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Veja aqui o apagão explicado, com provas, em dois minutos e meio

Carlos Enes , (atualizado às 15:00)
3 mai 2025, 00:40

Professor de Eletricidade do Instituto Superior Técnico desvenda a causa do colapso da rede elétrica ibérica

A Red Eléctrica, empresa pública de eletricidade de Espanha, ainda não divulgou a origem do acidente. No entanto, já publicou dados que permitem aos especialistas concluir, sem margem para dúvidas: a rede colapsou devido ao excesso de energias renováveis intermitentes e à falta de centrais clássicas em número suficiente.  

José Luís Pinto de Sá, professor jubilado do Instituto Superior Técnico e investigador em Eletricidade, afirma-o com segurança, com recurso ao diagrama oficial de produção da Red Eléctrica na altura do acidente. Às 11:33 (12:33, na hora espanhola) do dia 28 de abril, o sol estava a pique. A produção fotovoltaica e solar térmica atingia 66% da energia em rede. Considerando 11,5% de eólica, as energias renováveis totalizavam 77,5% da eletricidade em Espanha. Em sentido oposto, as barragens tinham acabado de ser desligadas e as centrais térmicas, a gás natural, representavam apenas 5% da eletricidade injetada na rede. 

O pecado foi esse. Numa palavra, faltou “inércia” ao sistema para reagir a uma crise súbita. A inércia vem principalmente das grandes máquinas giratórias que produzem eletricidade a partir da água, nas barragens, e de combustíveis fósseis, nas centrais termoelétricas. A rotação desses eixos e turbinas, com toneladas de peso, é crítica para uma reação “automática” a uma súbita alteração da tensão elétrica.  

Quando há uma falha na rede, como por exemplo um acidente que paralisa uma central, essas máquinas continuam a girar por algum tempo, "segurando" a frequência da rede e dando tempo para o sistema se ajustar. “Se houver centrais que não têm componentes mecânicos, desprovidas dessa energia cinética, como as fotovoltaicas, ou que têm pouca, como as eólicas, as centrais clássicas têm de fazer o trabalho delas e das outras. Se a desproporção for muito grande, acabam por não o conseguir”, expõe Pinto de Sá. 

Se empurrarmos e largarmos de mão um carrinho de supermercado, ele não trava de imediato. Os rotores das centrais clássicas são os “carrinhos pesados” do sistema elétrico, indispensáveis à reação do sistema a crises súbitas de tensão. 

“Verifica-se a baixa inércia natural existente em Espanha na altura do incidente. Em Portugal, a situação era semelhante”, descreve António Vidigal, que foi CEO da EDP Inovação durante 14 anos. Este engenheiro especializado em Eletricidade refere que as centrais eólicas e solares fotovoltaicas “estão ligadas ao sistema por inversores, em grande parte do tipo ‘grid following’, que não fornecem inércia e são muito sensíveis a oscilações de tensão”.  

Às 12:33 de 28 de abril, a rede espanhola tinha ultrapassado os limites técnicos para suportar energias renováveis, sem pôr em risco a segurança de abastecimento. “Tem-se verificado que quando os inversores ‘grid following’ representam mais de 75% da geração, os sistemas se tornam assintoticamente incontroláveis”, conclui António Vidigal, em artigo publicado na rede social Linkedin, muito glosado por engenheiros nos últimos dias. 

Antes de ser conhecido o resultado dos inquéritos em curso, o consultor em energia João Jesus Ferreira não exclui quaisquer hipóteses explicativas. No entanto, escolhe duas como mais plausíveis. Primeira, “a passagem de nuvens sobre vários parques fotovoltaicos em simultâneo, no Sul de Espanha”. Os peritos sabem que esse fenómeno meteorológico banal provoca, muitas vezes, “oscilações abruptas da produção solar”. Segunda hipótese, um excesso de geração fotovoltaica, na casa dos 130% da procura. Essa sobrecarga ter-se-á tornado “impossível de escoar pelas interligações internacionais, armazenamento ou bombagem”. A bombagem consome eletricidade nas barragens de albufeira dupla, para devolver a água armazenada à mais elevada das duas, a fim de ser novamente turbinada às horas mais lucrativas.

Depois do apagão, a Rede Eléctrica baixou substancialmente a energia solar presente na rede. "Ao reduzirem a sua produção solar nos dias seguintes, os próprios espanhóis estão implicitamente a reconhecer que aquela foi a causa do incidente", comenta Pinto de Sá.

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