Recentemente passámos por algo que nunca aconteceu e que, de facto, nos deve preocupar a todos. Não estou a falar apenas de não ter em casa o necessário para enfrentar um período sem energia, mas sim de a sociedade ter perdido, em muitos sectores, a capacidade para funcionar como funciona normalmente em 2025. Pese embora os datacenters estarem praticamente todos a trabalhar em Portugal e Espanha, a forma de lhes chegar — os caminhos para conseguir aceder à informação — não estavam disponíveis. E isso tem um impacto brutal. E porquê brutal? Porque até o carro, em 2025, já necessita de estar ligado a qualquer coisa que não apenas energia elétrica.
De forma surpreendente, e por razões que ainda são desconhecidas, a Península Ibérica ficou às escuras — e percebemos, de forma clara, que poucas organizações estavam verdadeiramente preparadas para este tipo de evento. Escolas, empresas, fábricas, universidades, entre tantas outras entidades, enviaram para casa os seus colaboradores, que, em pleno desnorte, recorreram ao carro para carregar baterias e ouvir as novidades.
A ausência de um plano de resiliência tecnológica fez com que os canais de televisão estivessem, na sua maioria, a falar para ninguém, pois até os operadores de telecomunicações enfrentaram grandes dificuldades em manter as comunicações de voz — quanto mais as de internet.
Mas é aqui que os alarmes devem soar.
No facto de estarmos todos demasiado dependentes de que as coisas funcionem — mais do que no papel, mais do que nos planos de recuperação que levam o seu tempo — que funcionem mesmo, ou pelo menos estejam preparadas, quando chegar o mau momento.
Aquilo que se passa na Ucrânia desde que o conflito armado começou foi já um alerta para a maioria das nações do mundo; um exemplo claro de como, não havendo os mínimos olímpicos na comunicação, na energia e em tantos outros sectores, isso pode ter um impacto que, em última instância, custa vidas. Cá não foi exceção.
Salvo pequenas exceções, a maioria dos serviços críticos ou essenciais foi impactado, e as pessoas — isto é, todos nós — que claramente ainda não fizeram o luto do que se passou durante a pandemia, entraram em modo de sobrevivência e começaram a repetir, ou a tentar evitar, aquilo que viveram quando a covid-19 se deu a conhecer ao mundo e o sistema não aguentou, não aguentou tanto nos comportamentos como no domínio técnico, levando a que até algumas cadeias de supermercado encerrassem as suas portas. Mas o que nos ensina isto tudo? Bastante, que temos de facto de ter em consideração quando pensamos no funcionamento normal dos sistemas informáticos, ou melhor, quando pensamos no funcionamento não normal dos sistemas informáticos, que a sua não disponibilidade não afeta o sistema em si, que afeta todos que este sistema serve e o espaço que este ocupa na sociedade, como por exemplo o servidor que controla o sistema de semáforos da cidade. Uma pequena falha leva a que uma grande falha ocorra.
Em bom rigor, o que vimos foi aquilo que se considera uma falta de disponibilidade e aqui é que as coisas se tornaram preocupantes pois ninguém antecipou que por falta de energia toda uma nação poderia ter de parar. Não vimos ou não aprendemos com os exemplos da Ucrânia que uma nação pode de facto parar e não nos preparamos como um todo para tal. Acima usei o exemplo de um ataque informático, mas não quis dizer com isso que tal tenha acontecido, estou a dizer que não tínhamos os serviços essenciais preparados e que isso também teve impacto na forma como reagiram as pessoas. Mas aqui chegados, o que podemos fazer?
Primeiramente, há que garantir que o que é considerado essencial ou crítico cumpre a lei, que já obriga à existência de medidas de resiliência. Que se assegure que estas entidades possuam capacidade para se manter a funcionar mesmo quando não haja fornecimento contínuo de energia, e que a sua cadeia de abastecimento esteja salvaguardada. Só assim saberemos que, perante um evento adverso que obstrua o funcionamento normal, esses serviços poderão continuar a operar.
Isto obriga também a que os operadores estejam preparados de forma distribuída, e que qualquer ponto de distribuição de sinal esteja equipado para garantir o seu funcionamento energético durante horas a fio, sem que o serviço se interrompa. Pode deteriorar-se, mas interromper é mau sinal. E foi isso que vimos nas comunicações.
O mundo da tecnologia é complexo e funciona de forma conexa — isto é, interligado por meio de redes extensas, clouds privadas e públicas, acessível em qualquer parte do mundo, de forma geral ou restrita, com VPNs ou simplesmente através de um “www.qualquercoisa.pt”. E não está preparado para estar indisponível de forma generalizada.
Somos nós que temos a responsabilidade de nos manter atualizados e preparados. E não basta, para isso, fazer leis (como a que deveria garantir que estes serviços funcionassem); é preciso verificar se são aplicadas e testar, praticar e aguardar pelo dia que não será um ensaio.