António Lobo Antunes, 1942-2026: porque ainda não é isto, ainda não é isto, ainda não é isto

5 mar, 21:00
António Lobo Antunes em 2010 (GettyImages/ Pedro Loureiro)

CRÓNICA || António Lobo Antunes morreu aos 83 anos. Este não é um pastiche, é um texto que o revisita. O que é uma impossibilidade

Não me ocorre o retrato de jornal, casaco escuro, olhar cansado, pose repetida, é a letra, a letra miudinha de Lobo Antunes, a letra que parecia não caber no papel e, no entanto, cabia, a chegar regularmente como quem entrega pão a uma porta que não conhece por dentro, como quem sabe

(sem sentimentalismo, sem pose)

que a fome é sempre de alguém, talvez por isso a notícia, agora, não entre pelo ruído, entre pela falta, falta dessa mão a voltar ao papel, a insistir, a encher o mundo de tinta, falta de um gesto repetido todos os dias durante uma vida inteira, quase com disciplina de fábrica e teimosia de criança, sentar-se e escrever.

Há quem o imagine boémio, noctívago, a trabalhar com o mundo a dormir, um escritor feito de noites e álcool e caprichos, mas ele descreveu outra coisa, sempre outra coisa, a começar cedo, cedo de verdade, como quem entra no turno, escrever desde as sete da manhã, todos os dias excepto ao domingo, sair dali perto das 11 horas como se saísse de um paraíso terrestre

(o lugar onde escrevia era isso, um sítio onde se realizava)

e depois há o detalhe que parece menor e não é, não tinha computador, não sabia abrir um, gostava de desenhar as letras, desenhar, como se o acto fosse mais próximo de uma arte manual do que de um talento abstracto, duas versões de cada capítulo, uma segunda passagem para o mesmo sítio, como quem volta a uma rua para ver se a casa continua lá, e quando regressava ao texto passado algum tempo surpreendia-se por aquilo se articular, como se o livro tivesse sido escrito por outra pessoa e ele fosse apenas o primeiro a lê-lo, sem o ler.

Cheguei tarde a ele e isso interessa aqui só por uma razão, quem chega tarde chega com defesas, chega com o vício de pedir enredo, de pedir uma mão a guiar, de pedir que a frase se comporte. Em casa tinha a guerra como um rumor de infância, a Guerra Colonial como uma coisa que se dizia com cuidado

(como se as palavras pudessem partir corpos)

e quando mais tarde fui procurar o escritor que tinha estado em Angola descobri que ele não escrevia sobre a guerra como quem conta, escrevia como quem não consegue sair dela, a guerra não estava numa prateleira, estava no corpo da frase, entrava a meio de uma conversa, empurrava a sala, abria uma porta que eu não via. O primeiro choque com António Lobo Antunes não é intelectual, é físico, a sensação de que o livro respira sozinho, de que o tempo não obedece, de que a memória manda mais do que o calendário, e por isso é tão fácil cair no erro de o transformar num monumento, dizer que reinventou o romance, que é um génio, que é um colosso

(e isso não serve para nada) 

ele próprio desconfiava dessas plumas, dessa exibição de proezas, dessa vaidade de mostrar ouro falso, o que lhe interessava era uma coisa simples e brutal, que o livro fosse eficaz, que fizesse o que tinha de fazer dentro do leitor.

E, no entanto, ele era tudo menos simples no modo como chegava lá, e há uma imagem que ficou colada ao meu imaginário e não foi inventada por mim, foi ele que a contou, numa entrevista, ao falar daquilo que desejava da escrita, queria escrever como os saxofonistas de jazz, como Charlie Parker, aquela sensação de ser Deus a falar por ali, e depois descreveu a cena, Parker numa sessão de improvisação, a atirar o saxofone ao chão e a pisá-lo até o amolgar, a repetir que já tocara aquilo amanhã

— Já toquei isto amanhã.

A frase explica mais do que parece, explica o tempo dele, aquele tempo em que ontem e amanhã se misturam, aquele tempo em que uma infância volta e um homem velho volta a ser rapaz no mesmo parágrafo, aquele tempo em que uma mãe aparece no meio de uma sala e no meio de um quarto que já não existe, em que a guerra regressa não como memória disciplinada mas como febre, como cheiro, como clarão, e explica também a ética, a parte que custa mais ouvir porque é seca

(quase administrativa)

é preciso sofrer muito para o leitor ter prazer. Ele dizia isto sem romantismo, dizia como quem sabe o preço, e talvez por isso a minha zanga com ele tenha sido tantas vezes a forma mais honesta de admiração, porque há escritores que nos agradam e passam, e há este tipo de escritor que nos faz sentir burros, cansados, loucos, excluídos, e mesmo assim nos puxa de volta, o que irrita em Lobo Antunes é aquilo que depois percebemos que era o núcleo do trabalho, ele não estava disposto a dar-nos a bengala, estava disposto a dar-nos a vertigem.

Os livros dele não se deixam resumir porque não foram feitos para caber numa sinopse, e ele detestava o resumo, a anedota, o esqueleto pobre da história contado como quem limpa um peixe e deita fora a carne, dizia-o com exemplos deliberadamente pobres, o Velho e o Mar é um homem que vai pescar, roubam-lhe os peixes, volta sem nada, Anna Karenina é uma mulher que se aborrece, arranja amante, arrepende-se, mata-se, porque a pergunta dele era sempre outra, como é que acontece. O trabalho não estava no quê, estava no como, e o como, no caso dele, era uma máquina de vozes, uma máquina de memória, uma máquina de tempo partido.

Há livros em que o médico regressa da guerra com o corpo todo deslocado, como se Lisboa fosse uma coisa nova e ao mesmo tempo impossível, e há livros em que a guerra já não precisa de aparecer porque ficou instalada nos nervos, nos talheres, no quarto conjugal, nos olhos de quem voltou e não voltou. Há livros em que o país inteiro, o país da ditadura, o país do pós-império, o país das famílias que mandam e das famílias que obedecem, cabe dentro de uma sala de jantar com a naturalidade cruel de quem sabe que as grandes ideias não vivem nos parlamentos, vivem em casa, no modo como alguém chama alguém, no modo como se cala, no modo como humilha. Há livros em que a violência urbana, a polícia, a marginalidade, os miúdos, o medo, surgem 

(sem sociologia e sem piedade) 

como se fosse sempre o mesmo país a mudar de máscara. Há livros em que a noite não acaba, uma noite longa povoada de vozes que falam, falam, falam, e quanto mais falam mais se percebe que estão a tentar tocar num ponto que não se alcança. Há livros em que a velhice já não é tema, é condição, a solidão não como drama mas como matéria, como ar. E em quase todos há o mesmo gesto, o de escavar, a frase a descer, a descer, a descer, como se a superfície fosse uma traição.

Ele explicava o processo como quem descreve um animal. Deixou de trabalhar com plano, dizia que cada vez sabia menos de onde vinham os livros, que por vezes começava sem nada

(apenas com duas frases)

e que o resto era obedecer a uma espécie de voz, o livro, aos poucos, ficava autónomo, com fisionomia própria, e ele tinha de ir atrás dele, não era ele a conduzir, era ele a seguir, e por baixo do amontoado de palavras o livro já estava lá, enterrado, à espera de ser limpo. O escritor não cria, o escritor desenterra. Essa humildade não era decorativa, repetia-se como obsessão, ainda não é isto, tenho de ir mais fundo, mais fundo até onde, não sabia, mas o gesto era sempre na direcção do fundo, como se a superfície fosse pecado, como se a frase fácil fosse mentira, e é por isso que a obra dele, sendo longa, não é uma coisa só, não é sempre África, não é sempre guerra, não é sempre Lisboa, não é sempre família, é uma escavação que muda de terreno mas não muda de método, primeiro a ferida aberta da guerra e do hospital, depois o império a apodrecer dentro das casas, depois as vozes a multiplicarem-se até a própria noção de romance ficar curta, depois a noite, a insónia, a velhice, o corpo a falhar

(a frase mais contida e ao mesmo tempo mais cruel)

como se cada palavra tivesse de carregar mais peso porque já não havia tempo para enfeitar.

Nas entrevistas a personalidade aparecia em golpes curtos, às vezes ternos, às vezes agressivos, muitas vezes engraçados de um modo que desarma. Havia um desconforto com a própria imagem, fotografias como cadáveres, espelhos como inimigos, um desejo quase utópico de livros publicados sem nome de autor para acabar com competição, inveja, ciúme, essa feira paralela que ele achava não ter nada a ver com livros. E o leitor, nesse mundo, ficaria sozinho com o texto, que é onde ele sempre quis estar.

E havia o pai dele nas entrevistas, isto importa porque não é um detalhe doméstico, é um nervo, obrigava os filhos a reconhecer quem escreveu uma frase, quem compôs um compasso, sob ameaça de não saírem ao fim-de-semana, como se o mundo fosse uma sala de aula permanente

(a casa dele como a minha, o pai dele como o meu)

e quando mais tarde os livros dele apareciam cheios de referências, aquilo podia ser, também, uma pequena vingança contra esse jogo. Ele próprio admitia que canibalizava muita coisa e, ao mesmo tempo, cansava-se disso, não querer parecer um impostor a exibir anéis, querer trabalho, não ornamento.

É isto que o torna tão difícil de elogiar sem o trair, porque o elogio alisa, e ele era feito de arestas, ternura e acidez, humildade e vaidade ferida, generosidade e crueldade, silêncio e metralhadora verbal, um homem que podia falar do trabalho como quem fala de sobrevivência e no minuto seguinte largar uma imagem que parecia vir de um lugar onde ele próprio já não mandava muito.

E as crónicas, chamava-as menores, entram aqui como a outra face do mesmo animal, não como descanso nem intervalo, ele dizia que tinham um galope diferente, que lhe secavam a cadência do livro, que o atrapalhavam, fazia uma crónica num dia e depois não conseguia voltar ao romance, tinha de se despir de tudo outra vez, e, ainda assim, aquelas semanas e semanas de manuscritos em letra miudinha, como se não pudesse evitar, como se o menor fosse apenas a máscara para suportar o acto de se expor. 

O ritmo aí, nas crónicas, não está numa regra tosca de minúsculas nem numa ausência teatral de pontuação, está no modo como a frase alonga e, quando já parece que não vai parar, trava, não para descansar, para doer melhor, e depois volta, repete, porque certas coisas só se dizem repetindo, como quem toca à mesma porta porque não tem outra, como quem se recusa a aceitar que a dor se resolva com uma frase bonita, e é por isso que me zanguei tantas vezes com ele, porque eu queria um crónica mais dócil, um caminho mais recto, uma frase que me deixasse respirar, e ele em vez disso dava-me uma frase 

(que se dobrava sobre si mesma) 

e depois outra, e depois uma repetição que parecia insistência e afinal era uma forma de não mentir. A repetição, nele, é quase sempre uma prova, se uma coisa dói, volta, se uma coisa não passa, volta, se uma coisa não se entende, volta.

Aprendi muito mais de Lobo Antunes lendo entrevistas do que lendo notícias sobre ele, não para coleccionar frases mas para perceber o homem, detestava a exposição, evitava cerimónias, queria uma vida retirada, desconfiava do circo. E havia uma coisa que mudava a leitura de toda a obra, medo de desiludir, medo real, não pose, a obrigação de dar livros bons

(porque os livros são importantes para muita gente) 

porque há leitores que depositam nele uma confiança que ele próprio não partilha, e por isso passava a vida a dizer que não é isto, que podia ter ido mais longe, que devia ter corrigido mais, que devia ter reescrito mais. A literatura como dívida, não como triunfo. O desespero contra contra a previsibilidade, contra a facilidade. Lobo Antunes passou a vida a lutar contra isso, contra a tentação de ficar na superfície.

E agora, a entrevista que nunca fiz. Nunca se proporcionou, e não vale a pena transformar isso numa cena, um jornalista diante de um escritor, as perguntas, as respostas, o teatro. O que interessa não é teatro, é o intervalo, a expectativa do silêncio, a dificuldade de saber se se avança ou se se espera, porque ele tinha uma maneira de habitar o tempo antes da frase que era quase uma forma de domínio, não o domínio sobre o outro, o domínio sobre si, a recusa de responder rápido, a recusa de dar a resposta pronta, como se a frase, para existir, tivesse de ser escolhida com cuidado, como se a frase fosse sempre perigosa. 

O que eu queria dele, se essa entrevista tivesse acontecido, não era a moral da sua vida, era o detalhe de oficina que muda um livro, perceber onde é que ele punha o ouvido quando dizia que obedecia a uma voz, perceber o que fazia com a vergonha quando precisava de escrever ternura, perceber se a guerra, que aparece tantas vezes não como evento mas como clima, alguma vez se afasta de um homem ou se apenas aprende a falar mais baixo, perceber se, depois de tantos livros, ainda precisava daquela hora vazia até a primeira palavra aparecer, e perceber se ainda acreditava, com a mesma dureza, na sua própria frase, sofrer para o leitor ter prazer, se à noite isso lhe parecia justo ou se era apenas inevitável. 

Mas não houve entrevista. E a melhor maneira de respeitar isso é não o fingir, deixar a falta ser falta, sem lhe pôr maquilhagem. Há uma pergunta que fica a bater

(sem se ouvir)

quando é que ele começou a pisar o instrumento, quando é que percebeu que a língua, tal como vinha, não chegava, quando é que decidiu tocar amanhã hoje.

O que dói agora, e aqui não há moral, há apenas a secura do facto, é que, no fim, aconteceu uma ironia que ele não teria perdoado num romance por ser evidente demais e, no entanto, aconteceu. O homem que desenhava as letras ficou sem letras, o homem que vivia para escrever ficou sem escrita. Há uma crueldade limpa em pensar nisto, não por melodrama, por precisão, porque o centro da vida dele era aquele gesto repetido, e esse gesto parou. Não quero fazer disso um espectáculo, não quero transformar isto numa lição

(ele detestaria) 

o que me interessa é outra coisa, o modo como, mesmo sem ele, o gesto continua, as folhas continuam, os livros continuam a chamar leitores que chegam tarde, como eu cheguei, e o país vai tentar arrumá-lo num altar, vai tentar dizer as frases certas, vai tentar escrever o parágrafo perfeito.

(não vai conseguir)

porque Lobo Antunes não cabe num parágrafo perfeito. O parágrafo perfeito é uma forma de esquecer as arestas. E ele era feito de arestas.

O que eu posso fazer, hoje, é uma coisa pequena, não o alisar, lembrá-lo na mesa real, a escrever à mão, com a obstinação de quem faz turnos, a desenhar letras como quem desenha um corpo, a começar cedo, a recomeçar sempre, a ir mais fundo, sem saber onde é o fundo, só sabendo que a superfície não chega, lembrá-lo a voltar sempre ao saxofone no chão, não como anedota mas como método, o instrumento amolgado, a música por dentro, o tempo trocado, amanhã já tocado, e a exigência cruel de que alguém sofra para que alguém tenha prazer. Ele escreveu desta maneira. Ele viveu assim. E o silêncio que fica não é só o silêncio de quem morreu, é o silêncio de quem deixou de desenhar as letras. Mas as letras, essas, continuam a morder quem lê, a salvar quem lê, a irritar quem lê, a puxar-nos pela manga para dentro daquela casa às escuras onde voltamos sempre,

porque ainda não é isto, ainda não é isto, ainda não é isto. Tem de haver mais, António. 

Relacionados

País

Mais País

Mais Lidas