REPORTAGEM || Lurdes, à custa da tempestade, não teve televisão para ver a festa. Não é todos os dias que uma cidade dá um Presidente da República ao país. As Caldas da Rainha, a partir de agora, também serão Belém. Seguro, por aqui, “o António”, não quer “ajustes de contas” com o passado. Mesmo que o passado, agora, o queira levar em ombros socialistas. Em Belém, promete, terá um "estilo próprio", não falará "por tudo e por nada". E sem saber, no seu discurso, Seguro também falou para Lurdes
Desfeitos, os guarda-chuvas coloridos já não guardam nada. Muito menos a chuva que Maria de Lurdes Luz vê cair pela janela da pastelaria Rei das Cavacas. Não confundir o género, nada de referências a um antigo ocupante do Palácio de Belém. Hoje é dia de falar do futuro inquilino.
“Gosto dele, já cá veio comprar trouxas. Já o Mário Soares me veio aqui comprar trouxas”, conta a dona. É que António José Seguro, mesmo não sendo um filho da terra, é um filho que a terra adotou. Maria de Lurdes há de saber da vitória “pela telefonia”.
“Desde o dia da tempestade nunca mais tive televisão”. Mora numa freguesia a três quilómetros do centro das Caldas da Rainha. “Tenho luz, Meo é que não. Há uma vizinha na rua que tem Vodafone, é a única”. Cada uma na sua casa, mesmo em dias decisivos para o país. “Antigamente havia mais partilha”.
Maria de Lurdes não vê Seguro a descer a escadaria de casa, a agradecer ao país a confiança. Não há televisão. Não vê Seguro a seguir, a pé, debaixo de chuva miudinha, abrigado por um guarda-chuva que a tempestade não destruiu. Não há televisão. Não vê o calor da festa no Centro Cultural das Caldas. Não há televisão.
“Um dia histórico”
Escolhe-se o próximo Presidente da República. Segue-se para a praça com o mesmo nome. Praça da República, mais conhecida como Praça da Fruta. Contagem decrescente para as 20:00 no único negócio aberto a esta hora. “Vão votar”, lê-se na placa no exterior.
Normalmente, no Espaço Mil Novecentos 88, não há televisão. Por escolha, não por intempérie. Esta noite cumpre-se a exceção. São 75 polegadas. “É um dia histórico para esta cidade”, acredita Carlos Freitas, que trouxe o aparelho com as próprias mãos.
Há televisão. Não há clientes. Só os pivôs a encher o espaço. “Na primeira volta apareceram umas americanas, prometeram que se o Ventura ganhasse não compravam cá casa”. Agora têm motivos para investir. Derradeiros segundos. Carlos leva a mão à cabeça. “Eish”. Confirma-se a vitória de Seguro.
“O Marcelo, em 2014, chamou-o de fraquinho. Agora vai passar-lhe o testemunho. O burburinho a partir de agora vai ser cá. As Caldas da Rainha vão ser outra vez a cidade rainha”. Só Carlos, a funcionária e um jornalista, à procura de um ângulo diferente numa noite chuvosa, ouvem esta conversa.
No ecrã, mostram-se os apoiantes de Seguro. Estão a cinco minutos a pé deste restaurante. Agarram-se aos televisores, às projeções. Não há dúvidas, não há margens. O resultado é limpo. Celebram, pulam, gritam. Esticam os cachecóis, sabendo que neste dérbi ganhou a equipa deles. “És a nossa fé”. Uma delas é Ana Pimenta, afilhada de Seguro.
Um regresso com “maturidade”
Só ficamos a saber que António José Seguro é padrinho de casamento de Ana Pimenta porque, minutos antes, a mãe faz a confidência. Luísa Pimenta, 85 anos, a primeira à porta do auditório do Centro Cultural das Caldas. “Tenho urgência em festejar a vitória. O contrário era muito mau”.
Recorda-se o passado. E, claro, o momento em que a disputa interna com António Costa ditou a saída de Seguro da política. Mais de uma década de ausência. E o regresso pela porta grande, de Belém, numa vitória que é vista como a derrota dos extremismos. Ninguém quer falar em vingança histórica, porque a palavra não assenta bem à forma de ser do vencedor.
“O António não é de vinganças. É a história a colocá-lo no lugar certo. Mais certo para o país do que para ele”, garante Luísa, amiga, daquelas que passam férias com a família Seguro. A filha concorda. “Ele merece. É das pessoas mais honestas, respeitadoras e respeitadas que conheço. É mesmo a história a colocá-lo no sítio certo”.
“Com maturidade”, junta Rosário Ladeira, assumidamente democrata-cristã, assumidamente apoiante de Seguro desde a primeira hora. “Conheço o António, confio nele. Não é o mal menor”. Pelo contrário, a noite acabará a mostrá-lo como o Presidente eleito com o maior número de votos de sempre: mais de 3,4 milhões.
"Não é um ajuste de contas"
Na escadaria de casa, Seguro é parco em palavras. É uma antevisão dos próximos cinco anos em Belém, como mais tarde confirmará. “O povo português é o melhor povo do mundo”, diz, com a mulher, Margarida, ao lado. Os jornalistas, numa mancha escura, insistem nas perguntas. Seguro vai prometendo respostas para mais tarde. “Não quero que se constipem”.
Os vizinhos colam-se às janelas. Vista privilegiada para a história a acontecer. “Parabéns, parabéns”, gritam-lhe. Alguns carros buzinam, como se de um casamento se tratasse, tal como foi no enlace da afilhada do futuro Presidente. Seguro segue rodeado pelos jornalistas. Os filhos, Maria e António, atrás, num guarda-chuva à parte. Riem-se, espantados com estas andanças.
Marta Carvalho nem quer acreditar na sorte: a de ser uma das primeiras a ver o homem consagrado. “Vim estacionar e vi ele saindo”, confessa. Sotaque brasileiro nos lábios, telemóvel nas mãos. Se o mundo não tiver provas de que ela está aqui, é como se não tivesse acontecido. “Viva o Presidente, viva o Presidente”. É vê-la depois, à procura de lugar num auditório a abarrotar.
Nesta noite, Seguro sobe pela escadaria grande do Centro Cultural das Caldas. Há duas semanas tinha sido pela pequena. Metáfora. No topo, o homem que avançou sozinho para a candidatura presidencial tem à sua espera muitos nomes do PS – José Luís Carneiro, secretário-geral, só há de chegar depois para um abraço, não fica para ouvir o discurso. Está aqui o partido que, em 2014, ao escolher Costa como líder, acabou por afastar Seguro das lides políticas. O eleito não quer alimentar o passado. Nas lentes dos óculos, não são lágrimas. São gotas de chuva num sorriso rasgado.
E, no âmago, “não é nenhum ajuste de contas. Sou uma pessoa que olha para o futuro”. Nesta noite molhada, abençoada, há uma multidão que quer ser vitória com ele. Mesmo que o resto da cidade esteja praticamente deserta. O autocarro da rede Expressos parte para Lisboa. Seguro fará agora o mesmo percurso todos os dias, a não ser que imperativos de agenda tornem cómoda a noite em Belém. Ida e volta. Porque as Caldas são casa.
Pressão no Governo, estilo próprio em Belém
Esquece-se a chuva lá de fora. O calor da casa envolve Seguro no auditório transformado em quartel-general. As gentes aplaudem, vibram, emocionam-se. E o futuro Presidente vem cheio de argumentos, com o discurso, para segurá-las até ao último minuto.
“A minha primeira palavra é de pesar pelas 15 vidas perdidas pela catástrofe que nos atingiu”. Segue-se a pressão ao Governo, em jeito de aviso do que aí virá quando ocupar o cargo mais importante do país.
Seguro envia “solidariedade total” para quem ainda não consegue fazer a sua vida normal devido ao mau tempo: “a solidariedade dos portugueses não pode substituir a responsabilidade do Estado”.
“Não vos esquecerei e não vos abandonarei”, afiança. “A resposta à dor não é o grito, é o trabalho”, remata. Frases que vincam um homem a querer exercer as funções que lhe são confiadas “com o mesmo compromisso” dos antecessores, “mas com o meu próprio estilo”.
A partir de agora, com ele em Belém, “os interesses ficam à porta”. E as palavras serão medidas com maior atenção. “Não falarei por tudo e por nada”. Passa tudo na televisão. Lurdes não pode ver que Seguro também fala para ela. Mas, pela telefonia, pode ouvir…