É melhor instalar painéis solares ou baterias? Para onde foi a energia produzida no apagão? Respostas a estas e outras perguntas aqui

2 mai, 14:59

Nos últimos dias, por motivos óbvios, andámos todos a falar de eletricidade e energia. Trata-se de um tema complexo, muito técnico, e, por isso, à custa das muitas dúvidas que têm surgido, explicamos, de forma simples, o que anda na cabeça de todos. Com a ajuda, claro, de dois especialistas na matéria. Um deles é João Graça Gomes, investigador no Imperial College London, especialista em energia. É também membro da direção do Future Energy Leaders do Conselho Mundial de Energia. O outro especialista, que prefere não ser identificado, conta com uma vasta experiência no mundo empresarial da energia em Portugal

1. A rede vai sempre abaixo quando há um excesso de produção?

A resposta é não. A rede vai abaixo quando há uma sobrecarga num ponto da rede ou cai uma subestação ou posto de transformação – daí que existam as falhas a que estamos habituados, permitindo defender e proteger a própria rede, por exemplo, no caso de ser necessária uma intervenção.

“Não é previsível que a rede vá abaixo. Nenhum país está verdadeiramente preparado para um apagão desta dimensão, a que chamamos de cisne negro. Não se trata de uma questão de sobreprodução, é uma combinação de diversos fatores”, confirma João Graça Gomes.

Uma sobrecarga de energia dá-se quando existe um problema na linha. Tal como acontece nas nossas casas, quando o quadro vai abaixo em caso de curto-circuito.

Já agora, quando há excesso de produção, o sistema pode recorrer a várias soluções: exportar para países vizinhos ou armazenamento com recurso a baterias elétricas ou centrais hidroelétricas reversíveis.

2. Se havia energia renovável a ser produzida em Portugal, porque não continuou a fornecer algumas partes do país?

Para funcionar bem, a rede elétrica precisa de um certo equilíbrio entre o consumo e a produção. Quando há uma alteração significativa, por uma questão de segurança, as centrais – mesmo as renováveis – desligam-se, uma vez que estão ligadas à rede. Tal evita que os técnicos que estão a reparar a rede corram riscos com injeções inesperadas de energia.

“Quando há uma alteração súbita e significativa, seja por excesso ou défice de produção ou consumo, a frequência da rede pode desviar-se do valor nominal. Se essa variação não for rapidamente corrigida, pode desencadear um efeito em cascata que obriga as centrais a desligarem-se automaticamente para proteger os equipamentos e evitar danos maiores”, explica João Graça Gomes.

É por causa desse equilíbrio que o processo de retoma da energia também é tão complexo, demorado e, acima de tudo, faseado. Imagine que está em casa e há uma quantidade de energia a entrar. Se estiver a consumir mais energia do que aquela que está a receber, o quadro dispara e vai abaixo.

Um dos especialistas ouvidos refere que “o mais normal” seria que tivesse havido falhas de energia maiores depois do regresso da energia no país, precisamente devido a esse equilíbrio necessário entre o consumo e a produção.

3. O que acontece à energia que foi produzida durante o apagão? E à que não se consome?

As unidades de produção têm sistemas de corte. Ou sejam, deixam de produzir durante o período do apagão, uma vez que não havia rede para escoar a energia produzida. Embora a turbina eólica, por exemplo, continue a girar, o inversor não deixa a energia ser injetada na rede.

“Quando ocorreu o apagão, a maioria das unidades de produção em Portugal desligou-se automaticamente, como resposta ao desequilíbrio da rede”, explica João Graça Gomes.

E o que acontece à energia que não se consome? Numa palavra: perde-se. A não ser que existissem, por exemplo, sistemas de armazenamento na rede, algo que não existe em Portugal.

“Essa energia pode ser desviada para sistemas de armazenamento, como baterias ou centrais hidroelétricas reversíveis (bombagem), para ser utilizada mais tarde, quando a procura aumentar”, diz João Graça Gomes. Mas “num contexto de apagão generalizado, quando a rede colapsa, deixa de haver condições técnicas seja para produzir seja para armazenar”. Os sistemas desligam-se automaticamente. Resultado: a energia perde-se.

4. O que necessita Portugal para ser independente de Espanha e do resto da Europa?

A ideia ganhou força, mas para os especialistas ouvidos pela CNN Portugal não faz qualquer sentido. A independência tem um preço. E não se trata apenas de investimento. “Se sou independente, quando tiver problemas, não posso contar com os outros. Não acho que seja favorável ao país”, considera um dos especialistas ouvidos pela CNN Portugal. 

João Graça Gomes distingue entre independência elétrica e energética, realçando a “grande autonomia na produção de eletricidade”, mas a dependência em relação aos combustíveis fósseis. Para contrariá-la, diz, é importante continuar a apostar nas energias renováveis, nas tecnologias de armazenamento e na eficiência energética. “Este apagão nada teve a ver com independência. Tratou-se apenas de uma dinâmica de mercado. Portugal estava a importar energia de Espanha a um preço mais vantajoso”, lembra.

“Interligar os sistemas elétricos dos países europeus é, paradoxalmente, uma forma de aumentar a segurança e a resiliência energética. Quando Portugal tem excesso de produção renovável, pode exportar”, junta. E Espanha comprova-o: conseguiu recuperar mais rapidamente devido às interligações que mantém com França e Marrocos.

5. Se houvesse um sistema mais eficaz de "black start" [retoma] era possível contrariar mais rapidamente os efeitos de um apagão?

Em teoria, sim. Os especialistas advertem que ter mais centrais a fazerem um arranque a partir do zero não é uma garantia de maior rapidez na reativação. Seria, dizem, um “backup” interessante. Mas, como o sistema funciona em cascata, nunca haveria garantia de que ele arrancaria mais depressa.

“Com base na informação disponível, a magnitude do apagão que ocorreu teria sido difícil de evitar, dada a dimensão da disrupção e a perda de sincronismo com o resto da rede europeia”, aponta João Graça Gomes, que vê no Alqueva um potencial local para acolher esta funcionalidade. 

6. O que é mais favorável: instalar painéis solares ou baterias?

Se o que quer é não ficar sem luz no caso de um novo apagão, não lhe chega ter os painéis solares. Como lhe explicámos neste artigo, os painéis precisam de estar ligados à rede. E, em caso de perturbação da mesma, deixam de produzir energia. A alternativa para continuar a ter energia é uma bateria.

“Uma casa normal consome na casa dos 9 quilowatts (kW) por dia. Uma pessoa que instala uma bateria com 10 kW consegue energizar a casa toda. Para ser mesmo resiliente, o melhor é ter uma bateria, porque pode carregá-la a partir da rede. E, se a rede falhar, a bateria passa a ser a própria rede. Para compararmos, uma bateria de 10 kW poderá custar na ordem dos cinco mil euros. Um gerador fica pelos mil”, explica um dos especialistas.

João Graça Gomes realça que “tudo depende do objetivo pretendido e do perfil de consumo”. Os painéis fotovoltaicos são, “em regra, mais vantajosos do ponto de vista económico para os utilizadores residenciais”, permitindo “reduzir significativamente a fatura energética e ter um retorno do investimento comprovado”.

Já no que respeita às baterias, explica que “pode ser interessante para aumentar a autossuficiência energética”, embora com um retorno financeiro geralmente “inferior ao dos painéis solares para o utilizador comum”.

A combinação de painéis e baterias, vincam os especialistas, seria importante para garantir que não haveria falhas de energia em hospitais, instalações militares, centros de comando da proteção civil ou edifícios governamentais. Porque, assim, havia energia a ser produzida com recurso a uma fonte renovável. E, em caso de falha da rede, a bateria asseguraria esse fornecimento de energia.

7. Os painéis solares para autoconsumo não significam independência da rede?

Como já lhe demos pistas acima, a resposta é não.

A grande vantagem dos painéis para autoconsumo, explicam os especialistas, está na independência de preço, não na disponibilidade de energia. Isto significa que, se o preço da energia subir muito, a pessoa que tem essa produção não fica suscetível a esses aumentos, evitando flutuações. Mas, em caso de apagão, continua a ficar desprotegido.

“Mesmo tendo painéis para autoconsumo, estou sempre dependente da rede. Os painéis precisam de estar ligados à rede elétrica, até por questões de segurança. Se quisesse independência da rede, teria de ter uma bateria e um sistema autónomo, algo que implica alterações na lei em Portugal”, reitera João Graça Gomes.

8. E se as casas funcionassem como "backup" de rede? Seria possível obrigar todos os edifícios a ter produção de energia solar e armazenamento de "backup"?

É um cenário possível: incorporar sistemas de produção renovável (solar) e armazenamento. E até já há testes em curso, por exemplo, na Alemanha, motivados pela preocupação quando iniciou a guerra na Ucrânia. Ainda assim, o caminho passa por uma gestão empresarial dessas mesmas baterias, para evitar que algum fluxo repentino na produção pudesse levar toda a rede abaixo.

Na prática, seria um sistema de armazenamento que apoiava a rede, mas que a rede pudesse comandar.

“Apesar de ser possível em teoria, há barreiras técnicas, económicas e regulatórias. Seria necessária uma gestão muito sofisticada do sistema. E o custo para o consumidor seria muito elevado. Em caso de obrigação, poderia mesmo encarecer ainda mais o acesso à habitação”, alerta João Graça Gomes. A aplicar, diz, a prioridade seriam os edifícios de setores fundamentais.

O outro especialista insiste que um sistema como este devia aplicar-se às redes de telecomunicações, que foram “abaixo muito depressa” no apagão de segunda-feira. Um sistema destes permitiria maiores garantias de continuidade do sistema.

Mas, por mais que existam mecanismos de “backup”, no que à energia diz respeito, há um ensinamento que todos devemos ter em conta: todas as previsões falham. A prioridade terá de ser criar um sistema adaptável às necessidades futuras, em vez de investir num sistema redundante para acontecimentos que são muito esporádicos, defende João Graça Gomes.

9. Temos ouvido falar em preços negativos na energia. Porque é que isso acontece e o que significa?

Em resumo: a energia atinge preços negativos por causa dos stocks. Ou seja, se o consumo não for suficiente para absorver a energia produzida, esta mesma energia precisa de continuar a ser injetada na rede, até porque existem normas para garantir a estabilidade do sistema, que os produtores não se desligam por sua livre vontade. Como a estratégia de armazenamento é limitada, injeta-se na rede. No fundo, os produtores estão a pagar para que a energia seja consumida. Tal acontece sobretudo quando há um excesso de produção renovável.

10. Mas se os preços da energia estão assim tão baixos, porque é que a minha conta da luz se mantém alta?

Há duas razões para isso. Uma coisa é o preço da energia ser negativo num determinado período, outra é o preço médio diário.

A segunda razão está no custo das redes, que é significativamente mais alto do que o custo da energia.

Conclusão: os preços negativos não se traduzem diretamente em descontos para o consumidor. Porque na fatura da eletricidade entram muitas coisas, incluindo o custo da rede, mas também, por exemplo, os impostos e a taxa audiovisual.

11. E se todos saíssem da rede, o que acontecia?

Se todos ficássemos “off-grid”, ou seja, se não dependêssemos da rede e produzíssemos a nossa própria energia, o resultado era claro: os custos da rede ficariam mais caros para os consumidores. É uma consequência da economia de escala.

Imagine que metade dos consumidores saía da rede, a outra metade que lá se mantinha tinha de continuar a pagar os mesmos custos.

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