Crianças a brincar na rua, fogões de campismo, o regresso das notas, contas feitas de cabeça. Depois de um dia no "antigamente", como Lisboa acordou do apagão

29 abr 2025, 15:44
Lisboa a seguir ao apagão (CNN Portugal)

Onde é que estavas no apagão de 2025? A falha elétrica era o tema desta manhã - e deixou histórias para contar aos netos. Entre fruta deitada ao lixo e prateleiras vazias nos supermercados, houve vizinhos que se juntaram para fazer um churrasco e crianças a jogar às cartas

“O que me salvou foi a minha cabecinha”. Sobral tem 68 anos de vida e 55 de experiência no atendimento ao balcão. “Quando eu comecei, tinha de pesar tudo na hora e habituei-me a fazer as contas de cabeça. Agora já demoro um bocadinho mais, mas ainda consigo.” O que salvou o dono da Frutaria Doce Tentação, quando às 11:33 de segunda-feira o país ficou sem energia elétrica, foi essa sua capacidade para fazer cálculos e a balança décimal que continuou a funcionar como se nada fosse. “Já me a quiseram comprar”, revela o lojista à CNN Portugal. Mas ele gosta daquela balança antiga e robusta, habituada a pesar maçãs e cenouras, faça chuva ou faça sol, haja ou não corrente elétrica. 

Na pequena mercearia de Benfica cheira a queijo curado e a nabiças frescas, as contas pagam-se em dinheiro e o balanço é feito com papel é caneta. Um cartão pendurado na caixa anuncia que “não há multibanco”. “Sou muito analógico”, ri-se Sobral, mostrando o seu telemóvel nada inteligente e explicando que sempre que possível vem trabalhar de bicicleta, que obviamente não é elétrica. Ser analógico foi a sua sorte em dia de apagão geral. “Foi o dia melhor do ano para o negócio”, conta. “Parecia a pandemia, só que sem o distanciamento.” Os clientes fizeram fila para comprar todo o pão que havia disponível, assim como laranjas e bebidas. “Vendi a água toda que tinha.”

A comparação com os primeiros dias da pandemia que há cinco anos obrigou a um confinamento não é descabida. Nessa altura, as pessoas também correram para os supermercados a comprar água, enlatados e outros bens de primeira necessidade. E, tal como na segunda-feira, houve gente a encher carrinhos de compras e houve prateleiras que ficaram vazias. "Não entendo isto, as pessoas entraram em pânico, parecia que estavam malucas", comenta Josefa, empregada de escritório, parada na longa fila para o autocarro esta manhã. "Vou chegar atrasada, mas o meu diretor sabe que o metro ainda não está a funcionar. Isto hoje ainda está tudo um bocadinho complicado."

08:15 de terça-feira em Lisboa: o metro ainda não funciona plenamente, a solução é esperar pelo autocarro
08:15 de terça-feira em Lisboa: o metro ainda não funciona plenamente, a solução é esperar pelo autocarro. CNN

Apesar de a energia já estar praticamente restabelecida a 100%, Lisboa acordou estremunhada. O presidente da Câmara, Carlos Moedas, tinha feito o apelo para que as deslocações fossem reduzidas ao essencial e quem pudesse que ficasse em casa. Aparentemente, muitos lisboetas seguiram o conselho. "Como já há eletricidade e internet, acho que muitas pessoas ficaram a trabalhar em casa. Não há tanto movimento como habitualmente", afirma Josefa. 

Na estação de metro do Colégio Militar estranha-se o silêncio naquela que costuma ser a hora de ponta. Apenas a Linha Azul está a funcionar plenamente, mas ainda com poucos comboios; a Linha Verde mantinha-se então interrompida, as linhas Amarela e Vermelha com "perturbações", de acordo com o painel informativo. O café está fechado. Nos corredores são poucos os que correm apressados para os cais. "Parece um dia feriado, não é?", comenta José enquanto tira o passe da carteira. E outra vez aquela comparação: "Parece a pandemia."

No Metro de Lisboa, a circulação só foi normalizada durante a manhã
No Metro de Lisboa, a circulação só foi normalizada durante a manhã. CNN

Multibancos, balanças, frigoríficos: o que não funcionou?

No Mercado de Benfica, que fecha à segunda-feira, o apagão não teve efeitos imediatos, mas no dia seguinte ainda está tudo a meio-gás. A peixeira Suliana foi ao MARL - Mercado Abastecedor da Região de Lisboa logo à meia-noite, como de costume, mas não conseguiu comprar nada, não havia peixe para vender. "O que está aí a ver é tudo de sábado. Estava guardado nas arcas frigoríficas. Para ter peixe, só indo à lota de Setúbal. Também temos menos gelo do que é habitual e há bancas que nem abriram."

Sempre bem-disposta, Suliana só se queixa verdadeiramente do tempo perdido nos transportes, para levar e buscar a filha à escola, no dia em que deveria estar de folga. "Já estava mau com a greve da CP, depois com a falta de energia..."

Suliana não tem peixe fresco do dia para vender
Suliana não tem peixe fresco do dia para vender. CNN

Rui Silva, que tem uma banca de peixe congelado, garante que está a funcionar normalmente. "De certa forma, foi uma sorte o mercado estar fechado porque o peixe estava todo nas arcas. Se não forem abertas não perdem a temperatura, mantêm-se durante umas 48 horas sem problemas." Esta manhã, os fiscais já estiveram no mercado para avaliar a situação e perceber se haveria produtos estragados. "Aqui estava tudo bem", diz Rui.

Ana Maradona não teve tanta sorte. A responsável por três bancas de frutas e legumes aponta para uma pilha de caixas de fruta que irá para o lixo por não estar em condições. "São sobretudo morangos e papaias. Devem estar ali uns 400 ou 500 euros", lamenta. Além disso, hoje o negócio também está pela metade, explica. "Fomos ao MARL ontem à tarde não sabíamos bem o que fazer porque era tudo imprevisível. Resolvemos arriscar, comprar mas menos quantidade, para não ter tantas perdas", conta a vendedora, uma das caras mais antigas deste mercado. "O multibanco não era tanto um problema, porque conhecemos muitos dos nossos clientes. Mas se continuássemos sem luz tinha de ir buscar as balanças antigas para salvaguardar o atendimento."

No talho, as balanças foram um problema. As balanças, o multibanco e a máquina de pagamentos - onde as notas e as moedas são inseridas numa ranhura, para que o pagamento seja mais higiénico. "Nada funcionava, tivemos de recolher a carne toda e guardá-la nas arcas frigoríficas e fechar as portas", conta o empregado, que não pode ser identificado porque não tem autorização para falar. Mas tem uma conclusão: "É tudo muito bom, mas depois falta a luz e ficamos aflitos."

Para Ana Maradona, segunda-feira foi um dia de grande prejuízo
Para Ana Maradona, segunda-feira foi um dia de grande prejuízo. CNN

A Farmácia Marques aguentou-se até perto das 14:30 graças a um gerador ligado ao sistema de UPS (fonte de energia ininterrupta), que permite manter os sistemas em funcionamento em caso de corte de energia. "Conseguimos continuar a trabalhar normalmente e a utilizar o multibanco. Só não conseguíamos aceder às receitas nos telemóveis porque não dava para aceder aos QR Codes, só receitas em papel", explica a diretora técnica, Clara Infante. Quando o gerador deixou de funcionar fecharam a farmácia. "Também não tivemos problemas com os medicamentos guardados no frio. Se não abrirmos a porta do frigorífico, a temperatura mantém-se durante muito tempo."

"Habituámo-nos a isto. Como é que fazíamos antes, quando passávamos dias e dias sem sabermos uns dos outros?"

No Quiosque Elétrico, mesmo à saída do metro do Colégio Militar, Laura Mota serve cafés com o seu sorriso habitual. O tema do dia só podia ser o apagão. "Para nós, foi um dia bom e um dia mau. Vendemos tudo o que tínhamos. Águas, bebidas, bolos, sandes, croquetes, tudo o que estava feito vendemos. Só não tínhamos café e não podíamos fazer nada de novo", explica. O quiosque ficou sem luz mas continuou aberto e foi para ali que foram muitas das pessoas que estavam a trabalhar nas torres do Colombo, uma vez que o centro comercial fechou portas. "As pessoas não tinham onde almoçar. Muitas não tinham dinheiro, andavam a pedir dinheiro uns aos outros, quem tinha pagava para os colegas. E nós, enquanto tivemos, vendemos."

O quiosque costuma ter música a tocar e uma esplanada cheia pelo serão a dentro, mas ontem não houve forró para ninguém. Mesmo sem clientes nem comida para vender, os empregados tiveram de ficar ali, na escuridão, à espera que a energia fosse restabelecida: "Os estores são elétricos e sem eletricidade não os conseguíamos fechar, tiveram de ficar aí até às nove da noite", conta. 

Laura Mota serve cafés no Quiosque Elétrico: "Vendemos tudo o que tínhamos"
Laura Mota serve cafés no Quiosque Elétrico: "Vendemos tudo o que tínhamos". CNN

A essa hora já Laura tinha terminado o turno e estava em sua casa. "Juntei-me com a minha vizinha do terceiro andar e fomos fazer um churrasco, lá na churrasqueira do prédio. Não comprámos nada, foi com o que tínhamos em casa. E já tínhamos tudo planeado. Se continuássemos sem luz, hoje cozinhávamos em minha casa, porque tenho fogão a gás. E eu ia tomar a banho a casa dela, porque o esquentador dela estava a funcionar e o meu não." Nas tragédias se vê como precisamos uns dos outros e como todos juntos encontramos mais facilmente soluções para os problemas. "Uma coisa que eu gostei de ver, e já não via há muito tempo, foi as crianças a brincar nas ruas e nos parques. Era o que a gente fazia quando éramos pequenos, brincávamos na rua enquanto fosse dia."

Logo ali, entre os clientes ao balcão, a conversa deriva para os outros tempos, quando não tínhamos telemóveis nem estávamos permanentemente ligados. "Fiquei aflita por não conseguir falar com a minha mãe de 88 anos, a minha filha estava aflita por não conseguir falar comigo. Habituámo-nos a isto. Como é que fazíamos antes, quando passávamos dias e dias sem sabermos uns dos outros?", questiona uma cliente. Uma mãe conta que ficou a jogar "aos países" e às cartas com os filhos pequenos, que estavam fascinados com as luzes das velas. Outra teve de socorrer as angústias de um filho com medo do escuro. Um senhor mais velho conta, divertido, que teve de ir à arrecadação buscar o fogão do campismo para desenrascar o jantar. Um rapaz andou quilómetros a pé para chegar a casa. "Havia gente por essa Segunda Circular fora. Foi um dia muito estranho. Nem um dia inteiro foi sem luz, mas parece que foi imenso."

"Quando voltou a luz parecia a passagem de ano, toda a gente à janela a bater palmas." Laura tem pena de não ter filmado esse momento. "Até foi um dia engraçado. Ficámos com muitas histórias para contar."

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