AO MINUTO • BES, DIA 5 | "Com todo o respeito, o que é que isso interessa?", Fernando Ulrich desafia MP
APOIO DE LEITURA
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"É o reporte de poder": Ulrich explica como sabia que funcionários do BES respondiam a Salgado
O advogado de Manuel Fernando Espírito Santo questiona como Fernando Ulrich saberia que os funcionários que intermediaram as negociações da ESI com o BPI reportavam a Ricardo Salgado. “Não tenho nenhuma dúvida de que, tal como do lado do BPI uma operação destas não podia ser aprovada sem a minha concordância, também assumo que do lado de lá” as coisas acontecessem da mesma forma com Ricardo Salgado. “É o reporte de poder”
Advogado de Salgado não faz perguntas
O advogado de Ricardo Salgado recusa fazer perguntas a Fernando Ulrich. "Por inexistência de contributo do meu cliente, não temos condições para fazer questões à testemunha".
O tribunal avança para uma breve pausa.
Ulrich apresentou "alguns quadros com informação" ao Banco de Portugal
Fernando Ulrich sublinha que após a sua reunião com Vítor Gaspar em junho de 2013, recebeu uma chamada do diretor de supervisão do Banco de Portugal. Combinaram uma reunião e o banqueiro mostrou “alguns quadros com informação”. O que se seguiu foi um processo de riscar o que o BdP já sabia e aproveitar o que não sabia. “apercebi-me que alguns elementos da informação que tínhamos eles não tinham, porque era informação das sociedades não financeiras”.
"Estouraram 20 mil milhões de euros e eu chego aqui e só conheço três arguidos"
Fernando Ulrich volta a criticar o facto de seruma das primeiras testemunhas neste processo. “Estouraram 20 mil milhões de euros e eu chego aqui e só conheço três arguidos”. Então, diz, “se calhar devia estar aqui o Conselho de Administração do BES e da Control” e “o que vejo” é uma série de arguidos que provavelmente estavam a cumprir ordens”.
Diz ainda esperar que este julgamento sirva para duas coisas: “Para conseguir encontrar-se soluções para compensar ainda que parcelarmente as vitimas”. A segunda é “que saia daqui uma pedagogia enorme do que é um exemplo que não se deve fazer, porque o governo (do BES) estava errado e a gestão era imprudente”.
"A leitura que eu fazia era: eles devem estar aflitos"
"Eu não acompanhei nenhuma tentativa de apaziguamento", afirma Fernando Ulrich sobre o seu papel na negociação entre Queiroz Pereira e Ricardo Salgado. "A nossa informação sobre a situação do BES é indireta. Nós não partilhamos informação sensível entre bancos, pelo que não tinha informação específica, o que tínhamos era informação pública”.
“Depois, através de vários indicadores indiretos a convicção de que o BES tinha riscos muito grandes que podiam causar um dano muito significativo”. "A leitura que eu fazia era eles devem estar aflitos"
"Problema sistémico". "Estouraram com mais de 20 mil milhões", afirma Fernando Ulrich
Fernando Ulrich explica a conversa que teve com o governador do Banco de Portugal em 2013, sublinhando que nessa conversa não tocou no empréstimo feito com a ESI. “O que me preocupava era as consequências que esta situação do GES pudessem vir a ter no BES e que isso gerasse um problema sistémico e que nos pusesse em perigo como veio a acontecer”.
“Estouraram com mais de 20 Bi, mais de 20 Bi (mil milhões) isto é uma coisa extraordinária”, afirma, acrescentando que os contribuintes “não pagaram um cêntimo” - “quem pagou foram os obrigacionistas, os bancos e os clientes”.
“O fundo de resolução já pôs 8.3 mil milhões de euros, que do BPI são 10%” - “Se os bancos tivessem sido obrigados a refletir nas contas naquele momento o prejuízo que aquilo significava para os bancos, isto limpava mais de um terço dos bancos portugueses - era isso que me preocupava”.
Ulrich: este julgamento “vai durar anos"
É agora a vez de Filipa Cota, representante da massa insolvente da Rio Forte e da ESI, fazer perguntas a Fernando Ulrich. Questiona-o sobre desde quando é que sabia do problema das contas da ESI, ao que o bancário responde “desde 2009” que se falava disso. “a maior parte das coisas que me estão a perguntar não sei bem para que servem”, atira depois de lhe perguntarem quem foi o intermediário da relação comercial com a ESI. “ “Eram quadros superiores da ESI e quem mandava era o líder do grupo, o dr. Ricardo Salgado”.
O tribunal insiste na pergunta sobre quem intermediou este negócio do lado do BPI.
“Posso dizer-lhe amanhã, posso estar a dizer nomes e estar a ser injusto”. “Isto vai durar anos, que diferença faz”, responde Ulrich.
“Mas tem alguma certeza que vai durar anos?” pergunta a juíza. “Digo-lhe amanhã”, afirma. “Como eu não sei onde querem chegar, e acho que não vão chegar a bom lado, mas quem mandava era a comissão executiva do Banco e quem mandava era eu”, acrescenta.
Ulrich acompanhou Pedro Queiroz Pereira, mas não foi até ao final da negociação
Fernando Ulrich explica a sua intervenção no conflito entre Pedro Queiroz Pereira e Ricardo Salgado, explicando que assessorou o industrial durante essa fase “tensa”. “E eu tive algumas reuniões com Francisco Cary (administrador a quem Salgado pediu para ser mediador), mas não fomos até à fase final de negociações que depois terminaram com um acordo”. “Tive também ocasião de falar desse caso antes”.
Como Ulrich usou o exemplo do GES para escapar à CMVM
Fernando Ulrich assume ter usado o exemplo de fundos especiais que o Grupo Espírito Santo para escapar a um pedido da CMVM. “Naquele momento, os fundos especiais tinham regras mais flexíveis e podiam ter mais risco”, começa por contar, acrescentando que, a sociedade gestora do BPI “tinha um fundo que investia em depósitos do próprio banco”.
“De facto, houve uma conversa na CMVM que entendia que esta prática era uma concentração de risco”, afirma, acrescentando que disse: “olhe, é evidente que está muito concentrado, mas as regras permitem-me e se não querem isto mudem as regras”.
“Na altura, disse-lhes de modo próprio: ‘Eu não mudarei nada até obrigarem o BES a mudar a sua situação nos fundos que têm investimento em sociedades participadas do GES. E se os obrigarem, eu também faço’. Penso que não obrigarem, mas mudaram as regras mais tarde”, afirma.
Empréstimos foram "reembolsados" ao BPI
Ulrich é conforntado com a proposta de estratégia de atuação feita pelo BPI em 2012, na qual eram identificados perdas de mais de mil milhões de euros no Grupo Espírito Santo. Depois, explica que esteve em cima da mesa consolidar um empréstimo coma ESI a longo prazo, mas que os valores "foram reembolsados".
Ulrich para a procuradora: “Com todo o respeito, o que é que interessa o que me está a perguntar?"
A procuradora insiste sobre as relações comerciais do BPI com a ESI. E Ulrich volta a contratacar: “Sei que estou aqui a cumprir um dever numa ocasião importante, mas faz-me muita confusão esse caminho, estamos a falar de uma situação em que os acionistas do BES perderam 7 mil milhões de euros, obrigacionistas perderam mais de 5 mil milhões. Tudo somado, sem incluir lesados, estamos a falar de prejuizos de 18 mil milhões de euros”. “A sra. está a perguntar-me sobre 100 milhões”.
“Com todo o respeito, o que é que interessa o que me está a perguntar?”, insiste Ulrich.
"Eu não entendo porque estou aqui”. Momento tenso entre procuradora e antigo líder do BPI
Troca tensa entre Ulrich e a procuradora Carla Dias após ter feito uma pergunta sobre o seu conhecimento e as relações com a Espírito Santo International. “Tenho imensa pena, mas não sou eu que estou a ser julgado, nem o BPI. Peço desculpa, mas essa pergunta serve para quê. Porque estão a perguntar-me das relações que o meu banco teve com o GES?”. “É melhor fazerem-me uma pergunta concreta, porque eu não entendo porque estou aqui”, afirma.
"Não me tratem por doutor", pede Fernando Ulrich
Fernando Ulrich já está a ser ouvido no tribunal. Questionado sobre as relações que tem com os arguidos, sublinha que não é "amigo nem inimigo". "Com alguns dos nomes que referiu tive muitas relações sociais e profissionais, às vezes com alguns momentos de tensão".
"Não me tratem por doutor, porque não acabei o curso e ao tribunal preciso de ser rigoroso", pede desde logo.
As mulheres, os jantares, o dinheiro e o poder. Queiroz Pereira denunciou "interesses entre Marcelo e Salgado"
Terminou a reprodução do depoimento de Pedro Queiroz Pereira e a sessão de julgamento interrompeu também para almoço. Retomará às 14:15 horas para a audição de Fernando Ulrich, como testemunha. O antigo presidente do BPI foi um dos que aconselhou Queiroz Pereira durante a guerra travada no Grupo Espírito Santo contra Ricardo Salgado.
"José Maria Ricciardi procurou demover-me de ir ao Banco de Portugal"
Pedro Queiroz Pereira garantiu que falou sobre as ocultações de contas no Grupo Espírito Santo com José Maria Ricciardi, mas que o primo de Salgado “procurou demovê-lo de ir ao Banco de Portugal”. A denúncia sobre toda a situação foi feita ao governador Carlos Costa em outubro de 2013.
Queiroz Pereira afirma ainda que recebeu dividendos por ter sido acionista da ES Control, a sociedade que supervisionava todos os negócios do grupo. “Todas as distribuições de dividendos eram seguidas, dois ou três meses depois, com um pedido de aumento de capital com mais dinheiro”, afirmou no seu depoimento em 2018.
Os avisos de Pedro Queiroz Pereira em 2018 ao Ministério Público: "Estão a tratar com uma pessoa doente". "Ainda vão ter muitas surpresas"
Pedro Queiroz Pereira fez um aviso ao Ministério Público em 2018, na audição no Dciap antes de morrer. “Estão a tratar com uma pessoa doente, que vai mentir até ao fim da vida”, afirmou no seu depoimento que está a ser reproduzido esta terça-feira em tribunal, sublinhando que a estratégia de Ricardo Salgado será que o processo “dure uma série de anos para morrer antes de ver isto chegar ao fim”. “Por muito grave que o Ministério Público ache que isto é”, a verdade será “muito pior”. “Ainda vão ter muitas surpresas”.
"Os interesses eram grandes demais”. Queiroz Pereira fala sobre relação entre Salgado e Marcelo Rebelo de Sousa
Pedro Queiroz Pereira a relação entre Marcelo Rebelo de Sousa e Ricardo Salgado, no depoimento que deu em 2018. Sublinha que durante umas eleições internas para a liderança do PSD, Rebelo de Sousa fez um discurso “contra os grandes grupos económicos”, incluindo o BES - o que levou a relação entre os dois a ficar “tremida”.
“Só que os interesses eram grandes demais”. Marcelo tinha o “poder político, mas precisava do dinheiro” e Ricardo Salgado “tinha dinheiro, mas não o poder político”. Os dois terão organizado um jantar para restabelecer as relações. A seguir, Salgado “pegou no departamento jurídico do BES e mandou trabalho de cobrança a Rita Amaral Cabral”, na altura namorada de Rebelo de Sousa.
“E ela para ajudar Ricardo Salgado aceitou ir para administrador da Semapa”, com Rui Silveira.
“Não estava nisto para fazer de polícia, estava nisto porque ele (Salgado), mesmo sem dinheiro, estava a seduzir sócios meus"
Pedro Queiroz Pereira explicou como avançou com uma ação contra o Grupo Espírito Santo em julho de 2013, onde demandou um “inquérito judicial às contas” da ESControl, a holding de topo do universo GES. Diz que se apercebeu de um buraco de 3 mil milhões de euros nas contas do grupo.
As “duas coisas” que o chamaram a atenção foi o facto de a Rio Forte ser contabilizada em mil milhões de euros, quando as contas apontavam para uma situação muito frágil. Além disso, “a Espírito Santo Financial Group estava na bolsa cotada a 5.24 euros e na consolidação das contas apresentava um valor de 24 euros por ação”.
“Não estava nisto para fazer de polícia, estava nisto porque ele (Salgado), mesmo sem dinheiro, estava a seduzir sócios meus para tomar controlo do grupo”.