Falhas em cascata na produção renovável causaram apagão ibérico

Agência Lusa , AM
3 out 2025, 10:04
Apagão

As conclusões esta sexta-feira divulgadas são de caráter factual e baseiam-se nos dados recolhidos até 22 de agosto.

O apagão ibérico de 28 de abril foi provocado por uma sucessão de desligamentos súbitos de produção renovável, e subsequente perda de sincronismo com a rede continental europeia, segundo o painel de peritos que investiga o incidente.

O relatório publicado esta sexta-feira, elaborado por 45 especialistas de operadores de rede e reguladores de 12 países, classifica o incidente como de “escala 3” - o nível mais grave previsto pela legislação europeia - e descreve-o como “o mais significativo ocorrido no sistema elétrico europeu em mais de 20 anos”, afetando milhões de cidadãos e provocando perturbações graves em serviços essenciais.

De acordo com a análise da Rede Europeia de Gestores de Redes de Transporte de Eletricidade (ENTSO-E, na sigla em inglês), a sequência de falhas teve início às 12:32 (hora de Bruxelas), quando diversas centrais solares e eólicas no sul de Espanha se desligaram subitamente da rede, seguidas de perdas adicionais em regiões como Granada, Badajoz, Sevilha e Cáceres. Em menos de um minuto, foram retirados mais de 2,5 gigawatts de capacidade de produção. Esta quebra reduziu a compensação reativa disponível, provocando uma escalada da tensão elétrica e desencadeando um efeito em cascata em toda a Península Ibérica.

Às 12:33, o sistema ibérico começou a perder sincronismo com a rede continental, registando oscilações de frequência e tensão que não puderam ser estabilizadas pelos planos automáticos de defesa de Portugal e Espanha. Pouco depois, as interligações com França e Marrocos também foram desligadas, consumando a separação elétrica da Península e o colapso total dos sistemas português e espanhol.

As conclusões esta sexta-feira divulgadas são de caráter factual e baseiam-se nos dados recolhidos até 22 de agosto.

Peritos evidenciam lacunas de dados e evitam atribuir culpas

Os peritos que investigam o apagão ibérico destacaram a dificuldade de recolha de dados e recusam-se a atribuir culpados, sublinhando que o relatório factual se centra na análise técnica do incidente e serve de base para recomendações futuras.

Durante a apresentação do relatório factual do apagão de 28 de abril, o mais grave em mais de 20 anos no sistema elétrico europeu, Klaus Kaschnitz, da APG (Austrian Power Grid) e co-líder do painel de especialistas da Rede Europeia de Gestores de Redes de Transporte de Eletricidade (ENTSO-E, na sigla em inglês), explicou que a investigação enfrentou um processo “muito desafiante” devido à dificuldade de obter informação completa de operadores e geradores, incluindo de terceiros que não consentiram o envio dos dados.

“Alguns dados simplesmente não existem”, disse, referindo-se sobretudo a unidades pequenas, como painéis solares domésticos. A recolha de informação demorou cinco meses e exigiu o envio de cerca de 150 pedidos formais, permitindo reconstruir o incidente com rigor apenas em agosto.

Klaus Kaschnitz e Damian Cortinas, presidente do Conselho da ENTSO-E, sublinharam que o relatório não tem como objetivo apontar responsáveis, mas sim analisar tecnicamente o incidente. “O nosso foco é compreender os factos e usar essa informação para evitar que algo semelhante volte a acontecer, não atribuir culpas”, explicou Damian Cortinas.

Segundo Klaus Kaschnitz, a investigação identificou múltiplas oscilações de voltagem e frequências atípicas antes do apagão, culminando em três eventos principais que levaram à perda de sincronismo com a rede europeia.

Apesar da natureza inédita do colapso, a restauração da rede foi rápida, com Portugal a recuperar totalmente a ligação de alta tensão pouco depois da meia-noite e Espanha às 04:00 do dia seguinte.

O presidente do Conselho da ENTSO-E esclareceu o papel das interligações internacionais, em particular sobre a ligação entre Portugal e França. “O tamanho da interligação não teve impacto no apagão, nem no início nem na resolução. O problema foi local, no sul de Espanha. A existência de interligações em geral ajudou apenas na recuperação do sistema, permitindo restabelecer a tensão de forma coordenada, mas não poderia ter prevenido o incidente”, afirmou.

Klaus Kaschnitz destacou que o apagão evidenciou um fenómeno novo: sobretensões em cascata que exigem controlo local de voltagem. “A voltagem precisa de ser gerida localmente, perto do problema. Todas as unidades, renováveis ou convencionais, podem contribuir para o controlo de voltagem, desde que cumpram os requisitos técnicos”, explicou.

O relatório da ENTSO-E sublinha que reforçar a capacidade de controlo de voltagem em toda a rede é essencial para prevenir incidentes semelhantes. A investigação prosseguirá com análise detalhada das oscilações locais, da interação entre geradores e consumidores, e da eficácia dos planos de defesa do sistema, com o objetivo de aumentar a resiliência do sistema elétrico europeu.

Damian Cortinas sublinhou que o relatório factual serve de base para o relatório final, previsto para o primeiro trimestre de 2026, que incluirá recomendações técnicas e regulatórias destinadas a prevenir incidentes semelhantes na Península Ibérica e na Europa.

“O nosso objetivo é prevenir que volte a acontecer, não apenas em Espanha e Portugal, mas em toda a Europa”, afirmou Damian Cortinas, lembrando que o incidente revelou um fenómeno novo: 'blackouts' causados por sobretensões em cascata, que exigem controlo local de tensão, uma função que pode ser cumprida por todas as formas de geração, renovável ou convencional, desde que estejam implementados os requisitos técnicos adequados.

Klaus Kaschnitz acrescentou que a investigação irá aprofundar o estudo das oscilações locais, da interação entre geradores e consumidores e da forma como a rede responde em situações extremas, com o objetivo de aumentar a resiliência do sistema elétrico europeu.

Comissário da Energia quer a UE “a agir de forma decisiva” para evitar incidentes

O comissário europeu da Energia defendeu que a União Europeia deve “agir de forma decisiva” para evitar “incidentes inéditos” como o do apagão na Península Ibérica de abril passado.

“A primeira avaliação do painel de peritos sobre o apagão em Espanha e Portugal, publicada hoje pela ENTSO-E [Rede Europeia de Gestores de Redes de Transporte de Eletricidade], transmite uma mensagem clara: este foi um acontecimento sem precedentes. Um incidente inédito que destaca que o sistema energético europeu enfrenta novos desafios”, reagiu Dan Jørgensen.

No dia em que é conhecida a primeira avaliação de técnicos europeus ao incidente registado a 28 de abril passado, o comissário europeu da tutela vincou: “Temos de aprender juntos com esta experiência e agir de forma decisiva para evitar incidentes semelhantes”.

O responsável garantiu que “a Comissão Europeia já está a trabalhar numa revisão do quadro de segurança energética da UE para garantir que os sistemas estão preparados para o futuro”.

“O nosso estilo de vida e prosperidade económica dependem de um sistema energético que seja não só mais limpo e eficiente, mas também seguro, fiável e resiliente”, concluiu.

Relatório final antecipado para o primeiro trimestre de 2026

O relatório final sobre o apagão elétrico de 28 de abril em Portugal e Espanha será publicado no primeiro trimestre de 2026, vários meses antes da data inicialmente prevista, fixada em 28 de outubro do mesmo ano.

A informação consta do relatório factual hoje divulgado pelo painel de peritos da Rede Europeia de Gestores de Redes de Transporte de Eletricidade (ENTSO-E, na sigla em inglês), que serve de primeiro balanço técnico do incidente.

O documento final incluirá a análise detalhada das causas profundas e recomendações para reforçar a resiliência do sistema elétrico europeu.

O relatório hoje apresentado confirma que o apagão foi desencadeado por uma sucessão de desligamentos súbitos de produção renovável, sobretudo solar e eólica, em várias regiões de Espanha, que retiraram mais de 2,5 gigawatts de capacidade à rede em menos de um minuto. A perda destes geradores reduziu a compensação reativa disponível, provocando um aumento brusco da tensão e levando ao colapso do sistema ibérico.

Às 12:33 (hora de Bruxelas), Portugal e Espanha perderam sincronismo com a rede continental, e os planos automáticos de defesa não conseguiram travar a cascata de falhas. Pouco depois, as interligações com França e Marrocos foram desligadas, isolando a Península Ibérica e culminando na falência total dos sistemas elétricos nacionais.

A reposição da rede iniciou-se de imediato, com arranques de emergência e apoio das interligações. Portugal conseguiu restabelecer o sistema de transporte às 00:22 de 29 de abril, e Espanha concluiu o processo cerca das 04:00 da mesma madrugada.

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