MUNDIAL 2026

Saiba tudo aqui
Mais sobre o Mundial 2026

“É a história a colocar o António no lugar certo”. Choveu Belém nas Caldas

9 fev, 08:46
António José Seguro à chegada à sede de campanha (JOSE COELHO/LUSA)
Adicione a CNN como fonte preferidaSiga-nos no Google News ?Saiba mais

REPORTAGEM || Lurdes, à custa da tempestade, não teve televisão para ver a festa. Não é todos os dias que uma cidade dá um Presidente da República ao país. As Caldas da Rainha, a partir de agora, também serão Belém. Seguro, por aqui, “o António”, não quer “ajustes de contas” com o passado. Mesmo que o passado, agora, o queira levar em ombros socialistas. Em Belém, promete, terá um "estilo próprio", não falará "por tudo e por nada". E sem saber, no seu discurso, Seguro também falou para Lurdes

Desfeitos, os guarda-chuvas coloridos já não guardam nada. Muito menos a chuva que Maria de Lurdes Luz vê cair pela janela da pastelaria Rei das Cavacas. Não confundir o género, nada de referências a um antigo ocupante do Palácio de Belém. Hoje é dia de falar do futuro inquilino.

“Gosto dele, já cá veio comprar trouxas. Já o Mário Soares me veio aqui comprar trouxas”, conta a dona. É que António José Seguro, mesmo não sendo um filho da terra, é um filho que a terra adotou. Maria de Lurdes há de saber da vitória “pela telefonia”.

Foi uma noite de guarda-chuvas. Um protegeu bem o candidato, ao contrário destes, destruídos pelas tempestades dos últimos dias (DR)

“Desde o dia da tempestade nunca mais tive televisão”. Mora numa freguesia a três quilómetros do centro das Caldas da Rainha. “Tenho luz, Meo é que não. Há uma vizinha na rua que tem Vodafone, é a única”. Cada uma na sua casa, mesmo em dias decisivos para o país. “Antigamente havia mais partilha”.

Maria de Lurdes não vê Seguro a descer a escadaria de casa, a agradecer ao país a confiança. Não há televisão. Não vê Seguro a seguir, a pé, debaixo de chuva miudinha, abrigado por um guarda-chuva que a tempestade não destruiu. Não há televisão. Não vê o calor da festa no Centro Cultural das Caldas. Não há televisão.

Maria de Lurdes há de saber o resultado pela "telefonia" (DR)

“Um dia histórico”

Escolhe-se o próximo Presidente da República. Segue-se para a praça com o mesmo nome. Praça da República, mais conhecida como Praça da Fruta. Contagem decrescente para as 20:00 no único negócio aberto a esta hora. “Vão votar”, lê-se na placa no exterior.

Normalmente, no Espaço Mil Novecentos 88, não há televisão. Por escolha, não por intempérie. Esta noite cumpre-se a exceção. São 75 polegadas. “É um dia histórico para esta cidade”, acredita Carlos Freitas, que trouxe o aparelho com as próprias mãos.

Há televisão. Não há clientes. Só os pivôs a encher o espaço. “Na primeira volta apareceram umas americanas, prometeram que se o Ventura ganhasse não compravam cá casa”. Agora têm motivos para investir. Derradeiros segundos. Carlos leva a mão à cabeça. “Eish”. Confirma-se a vitória de Seguro.

Na Praça da República ninguém para ver quem é o próximo Presidente da República (DR)

“O Marcelo, em 2014, chamou-o de fraquinho. Agora vai passar-lhe o testemunho. O burburinho a partir de agora vai ser cá. As Caldas da Rainha vão ser outra vez a cidade rainha”. Só Carlos, a funcionária e um jornalista, à procura de um ângulo diferente numa noite chuvosa, ouvem esta conversa.

No ecrã, mostram-se os apoiantes de Seguro. Estão a cinco minutos a pé deste restaurante. Agarram-se aos televisores, às projeções. Não há dúvidas, não há margens. O resultado é limpo. Celebram, pulam, gritam. Esticam os cachecóis, sabendo que neste dérbi ganhou a equipa deles. “És a nossa fé”. Uma delas é Ana Pimenta, afilhada de Seguro.

Clima de festa no quartel-general de Seguro (Miguel A. Lopes/Lusa)
É que parece mesmo um jogo de futebol (Miguel A. Lopes/Lusa)

Um regresso com “maturidade”

Só ficamos a saber que António José Seguro é padrinho de casamento de Ana Pimenta porque, minutos antes, a mãe faz a confidência. Luísa Pimenta, 85 anos, a primeira à porta do auditório do Centro Cultural das Caldas. “Tenho urgência em festejar a vitória. O contrário era muito mau”.

Recorda-se o passado. E, claro, o momento em que a disputa interna com António Costa ditou a saída de Seguro da política. Mais de uma década de ausência. E o regresso pela porta grande, de Belém, numa vitória que é vista como a derrota dos extremismos. Ninguém quer falar em vingança histórica, porque a palavra não assenta bem à forma de ser do vencedor.

Ana, à frente, é afilhada de Seguro. Luísa, a mãe, de bege atrás, faz questão de ser a primeira a entrar (DR)

“O António não é de vinganças. É a história a colocá-lo no lugar certo. Mais certo para o país do que para ele”, garante Luísa, amiga, daquelas que passam férias com a família Seguro. A filha concorda. “Ele merece. É das pessoas mais honestas, respeitadoras e respeitadas que conheço. É mesmo a história a colocá-lo no sítio certo”.

“Com maturidade”, junta Rosário Ladeira, assumidamente democrata-cristã, assumidamente apoiante de Seguro desde a primeira hora. “Conheço o António, confio nele. Não é o mal menor”. Pelo contrário, a noite acabará a mostrá-lo como o Presidente eleito com o maior número de votos de sempre: mais de 3,4 milhões.

Seguro de sorriso rasgado no percurso entre casa e o Centro Cultural das Caldas (Miguel A. Lopes/Lusa)

"Não é um ajuste de contas"

Na escadaria de casa, Seguro é parco em palavras. É uma antevisão dos próximos cinco anos em Belém, como mais tarde confirmará. “O povo português é o melhor povo do mundo”, diz, com a mulher, Margarida, ao lado. Os jornalistas, numa mancha escura, insistem nas perguntas. Seguro vai prometendo respostas para mais tarde. “Não quero que se constipem”.

Os vizinhos colam-se às janelas. Vista privilegiada para a história a acontecer. “Parabéns, parabéns”, gritam-lhe. Alguns carros buzinam, como se de um casamento se tratasse, tal como foi no enlace da afilhada do futuro Presidente. Seguro segue rodeado pelos jornalistas. Os filhos, Maria e António, atrás, num guarda-chuva à parte. Riem-se, espantados com estas andanças.

Marta Carvalho nem quer acreditar na sorte: a de ser uma das primeiras a ver o homem consagrado. “Vim estacionar e vi ele saindo”, confessa. Sotaque brasileiro nos lábios, telemóvel nas mãos. Se o mundo não tiver provas de que ela está aqui, é como se não tivesse acontecido. “Viva o Presidente, viva o Presidente”. É vê-la depois, à procura de lugar num auditório a abarrotar.

Nesta noite, Seguro sobe pela escadaria grande do Centro Cultural das Caldas. Há duas semanas tinha sido pela pequena. Metáfora. No topo, o homem que avançou sozinho para a candidatura presidencial tem à sua espera muitos nomes do PS – José Luís Carneiro, secretário-geral, só há de chegar depois para um abraço, não fica para ouvir o discurso. Está aqui o partido que, em 2014, ao escolher Costa como líder, acabou por afastar Seguro das lides políticas. O eleito não quer alimentar o passado. Nas lentes dos óculos, não são lágrimas. São gotas de chuva num sorriso rasgado.

E, no âmago, “não é nenhum ajuste de contas. Sou uma pessoa que olha para o futuro”. Nesta noite molhada, abençoada, há uma multidão que quer ser vitória com ele. Mesmo que o resto da cidade esteja praticamente deserta. O autocarro da rede Expressos parte para Lisboa. Seguro fará agora o mesmo percurso todos os dias, a não ser que imperativos de agenda tornem cómoda a noite em Belém. Ida e volta. Porque as Caldas são casa.

Seguro cumprimenta a multidão no Centro Cultural das Caldas, à entrada do auditório onde discursa (Miguel A. Lopes/Lusa)

Pressão no Governo, estilo próprio em Belém

Esquece-se a chuva lá de fora. O calor da casa envolve Seguro no auditório transformado em quartel-general. As gentes aplaudem, vibram, emocionam-se. E o futuro Presidente vem cheio de argumentos, com o discurso, para segurá-las até ao último minuto.

“A minha primeira palavra é de pesar pelas 15 vidas perdidas pela catástrofe que nos atingiu”. Segue-se a pressão ao Governo, em jeito de aviso do que aí virá quando ocupar o cargo mais importante do país.

Seguro envia “solidariedade total” para quem ainda não consegue fazer a sua vida normal devido ao mau tempo: “a solidariedade dos portugueses não pode substituir a responsabilidade do Estado”.

Discurso marcado por avisos ao Governo quanto às soluções para quem sofreu com o mau tempo (Miguel A. Lopes/Lusa)

“Não vos esquecerei e não vos abandonarei”, afiança. “A resposta à dor não é o grito, é o trabalho”, remata. Frases que vincam um homem a querer exercer as funções que lhe são confiadas “com o mesmo compromisso” dos antecessores, “mas com o meu próprio estilo”.

A partir de agora, com ele em Belém, “os interesses ficam à porta”. E as palavras serão medidas com maior atenção. “Não falarei por tudo e por nada”. Passa tudo na televisão. Lurdes não pode ver que Seguro também fala para ela. Mas, pela telefonia, pode ouvir…  

Informação em todas as frentes, sem distrações? Navegue sem anúncios e aceda a benefícios exclusivos.
TORNE-SE PREMIUM

Partidos

Mais Partidos