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O jogo de Sócrates, vivam os candidatos, as greves e os milhões da banca

10 nov, 13:24

A semana faz-se de avulsas preocupações e interrogações com respostas quase instantâneas: de José Sócrates e da sua estratégia, dos sindicados que um Primeiro diaboliza porque dá jeito e dos candidatos presidenciais que, afinal, estão cheios de virtudes. E, claro, temos os lucros da banca que não batem recordes, mas que parecem surreais quando se discute se há folga para aumentar pensões

A estratégia de Sócrates e o peão Delille

Sim, todos sabemos que um arguido tem direito a ter uma defesa justa. Sim, todos sabemos que essa defesa deve ser intocável num julgamento. Mas um julgamento faz-se com regras e há também quem não queira aceitar essas regras, porque simplesmente não aceita ser julgado. Há que dizê-lo com toda a frontalidade: José Sócrates não aceita este julgamento e vai continuar a fazer tudo, mas mesmo tudo, para que isso decorra com numerosos incidentes. Porque Sócrates já está há muito a pensar no passo seguinte: tratar nos tribunais internacionais de uma perseguição diabólica do Estado português, dos media, da justiça e do mundo em geral.

A saída concertada do seu advogado Pedro Delille é só mais um passo nessa estratégia. Enquanto lhe deu jeito o advogado transformou o julgamento num circo de ataques que até causaram repulsa a advogados dos outros arguidos (mesmo que o não confessem em público), fosse por causa de uma pergunta do Ministério Público, por causa da audição de uma escuta telefónica, uma declaração de um inspetor tributário, a chamada de uma testemunha ou as decisões avulsas do coletivo de juízas. Delille é a face visível de uma defesa que tem um magote de gente por trás, a face visível e fiel que só sai aparentemente de cena para se vitimizar, ignorando até os fundamentos do que é ser advogado, pois devia manter-se em exercício de funções até Sócrates nomear outro defensor. Qualquer que seja o passo seguinte, a generalidade dos portugueses já percebeu o que está realmente em causa.

Os sindicatos existem para isto, e ainda bem

Quando duas centrais sindicais, que nem sequer morrem de amores uma pela outra, se juntam para uma greve geral que já não acontece há mais de 12 anos, isso quer dizer alguma coisa ou não? Quando uma das centrais sindicais, que habitualmente dialoga e até assinou já acordos com governos de todas as cores, se junta a outra mais radical e diz vamos embora, isso quer dizer alguma coisa ou não? Quando uma aliança partidária omite no seu programa eleitoral as medidas mais polémicas de uma futura alteração à legislação laboral, isso quer dizer alguma coisa ou não? 

Quando estão em causa mais de 100 alterações à legislação laboral e conexa, entre elas a impossibilidade de reintegrar trabalhadores despedidos de forma ilegal, o aumento dos contratos a termo, as substituições imediatas de trabalhadores após despedimentos coletivos e as mudanças no regime de amamentação que passa a tratar as mães como quase criminosas, isso quer dizer alguma coisa ou não? Quando um primeiro-ministro acusa os sindicatos tradicionais de estarem dominados por partidos políticos e depois também se critica o surgimento de movimentos inorgânicos de contestação, isso quer dizer alguma coisa ou não? O que acho é que tivermos sindicatos que, durante as negociações ou após as mesmas, não se baterem ao máximo pelos direitos dos trabalhadores, esses sindicatos deixam de ter razão de existirem.

A sorte de ter estes candidatos Presidenciais

Costuma colocar-se a questão nos defeitos e naquilo que tem a menos quem se candidata a um cargo político. Mas nestas Presidenciais talvez fosse prudente destacar os excelentes currículos de um número assinalável de candidatos que se vão sujeitar a votos. O almirante Gouveia e Melo tem uma vida profissional exemplar e é um homem corajoso, ao ponto de dizer o que pensa e até de avançar para uma candidatura fora dos círculos partidários. E toda a vida serviu o País com dedicação e qualidade. Já Marques Mendes esteve em vários governos que melhoraram as condições de vida dos portugueses e consolidaram a democracia. Foi líder de um dos principais partidos e nessa condição até tomou decisões corajosas como não permitir a existência de candidatos arguidos. É um cultivador do diálogo e é óbvio o seu apego à democracia e ao bem comum.

O candidato António José Seguro foi um político quase exemplar, liderou um partido e saiu de cena depois de vários atos corajosos que não o levaram a pactuar com o que de pior o partido já tinha. E avançou para as Presidenciais, mesmo sabendo que no PS muita gente não o consegue engolir. Tem ainda um bom percurso académico. António Filipe foi deputado durante cerca de 35 anos, um exemplo de serviço à causa pública. Soube ser a voz do partido, mas também um trabalhador incansável e até independente quando ocupou lugares de destaque na Assembleia da República. Cada um no seu campo ideológico, Catarina Martins e Cotrim Figueiredo, foram bons líderes partidários (e daqueles que souberam sair) e têm ideias próprias para o País. Cultivam a proximidade e o respeito. Finalmente, André Ventura, é um político extraordinariamente bem preparado. Montou e carregou um partido que é um caso de sucesso sem igual em Portugal. É fácil apontar-lhe os defeitos, mas as virtudes são também óbvias: tem currículo profissional, desprendimento e visão. Diz o que os outros temem dizer e está sintonizado com os problemas e os anseios de uma faixa cada vez mais alargada de portugueses. Tanta escolha (e ainda há mais alguns) é um sinal de que a democracia está bem e recomenda-se.

São (de novo) os lucros da banca, senhores!!!

Qualquer seja a conta que se faça, os lucros dos primeiros nove meses deste ano dos principais bancos portugueses revelam um setor pujante. Mesmo que, no particular, alguns não estejam a ganhar tanto e, no geral, todos não batam os recordes sucessivos dos últimos anos. Certo, é que o banco público, a CGD, fez cerca de 1,4 mil milhões de euros, o Santander atingiu mais 778 milhões, o BCP amealhou outros 776 milhões, o Novo Banco chegou aos 610 milhões, o BPI conseguiu 389 milhões e até o Montepio quase chegou aos 87 milhões. No total, fizeram uma média de 13 milhões de euros de lucro por dia. Claro que todos sabemos que termos uma banca saudável é meio caminho para evitar problemas que já conhecemos e sentimos no bolso. Mas não deixa de causar alguma impressão todo este dinheiro de lucros, sobretudo quando vemos os bancos a fecharem sucessivas sucursais no interior do País, quando vemos a redução de funcionários que leva a termos de fazer marcação para sermos atendidos, quando vemos o crescimento das comissões ou simplesmente quando vemos os funcionários da banca a não usufruírem deste tempo de vacas gordas.

Não deixa de ser revelador que um banco como o BCP distribua mais de 450 milhões de euros aos acionistas no ano passado. E que em outubro deste ano venha propor uma alteração ao contrato constitutivo do fundo de pensões para contemplar quatro membros da Comissão Executiva, estimando um dos sindicatos que assim o BCP tenha de financiar as milionárias pensões com mais 2,4 milhões de euros - em 2018, o banco já tinha decidido um pagamento extraordinário de 4,9 milhões de euros para os fundos de pensões de seis administradores executivos. Pelos vistos, agora, invoca-se a equidade de tratamento para todos poderem ter as reformas douradas. Só outro exemplo: em 2017, o presidente do Conselho de Administração do BCP recebia cerca de 173 mil euros brutos, hoje recebe quase 740 mil euros por ano. Será que é populismo perguntar qual foi o aumento de um funcionário bancário do BCP entre 2017/25?    

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