ENTREVISTA || No meio de uma crise energética a discussão sobre a dependência e a estabilidade do sistema saltou para a frente. Pedro Sampaio Nunes, um dos maiores especialistas da área em Portugal, fala-nos de tudo o que aconteceu, do que não devia ter acontecido e de como a Europa caminhou lentamente para a situação em que se encontra hoje
Estamos há quase uma semana a falar de um apagão que deixou toda a Península Ibérica às escuras durante meio-dia e continua a haver muita confusão sobre a causa e o peso das diferentes fontes de energia no caso. Falamos apenas de ciência, ou há aqui algo mais?
Eu penso que há seguramente alguma coisa de natureza política, porque faz muita confusão, com os instrumentos que existem hoje em dia para acompanhar a gestão das redes, que são altamente sofisticados, mas também altamente seguros, não se saber qual foi a razão deste apagão.
Este apagão foi uma situação muito grave. É para evitar as situações que as redes são geridas com grande cuidado e com grande profissionalismo e com grande sofisticação técnica. Por isso, ao ter acontecido, já deveríamos saber qual foi a causa. Agora, o que me parece, é a minha convicção, é que o governo espanhol está muito embaraçado com esta situação e não querem, de facto, reconhecer qual é que é a causa. A comunidade técnica está praticamente toda de acordo com o que terá acontecido. Tem de ser confirmado não está ainda completamente afastada a questão do eventual ciberataque, embora não se veja bem quem é que seria o autor e qual é que seria o interesse.
Mas o que é facto é que tudo aponta para a excessiva penetração das energias renováveis na altura do apagão e oscilação de sequência ocasionada por uma quebra nessa produção, que pode ter sido ocasionada pela passagem de uma nuvem mais espessa, por isso havia uma elevadíssima injeção de energia solar na altura.
Aliás, há vários relatórios, um deles a própria rede elétrica espanhola, que avisava para, alertava para esse risco. Aliás, como aqui em Portugal, também o próprio anterior diretor-geral [da Direção-Geral de Energia e Geologia], o engenheiro João Bernardo, tinha alertado a Ordem dos Engenheiros para esse risco: que a nossa rede também está sujeita pela elevada percentagem de injeção renovável intermitente, sem a capacidade de inércia rotacional que garante a manutenção dessa frequência.
Parece estranho porque não conseguimos perceber exatamente o que é que se passou. No seu entender, o que é que faz com que não haja ainda uma explicação mais completa? Há algum lobby aqui?
Acho que existe uma questão política. Isto é altamente politizado em Espanha. O PSOE defende o encerramento das centrais nucleares, o PP opõe-se e neste momento, a explicação de que a rede espanhola não pode aguentar uma percentagem elevada de injeção renovável intermitente, sem pôr em risco a sua segurança, põe em questão totalmente a política adotada pelo governo do PSOE, que tem defendido com unhas e dentes esta opção.
Por isso, em meu ver, há aqui um grande embaraço, de tal modo que é absolutamente surpreendente que o primeiro-ministro [Pedro Sánchez], quando faz a primeira declaração, venha dizer que é necessária uma auditoria independente, técnica, mas à partida exclui logo o facto de ser originado pelas renováveis. Isto não faz sentido nenhum.
A própria Red Eléctrica já veio dizer que não foi, sem dar muitas explicações…
Aparece o diretor-operacional da Red Elétrica, que falou logo no princípio, também a dizer que possivelmente a explicação teria sido isto, o momento de flutuação da injeção de energia renovável e posteriormente, no dia seguinte, aparece a presidente da Red Eléctrica também a corroborar aquilo que tinha dito o primeiro-ministro. Analisando o currículo da presidente da Red Elétrica, vemos que é uma girl do PSOE, sem qualquer preparação técnica, vi o currículo dela e fiquei absolutamente espantado como é que uma pessoa com aquela preparação académica possa ser presidente de uma coisa tão técnica como a gestão da rede elétrica. E ela vem também dizer que não foram as renováveis.
Agora, tudo aponta, no meio técnico, não estamos a falar no nível político, estamos a falar no nível mais abaixo, a nível técnico, que terá sido exatamente esta questão do excesso da injeção renovável. Se não foi, poderá ser no próximo momento, porque esta situação de falta de inércia no sistema coloca e fragiliza muito a rede espanhola, como fragiliza a rede portuguesa. Vimos algumas pessoas a discutir esta questão, a dizer que se tivéssemos as centrais de carvão a situação tinha sido a mesma. Não, se estivessem a funcionar, ou se tivessem as centrais nucleares [espanholas] estivessem a funcionar, que não estavam - por excesso injeção de energia renovável foram desativadas para não estarem a queimar combustível inutilmente -, e isso é que tornou a rede muito instável. Se estivessem a funcionar davam-lhe esta inércia, que permite absorver estas flutuações de frequência.
Falou na palavra oscilação, que foi uma das palavras da semana. Outra foi a palavra equilíbrio. A REN falou muito no equilíbrio da rede e da tensão. Este termo não dá uma sensação de precipício?
O equilíbrio da rede é manter a frequência dentro de uma banda de oscilação mínima. Logo que essa banda de oscilação da frequência, a frequência são 50 Hertz, logo que essa barreira de mais ou menos 1 Hertz é ultrapassada, os sistemas de proteção automáticos começam a disparar. E isso pode iniciar uma situação em cascata que seja impossível de controlar, que foi o que aconteceu. Isto é uma situação inédita. Isto é uma situação de uma gravidade extraordinária para a gestão de uma rede moderna. Nunca tinha acontecido.
Acontece, provavelmente, mas isso temos de aguardar por um relatório independente, que os gestores do sistema a nível europeu também farão, para saber exatamente o que aconteceu. Agora, nós sabemos é que, com falta de suficiente inércia, o sistema torna-se muito vulnerável a este tipo de situações. Quem defende ainda esta, desculpe a utilização do termo, fantasia de que é possível vivermos só com renováveis intermitentes, diz que podemos criar inércia sintética através de uma série de investimentos de eletrónica de potência, que tenta de algum modo copiar este tipo de funcionamento das grandes massas girantes, que são as turbinas.
Mas isso é insuficiente e é experimental. Não parece que se possa substituir completamente a garantia que nos dá uma central convencional.
Mas consegue explicar exatamente o que aconteceu a um leigo? Ficamos numa situação de aparente vertigem…
A gestão da rede é feita permanentemente em equilíbrio entre a produção e a procura. Entre a oferta e a procura. A soma de todos os consumos que existem na longa rede. A soma desses consumos tem de estar igual à oferta. Se a oferta for menor, a frequência cai. Se a oferta for maior, a frequência sobe. Mas tem de funcionar sempre com aquela frequência de uma forma síncrona.
E aquilo que terá acontecido foi que houve demasiada produção para o consumo existente. É isso?
Aquilo que terá acontecido é que a elevada produção solar naquela zona… havia demasiada produção para o consumo que estava a ser feito. Aquilo que pode ter acontecido é que havia uma grande produção na altura, cerca de 70% provinha de energia solar, mas outro tipo de energias também intermitentes, com muito pouca energia convencional. E poderá ter agido uma oscilação da produção, que pode ser eventualmente a passagem de uma nuvem mais espessa sobre um campo de centrais fotovoltaicas, que tenha feito descer de uma forma mais abrupta a injeção disponível nessa altura. E ao fazer descer, desceu a frequência e isso fez saltar as proteções que existem ao longo da rede. E efeito propagou-se em cascata, em toda a rede espanhola, até à rede portuguesa, deitando a baixa rede portuguesa, e impactou também uma parte da rede francesa.
E temos falado muito na questão das centrais a carvão nas portuguesas, Sines e Pego, que estão desativadas neste momento. Se estivessem a trabalhar, teríamos evitado o apagão?
Se eles estivessem a trabalhar, a probabilidade disto acontecer era muito menor, porque tinham a tal capacidade de inércia suficiente para aguentar a nossa rede. Agora, não estando, nós não temos grandes massas girantes que possam dar a inércia que ajude a absorver estas flutuações de frequência. Por isso, se elas estivessem a trabalhar... isto põe em questão, ou vem por uma nova questão ao funcionamento do mercado elétrico. Porque o mercado elétrico foi, em 1996, depois sucessivamente, através de várias diretivas, foi liberalizado, criando uma lógica de mercado que substituiu a antiga lógica de monopólio, porque gerir monopólio é mais fácil do ponto de vista técnico, mas menos eficiente do ponto de vista económico. Por isso, com esta lógica de mercado, esta liberalização, criou-se uma ordem de mérito, um despacho, em que as centrais são chamadas a partir do seu preço.
Quanto mais baixo está oferecido o preço a que a central se oferece, mais cedo é chamada para fazer o casamento com a procura. Só que, ao mesmo tempo que havia esta lógica pura de mercado, criou-se uma lógica também - uma outra aproximação um pouco contraditória com esta, de puro funcionamento do mercado - que foi a vontade de promover as energias renováveis, que inicialmente eram muito caras, e por isso deu-se uma série de ajudas, entre elas as feed-in tariffs [mecanismo público utilizado para promover as energias renováveis] e também a prioridade do despacho. As energias renováveis têm prioridade do despacho sobre as outras formas de energia, como uma ajuda para que elas se afirmassem.
Uma coisa é enquanto estamos a falar de uma tecnologia nascente ou emergente, estamos a falar de uma pequena quantidade que é facilmente absorvida pelo grande conjunto do mercado. Outra coisa é quando ganha muita expressão e mantemos essa mesma característica que é contra a lógica do mercado. A lógica do mercado diria que o mérito de despacho deve prevalecer o preço e o fator de capacidade. Porque as formas de energia com o fator de capacidade mais elevado são aquelas que permitem que o processo se efetue com o máximo de eficiência. Isto é, há tipos de tecnologia que estão vocacionadas para funcionar na chamada carga de base, que são as centrais nucleares, as centrais de carvão. Há outras que são intermédias, as centrais de gás natural.
As primeiras estão vocacionadas para trabalhar entre as sete mil e oito mil horas. As de gás natural estão vocacionadas para trabalhar à volta das cinco mil e seis mil horas. E depois, as renováveis trabalham quando existe vento ou sol. Aí só são despacháveis este tipo de tecnologias mais as hídricas de albufeira.
Aquilo que está a acontecer com esta elevada produção de energia intermitente é que cada vez mais há condições em que há tanta energia renovável que ultrapassa a procura, que somos obrigados a deitar fora a energia. O que é que acontece no mercado? Os preços descem para zero ou para negativos. É este facto que as pessoas tendem a esquecer neste momento que põe totalmente em causa a capacidade de atingirmos as metas de 2030. Porque não há condições de rentabilidade no investimento em nova potência. Já estamos numa zona em que para viabilizar projetos é preciso fazer aguentar o prejuízo durante alguns anos de se não ter rentabilidade no projeto para garantir o valor de ter uma ligação ao sistema, um título de ligação à rede.
É por isso que a meu ver, e como cada ano nós temos mais horas de preços negativos - começámos há três anos a nível da Europa com cerca, se não me engano, de 60 em qualquer coisa horas, depois tivemos 300, depois já tivemos de 600 e este ano já temos mais do que no último ano que foi e teve mais - a meu ver significa que nós saturámos o mercado, não há capacidade de absorção de mais procura, porque uma das características das energias renováveis intermitentes é que produzem num número limitado de horas: a fotovoltaica em Portugal é entre 1.600 e 2.000 horas - o ano tem 8.760, por isso é um fator de capacidade de 15% a 20% -, a eólica cerca de 2.400 horas - fator de capacidade entre os 25% e os 30% - e depois temos a hídrica, que nos anos húmidos contribui com 30% das nossas necessidades, mas nos anos secos com apenas 10%.
Isto significa que, mesmo que nós pudéssemos, idealmente, pôr a solar a produzir, e depois à noite a eólica e a hídrica quando desse jeito, nós no máximo conseguiríamos cobrir 70% em ano húmido e 40% em ano seco. Há aqui um número de horas que estamos estruturalmente dependentes da importação de eletricidade diretamente de Espanha ou de pormos as centrais a gás a funcionar. Mas como elas estão vocacionadas, em termos ideais, para funcionar cerca das tais 6.000 horas e não funcionar só de 2.000, tem um custo muito elevado, muito baixa rentabilidade, o sistema está completamente disfuncional e já alertámos para isto, um grupo de professores e especialistas.
Pensa-se que neste momento temos objetivos não atingíveis em condições de mercado, temos uma rede extremamente vulnerável porque desativámos, a meu ver estupidamente, as centrais que nos davam alguma garantia de inércia para a carga de base. Para quê? Portugal contribui para os gases de efeito de estufa com 0,1% do CO2 equivalente. Nada. Nós não contribuímos em nada para o problema do aquecimento global.
E a Europa não devia ter uma palavra mais científica neste ponto?
A Europa, que lançou também esta política um pouco demagógica e suicidária, contribui com menos de 7%. Não é a Europa que vai resolver isto, pelo contrário. A Europa esteve a pagar o desenvolvimento destas tecnologias críticas que pensava que ia controlar. Estivemos a pagar, a nossa economia, a nossa indústria, para a China agora as controlar totalmente.
Por isso nós passámos de uma dependência muito importante da Rússia em termos de gás natural - era um parceiro muito importante no nosso aprovisionamento, para a indústria e para a sociedade em geral - e neste momento temos uma dependência da China em termos de tecnologia. E de outra coisa muito importante: dos materiais críticos para poder produzir este tipo de tecnologias. Neste momento a China domina completamente toda a fileira solar, domina largamente toda a fileira eólica, domina largamente toda a fileira dos veículos elétricos e domina muito substancialmente toda a fileira das baterias.
Além disso, controla as cadeias de abastecimento que permitem pôr a funcionar este tipo de tecnologias. Por isso é uma política demente, nós não podemos prosseguir cegamente porque é popular e as pessoas que sabem pouco desta tecnicidade, destes assuntos, acham que o sol é de borla, o vento é de borla… nós temos sol e vento, por isso vamos usar estes recursos que nos dão uma vantagem comparativa. Não dão.
Usar estes recursos, no nosso caso, torna a energia muito mais cara, porque é preciso depois ir buscar o armazenamento suficiente para poder utilizar este tipo de recursos intermitentes. E agora já verificámos que é preciso meter muito mais na rede para dar condições de inércia sintética, para substituir a inércia própria das grandes centrais eletroprodutoras com turbinas rotativas, é preciso investir muito em baterias, é preciso investir eventualmente mais em barragens, é preciso investir no pagamento por capacidade, não pela energia produzida, para as centrais, se não fecham.
Por isso, isto é o tal monstro elétrico que é preciso desfazer, quando sabemos que é perfeitamente possível passarmos desta situação, completamente disfuncional e vulnerável, para uma situação de quase autonomia. Se não continuarmos com as baias metidas com os nossos óculos da Energiewende, que foi a experiência completamente falhada dos alemães da transição energética, que teve os resultados catastróficos da fuga de toda a indústria pesada alemã, que permitiu, de facto, reduzir emissões, porque desapareceu a indústria. Mantém ainda emissões 10 a 20 vezes mais elevadas que França, por causa desta opção ideológica, porque isto agora transformou-se numa questão de esquerda-direita: quem é a direita defende o nuclear, quem é a esquerda defende as renováveis. Em termos simples, é este o panorama que nós estamos confrontados a um pouco.
Falou da China. Podemos dizer que a energia europeia está refém do gigante asiático?
Em termos de tecnologias, completamente. Todos os painéis solares são chineses, as turbinas eólicas são chinesas, os carros elétricos e as baterias são chinesas e utilizam materiais como as terras raras, em que a China tem um monopólio de 90%. Passámos de uma dependência russa e, querendo evitar isso, passámos para os braços de uma outra dependência, a chinesa, por enviesamento ideológico. Se houvesse competência da Comissão Europeia e não estivesse fortemente influenciada, por um lado, pelo governo alemão, que tinha também esta política. E, por outro lado, pela Greenpeace: o chefe de gabinete do vice-presidente Frans Timmermans era um quadro da Greenpeace que infiltrou completamente a estrutura técnica da Comissão Europeia.
A forma como nós conseguimos resolver os choques petrolíferos foi exatamente através do programa nuclear. Quando houve o grande choque petrolífero, em 1973, e depois em 1978, em que a Europa quase que esteve de joelhos perante o cerco que foi feito pelo cartel de produtores árabes, e a forma como nós reagimos foi de duas formas. Por um lado, o grande programa eletro-nuclear diminuiu brutalmente a dependência do petróleo em tudo o que era produção elétrica, e, por outro lado, a descoberta que se fez, muito promovida e apoiada com fundos europeus, das reservas do Mar do Norte, de gás e petróleo, que agora estão praticamente esgotadas. Por isso, essa questão da geopolítica entra muito facilmente nesse tipo de questão. O grande desenvolvimento tecnológico que aconteceu na área de energia nos últimos anos não foi com as energias renováveis, porque essas fizeram-se em desenvolvimentos incrementais a partir de tecnologias que se conhecem há mais de 100 anos.
O grande desenvolvimento tecnológico foi o shale gas, o shale oil, que permitiu que os Estados Unidos deixassem de ser uma nação importadora e passassem a ser neste momento o maior produtor exportador do mundo de hidrocarbonetos. Essa é que foi a grande revolução que, mais uma vez, a Europa, por razões ideológicas, recusou. A Europa inviabilizou, proibiu a prospeção com base no shale, nas rochas axistosas, o tipo de pesquisa onde se pensa que haveria alguma abundância de recursos na Europa, para poder também não estar nesta dependência tão grande.
Optou-se por isso, optou-se por não continuar o nuclear, que era uma grande força de que a Europa dispunha - um terço da nossa eletricidade era produzida por energia nuclear, neste momento é cerca de 24% - mas ainda é a forma mais importante de produção de energia elétrica na Europa. E nós, em vez de prosseguirmos esse esforço, que aliás é obrigatório pelo tratado da Euratom, mas a Comissão Europeia não tem cumprido, por razões ideológicas, ficámos nesta posição de fragilidade. A única saída neste momento é, de facto, voltarmos em força ao nuclear. E permitir também a prospeção com shale onde for possível. E ao mesmo tempo ter o máximo de eficiência possível e usar as energias renováveis dentro daquilo, e dentro da percentagem em que são muito meritórias. Quer dizer, as energias renováveis é um bocadinho como a radiação: até um certo grau cura, a partir de um certo grau mata.
Voltando rapidamente à questão portuguesa. O que poderia ter mudado termos mais centrais com capacidade de black start? E agora com o Baixo Sabor e o Alqueva a terem essa capacidade, faz diferença?
Só muda em poder repor a rede mais rapidamente, mais nada. O black start é só para depois de a rede estar em baixo, relançá-la mais rapidamente. O black start não vai evitar apagões. Dez horas para repor o sistema, enfim… até pode ser considerado um grande feito, dada a escala da catástrofe que aconteceu ao nosso sistema. É muito em relação aos inconvenientes que causou, mas, mesmo assim, aguentou-se. Se fosse dois ou três dias, seria uma catástrofe. Até porque, como não temos planos de contingência bem preparados para esta situação, foi afetado o abastecimento de água, foi afetado o próprio abastecimento de bens públicos, porque nem os supermercados são equipados com backup de emergência, porque estávamos habituados a ter uma rede supersegura. A nossa rede, a rede europeia, é a rede mais segura e que melhor funciona no mundo, porque há 100 anos que há colaboração entre todos os países.
Há este tipo de mecanismos de assistência mútua e de transferência de energia que permitem aumentar muito a eficiência de todo o sistema. Isso é muito benéfico. Agora, há 20 anos que não acontecia um apagão com essas características e esta foi a primeira vez que afetou logo dois países, deitando abaixo completamente a sua vez.
Para esclarecer outra questão, e porque estávamos num momento de importação de energia quando se deu o apagão. Isso tem relevância?
Temos muitas vezes importação, às vezes de 60% da nossa energia. É uma importação oportunista, porque estamos a tentar maximizar o lucro devido a esta situação anómala de termos preços nulos ou negativos. Por isso, quando há preços nulos ou negativos no nosso vizinho, nós achamos que é uma boa operação comprar ou até receber, para podermos receber energia deles e, por exemplo, se tivermos capacidade de armazenagem nas nossas albufeiras, podemos estar a injetar para lá a energia para poder fazer subir a água, para depois podermos turbinar quando for uma altura em que tenhamos mais necessidade. Mas isto é um aproveitamento oportunístico de uma situação anómala. Não é normal em qualquer mercado, em nenhum mercado, haver preços negativos ou nulos. Só quando há, de facto, uma grande sobreprodução. É isso que nós estamos a experimentar, uma situação de sobreprodução que não vai diminuir. Não há qualquer forma de o mercado que possa alterar esta realidade física. A única reforma que se deve fazer - ao mesmo tempo que se deve fazer algum planeamento indicativo energético e pensar a prazo qual é a melhor solução - é, em vez de darmos prioridade no despacho às renováveis, por decreto, dar prioridade no despacho às fontes de energia com o maior fator de capacidade. Para garantir que temos a carga de base sempre assegurada e com centrais com capacidade de inércia. Só isso dá robustez ao sistema, que está preso por arames e ninguém pode garantir que isto não pode acontecer outra vez.
Entrando mais na questão internacional. De repente vimos uma invasão da Rússia à Ucrânia e há um país apanhado desprevenido, que é a Alemanha, que esteve anos a abandonar o nuclear. Espanha vai pelo mesmo caminho, enquanto França até incentiva o funcionamento dos seus reatores. Porquê esta dicotomia?
Há aqui vários momentos. Depois de Fukushima houve aquele grande pânico. A senhora [Angela] Merkel tinha sido eleita na base de reforçar o nuclear e depois de Fukushima foi muito atacada em três ou quatro eleições regionais, onde perdeu por causa do tema da energia e do nuclear. Por isso decidiu reverter a situação, para não perder o poder. Decidiu então abandonar o nuclear e negociar com os verdes um phasing out, que acabou agora há pouco tempo.
Isso foi o primeiro momento, que foi um veneno na economia alemã sem o saberem na altura. Entretanto apostaram bastante no gás natural, nomeadamente através dos novos gasodutos, que não passavam nem pela Ucrânia, nem por outros países - vinham diretamente pelo mar, o Nord Stream 1 e 2 - e por isso ficaram muito dependentes do gás russo, num raciocínio que eu até posso perceber - é que se nós tivermos grandes interesses cruzados, há menos probabilidade de ocorrer em situações de litigância e de guerra - há mais probabilidade de haver colaboração. É uma visão geopolítica que se revelou errada.
E o caso francês?
Em termos de França também tivemos uns governos que se deixaram seduzir pela ideia das renovavéis, porque a ideia das renováveis, para quem não conhece bem a tecnicidade da questão, é muito atraente, porque é basicamente energia gratuita, mas é só energia gratuita na parte do combustível. Na parte da infraestrutura necessária para capturar não é nada gratuita e não é nada ecológica, porque para produzir a mesma unidade de energia, entre nuclear e renováveis, com as renováveis precisamos de 10 a 20 vezes mais materiais, mais recursos minerais, mais materiais críticos, mais 100 vezes espaço, e isso não é suficiente, porque precisa de outro tanto para ter armazenagem, ou por hidráulica ou por baterias. Por isso é uma situação, em termos ecológicos, muito negativa, mas é muito sedutora para a opinião pública.
França teve um primeiro governo socialista com o Lionel Jospin, que acordou com os verdes, para poder formar um governo na altura, o desmantelamento da mais avançada em termos de tecnologia nuclear, que era a Super Fénix, uma central em Creys-Malville que é um reator a neutrões rápidos que permite usar como combustível os resíduos da tecnologia convencional de fissão. Por isso permite multiplicar por mil a disponibilidade do combustível para os reatores e de facto é um passo extraordinariamente importante para resolver a equação energética, quase a fusão.
Só que por pressão dos verdes, o Lionel Jospin mandou desmantelar a Creys-Malville, que estava a funcionar há 50 e tal meses com uma taxa disponibilidade acima de 90%, depois de um período de arranque em que houve alguns ajustamentos, e França entrou numa situação de alguma contestação e aliciamento por esta ideia das renováveis. Tivemos ali uma série de governos, até ao primeiro governo Macron, que decidiram nós temos uma dependência muito elevada do nuclear, cerca de 70%, e queremos diminuir isto para 50%. Por isso deram instruções a EDF [equivalente à EDP em França] para diminuir os seus reatores e começaram a fazer os desmantelamentos alguns.
Isto significa que a EDF esteve a não reinvestir em reatores durante uma fase importante da sua vida, durante esses primeiros anos de Macron, até que perceberam que isso era um grande disparate, porque de repente parte da frota tinha de ser feita com investimentos importantes de reabilitação e apareceu um problema também de corrosão em algumas condutas que tiveram de ser todas entradas em manutenção. Isto coincidiu com o período do início da guerra da Ucrânia que fez com que os preços tenham disparado na Europa.
Por isso, quando os preços disparam na Europa, deve-se por um lado à crise ucraniana e deve-se também à falta de disponibilidade do parque eletronuclear francês, que vendia 20% da sua produção para o exterior. França passou de exportadora a importadora nessa altura. Foi nessa altura que os preços dispararam para 200 e tal euros megawatt/hora.
Felizmente, Macron percebeu o disparate que estava a fazer e decidiu fazer marcha-atrás e dizer ‘não, a nossa independência é o nosso parque eletronuclear, vamos apostar de novo e vamos investir em mais seis reatores e depois mais oito’. Por isso, estão neste momento previstos mais 14 reatores parcialmente para substituir a frota mais antiga. Isso deu um novo alento e França está a relançar a sua produção nuclear.
Ao mesmo tempo uma série de países perceberam também a fragilidade e o beco em que estavam a enfiar com esta política muito inspirada na Energiewende e decidiram começar a pôr os pés à parede e a recusar esta ideia e política completamente demente que existe, proposta pela Comissão Europeia, de apostar no meio e não no fim. O fim é reduzir as emissões e reduzir a nossa independência. E eles partem do princípio de que isso só se faria com as renováveis, o que é um erro devido exatamente àquelas duas caraterísticas que já falámos: falta de densidade energética, que leva a que seja necessário para produzir a mesma unidade, 20 vezes mais materiais e 100 vezes mais espaço; e falta de intermitência, o que significa que para alimentar uma sociedade que consome 100, tem de ter 500 em potência instalada, porque só funciona em 20% do tempo. E para ter esses 500, como esse tempo são sempre as mesmas horas, vai ter depois de encontrar 400 de armazenagem. Ora, isso é totalmente inviável do ponto de vista prático e do ponto de vista de custos. É essa situação que nós estamos neste momento a viver. Estamos a chegar ao limite da capacidade de absorção do sistema da injeção de renováveis e os dois grandes indicadores, os dois grandes sintomas, é por um lado a desestabilização da rede, como aconteceu com este apagão, e o outro são preços negativos ou nulos, que é essencial. Evidente que com preços negativos ou nulos ninguém vai investir. É essa situação que estamos a viver.
Por isso, neste momento, a maior parte dos países da União Europeia decidiu relançar as suas fileiras nucleares, sabendo que não é uma solução para amanhã. Fazer um reator hoje em dia demora seis anos, desde o primeiro betão até ligar a rede e demora uns três ou quatro anos todo o período de licenciamento, que é excessivamente complicado. Os chineses estão a construir em cinco anos os seus reatores e por um preço muitíssimo inferior. Foi anunciado que o governo chinês aprovou 10 novos reatores do tipo Hualong One, tecnologia que foi desenvolvida a partir da tecnologia europeia e americana, da otimização dessas duas tecnologias, com 1,2 gigawatts de potência e que eles anunciaram um custo de dois mil euros por quilowatt. Quer dizer, um reator de 1,2 vai custar cerca de 2,4 mil milhões de euros. Isto é imbatível. Um reator de 1,6 que foi construído com tecnologia francesa, porque é o caso que toda a gente traz os críticos com atrasos e sobre custos, custou 14 mil milhões.
Agora, onde nós estamos a aprender é com os chineses, como sempre. Eles têm uma capacidade de estandardização, de otimização dos processos, que conseguem construir um princípio ativel. Com estes preços que foram anunciados em Hualong One, um megawatt/hora vai sair muito mais barato que o produzido pela eólica e pelo solar.
Do outro lado do Atlântico, Donald Trump parece fazer uma viragem contra as energias renováveis, apostando num regresso ao gás natural e ao petróleo, com o icónico "drill, baby drill". O que significa isto?
Donald Trump também deu indicações para se apoiar no nuclear. Mas o grande foco é o petróleo e o gás natural. O que ele não quer é eólicas ou solar. Ele não quer renováveis. Agora quer nuclear, mas quer as energias convencionais, que é sobretudo gás natural e petróleo.
Ele não acredita [nas alterações climáticas], saiu do Acordo de Paris, o que nos deixa numa situação completamente... como diria o meu amigo Álvaro Beleza, do Partido Socialista, nós somos o 'totó do Clima'. Nós produzimos menos de 6% das emissões e estamos aqui a penalizar e a sacrificar a nossa economia, obrigando as indústrias a irem para outras paragens onde não tem essas limitações, para conseguirmos ter uma produção de emissões brutal. Quando os nossos maiores concorrentes, China e Estados Unidos, dizem que não se submetem a esta disciplina.
A China diz que sim, que em 2050 irá cumprir [com a neutralidade carbónica], muito baseada na produção de energia nuclear, que estão a construir uma data de reatores, vão rapidamente ultrapassar, dentro dos próximos cinco anos ultrapassam os Estados Unidos como o país com o maior número de reatores, e para substituir a produção brutal que ainda têm de carvão. Por isso, a questão deles é nuclear e renováveis, nós vamos resolver este problema, mais carro elétrico e resolvem-no muito bem. É aquilo que nós devíamos em Portugal pensar fazer, numa equação semelhante: nuclear para a carga base, para assegurar e robustez e segurança ao nosso sistema elétrico, e depois fazer o resto com o renovável, com mais armazenagem.
O que temos é suficiente, não é preciso estes investimentos todos completamente disparatados, em redes, nem em baterias, nem nada disso. O projeto aumenta um bocadinho em baterias, um bocadinho, um cheirinho a gás, para ajudar a resolver as situações mais necessárias em termos de solicitação, mas com isso nós podemos perspetivar, desde que o nosso transporte migre para o carro elétrico, que aí há um ganho de eficiência brutal. Nós consumimos neste momento, em termos de produtos petrolíferos, cerca de 90 terawatt/hora para alimentar a nossa frota, cerca de cinco milhões de veículos, quando se fosse tudo elétrico precisaríamos apenas de 15 terawatt/hora. Portanto, um ganho de eficiência brutal, e que ajudaria que nós, com a produção elétrica própria, pudéssemos também evitar a importação de petróleo.
Enfim, é toda esta matriz que é preciso repensar, e aquilo que nós temos pedido ao Governo, aos vários governos: façam um planeamento energético. Já não estejam a avançar às cegas, de acordo com os pedidos baseados em energia e não na ciência, que vêm de Bruxelas, muito inspirados pela Energiewende alemã e pela Greenpeace, vamos repensar as nossas necessidades e o nosso interesse. E as nossas necessidades e o nosso interesse passa a fazer um estudo imediatamente, saber quanto custam as opções necessárias para nós garantirmos um investimento seguro, competitivo e limpo, as várias opções que existem.
Vamos comparar nuclear com renováveis, mais baterias, renováveis, mais armazenagem hídrica, carvão com captura e sequestro de carbono, por exemplo, podemos comparar essas várias tecnologias, para podermos saber qual é que é o mix ideal para o futuro, e então orientarmos o investimento para um mix ideal daqui a uns 15 anos. Daqui a 15 anos podemos ter autonomia energética em vez de dependermos, neste momento, cerca de 70% do exterior.
E faria sentido termos nós a nossa própria central nuclear? Consumimos energia que vem da central de Almaraz, banhada pelo rio Tejo, mas que o governo espanhol quer fechar.
Eu acho que este apagão vai obrigar seguramente a Espanha a rever a questão dos fechos das centrais e não vão fechar as centrais. Isso seria um tiro na cabeça que eles davam em termos de segurança do seu abastecimento. Nós dependemos em 7% de importações nucleares de Espanha, mas temos é de rever o nosso próprio mix. E em meu ver o mix ideal apontaria para qualquer coisa como cinco gigawatts do nuclear, dos quais metade seguramente com grandes reatores como os que existem hoje, com um preço muito competitivo, este tipo destes chineses, mas isso tinha que ser uma consulta internacional ao mercado, mas assegurar já a base do diagrama para o mais rapidamente possível conseguirmos dois reatores, e depois deixar o resto da base do diagrama para eventualmente pequenos reatores modulares, novas tecnologias que possam aparecer, ou mesmo um melhor aproveitamento, uma melhor eficiência nas energias renováveis, nomeadamente deixar alguma margem para uma coisa que é obrigatória, que é fazer autoconsumo solar. Autoconsumo solar é a forma inteligente de utilizar energia solar, porque há um aumento da procura de energia durante o dia e, por isso, complementa muito harmoniosamente com uma produção de base que seja estável e contínua.
Agora, aí há potencial crescimento, e deve-se deixar que esse potencial se manifeste, na base do mérito económico, não com subsídios nem apoio em nada disso. E depois, a meu ver, o que nós temos já instalado de eólica, de hídrica, de bombagem, de biomassa, é suficiente. Não temos de estar aqui a inventar mais investimentos que vão cair na conta do consumidor ou do contribuinte, como aconteceu já o ano passado, e vamos transformar o setor energético numa fonte de criação de riqueza para o país, de atração de investimentos estrangeiros e eletrointensivos, como é a situação atual, em vez de ser uma fonte de destruição de riqueza, que é o que tem acontecido nos últimos 10 anos ou 20.