Áudios entre peritos revelam novas informações
Novos áudios obtidos pelo Senado espanhol mostram que, três meses antes do apagão de 28 de abril, a Red Eléctrica e as principais elétricas do país já tinham sido alertadas para um risco elevado de crise no sistema, avança o El Mundo.
As conversas, a que o jornal teve acesso, entre as principais elétricas e a Red Eléctrica - o operador do sistema - mostram que o excesso de energia solar, aliado à falta de geração nuclear e a gás, contribuía para instabilidades graves.
No dia 31 de janeiro, a rede sofreu oscilações fortes que acionaram alarmes nas centrais, incluindo a nuclear de Ascó, chegando a colocar grupos em risco de desligamento. Técnicos do centro de controlo descreveram o episódio como "uma oscilação muito, muito forte" e destacaram a necessidade de reforço da geração térmica para estabilizar o sistema.
"Muitas vezes acontecem coisas assim, hoje foi muito exagerado", ouve-se na conversa, em que é feito o diagnóstico: "A solar não é como a eólica, a eólica tem inércia, mas a solar alguém chega e aperta um botão e, se não escalarem um pouco, dá problema, e é isso que acontece".
Os técnicos pedem ainda que seja feita uma análise ao mais alto nível para avaliar o que aconteceu. Numa das chamadas, os técnicos informam mesmo o centro de controlo da Red Elétrica que a central nuclear de Ascó quase se desconectou e que, "se os grupos caírem, ficamos a zero".
"Terão de escalar. Isso, já te digo, haverá reuniões, porque hoje foi muito grave, todos os distribuidores viram, como é normal. Então isso será feito em um relatório ou algo assim", ouve-se.
Os áudios contrastam com as declarações da presidente da Red Eléctrica, Beatriz Corredor, que nas comissões do Senado descartou falhas do operador e afirmou que mais grupos de geração térmica (nuclear ou gás) não teria evitado o incidente. Nos registros das chamadas, os técnicos afirmam claramente que a solar, por não ter inércia, não regula o sistema e que a falta de unidades programadas foi determinante para a queda do fornecimento.
"Deveríamos ter mais geração grande, vamos lá, grande, térmica, que são os que regulam. São eles que estabilizam, mas como o problema é que a solar domina todo o resto, então não entram. Então o sol, pois está muito bem para o verão e para a praia, mas para isso, por mais que digam… esses solavancos, vai chegar um momento que…", ouve-se nos áudios.
O material foi analisado pela comissão do Senado que investiga o incidente, envolvendo também representantes da Endesa, Iberdrola e da ministra de Transição Ecológica.