucessivas das instalações de produção de eletricidade que provocaram, elas próprias, "novas desconexões", sintetizou a ministra. As desconexões começaram em centrais do sul e sudoeste de Espanha, nomeadamente, Granada e Badajoz.

Segundo o Governo espanhol, todas as oscilações no sistema elétrico detetadas nos dias, horas e minutos anteriores ao apagão foram consideradas habituais e dentro de parâmetros normais, com exceção de uma, identificada numa instalação de geração no sudoeste de Espanha, às 12:03 de 28 de abril (11:03 em Lisboa). Mas o que causou esta flutuação anómala? O relatório conclui que uma instalação fotovoltaica específica se comportou de forma anormal, no sudoeste de Espanha,  afirma o El Mundo. De acordo com a ministra, foi uma oscilação "não típica ou conhecida", mas não deu mais detalhes e não confirmou as informações publicadas na imprensa espanhola nas últimas semanas de que se tratava de uma instalação de geração fotovoltaica.

Excluídas ficaram quaisquer suspeitas de que o apagão tivesse sido causado por um ciberataque.

Os resultados completos da investigação só serão tornados públicos esta tarde. A vice-presidente insistiu que a sua auditoria "não é um relatório judicial" e, por isso, afastou despedimentos neste momento. Assim, o governo evitou apurar responsabilidades e deixou esta questão a cargo do supervisor do setor, a CNMC, e dos tribunais, que terão de decidir quem pagará as indemnizações às empresas e famílias afetadas pelo incidente. São estas autoridades, segundo o governo, as responsáveis ​​pela imposição das sanções adequadas.

A ministra vai hoje à noite reunir-se em Lisboa com a homóloga portuguesa, Maria da Graça Carvalho.

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