PERFIL || Tornou-se militante do PS um mês depois de fazer 18 anos. Foi secretário-geral da juventude do partido e, mais tarde secretário-geral do PS, cargo que deixou, na sequência das eleições primárias que elegeram António Costa como líder socialista. Os amigos definem-no como "um homem de convicções", "ponderado", "rigoroso", "mobilizador" e "disciplinado". António José Seguro venceu a segunda volta das eleições presidenciais com mais de 66% dos votos e será o próximo Presidente da República. No discurso de vitória, a primeira palavra foi de solidariedade para com as vítimas na sequência do mau tempo registado em Portugal ao longo das últimas semanas
NOTA: Este perfil foi publicado inicialmente no dia 19 de janeiro
António José Seguro avançou para as presidenciais sem esperar pelo apoio do partido de que, em tempos, foi líder. A 15 de junho de 2025, apresentou a candidatura, no Centro Cultural e de Congressos das Caldas da Rainha, onde reside. Uma candidatura “sem amarras”.
Só quatro meses depois, o Partido Socialista, formalizou o apoio tornando António José Seguro no quarto candidato presidencial a ser apoiado pelo partido. Só Mário Soares, Jorge Sampaio e Manuel Alegre tinham conseguido tal façanha.
Seguro tornou-se militante do PS em 1980, iniciando assim o seu percurso político no partido onde haveria de assumir cargos como secretário-geral da Juventude Socialista (entre 1990 e 1994) e, mais tarde, secretário-geral do próprio PS (2011 a 2014).
Os preservativos e o festival da IUSY
Catarina Resende, amiga há “30 e tal anos”, tem estado ao lado de Seguro nos momentos políticos mais importantes e disruptivos. Primeiro na JS e, depois, como secretário-geral do partido. Recorda com alguma emoção a polémica campanha de distribuição de preservativos, quando António José Seguro estava à frente da Juventude Socialista. A intenção era alertar para a prevenção da transmissão do vírus da SIDA, numa altura de forte crescimento da epidemia. A campanha “Deixa-me seduzir-te” foi tão impactante como geradora de críticas por parte da Igreja Católica e dos setores mais conservadores da sociedade portuguesa.
“Andámos a visitar os centros de saúde, com as televisões e a imprensa atrás. O meu pai era delegado de saúde na altura e visitámos o centro de saúde onde ele trabalhava. Depois de o cumprimentar e conversar um pouco com ele, o António disse ‘e a Catarina agora vai dar-lhe aqui uns preservativos’. O meu pai olhou para mim com uns olhos… e eu, com 17 anos na altura, muito envergonhada, disse ‘é o meu pai’. E o António tirou-me os preservativos da mão e disse ‘ahhh então é melhor dar-lhos eu’”, recorda.
Catarina foi ao casamento de António e António foi ao casamento dela. Ainda hoje são visita assídua de casa um do outro. Confessa que nutre pelo amigo uma grande admiração e repete várias vezes sobre ele que é um “homem mobilizador”, “disciplinado”, “muito lançado, muito exigente, muito rigoroso” e “muito coerente”. Afonso Candal, antigo deputado socialista e também amigo de Seguro, acrescenta “um homem de iniciativa” e “muito bem preparado”. Os três fizeram parte da organização do encontro da International Union of Socialist Youth (IUSY), no Porto, em 1993.
“Quem lá esteve, não esquece. Parecia uma organização profissional e não era. Com um staff totalmente amador, a forma como foi organizada e pensada foi extremamente profissional”, resume Afonso Candal.
“Reunimos cinco mil jovens de todo o mundo e com todas as oposições ali. Israel e Palestina, FRELIMO e MPLA… Ele trouxe o Salmon Rushdie cá, que na altura estava com a cabeça a prémio. Reuniu o núcleo duro para organizar a visita, com muito secretismo, e colocou-nos a par de tudo”, acrescenta Catarina Resende.
A “abstenção violenta”
Carla Tavares, antiga deputada socialista, conheceu António José Seguro quando ele foi eleito secretário-geral do PS. Classifica-o como “uma pessoa integra e séria”. “Toma as posições de acordo com as suas convicções e de acordo com aquilo que realmente pensa. Isso é particularmente importante quando estamos numa altura que cada vez temos mais políticos que são verdadeiros catavento”, resume.
Uma dessas posições foi tomada em 2014 e havia de ditar uma década de interregno político por parte de Seguro. Era secretário-geral do PS, quando decidiu que o partido iria abster-se na votação do Orçamento do Estado. Uma decisão polémica que lhe valeu muitas críticas internas. “Ele colocou o interesse do país à frente do de ele próprio e do interesse do partido. Sabia que ia ter consequências, mas não deixou de o fazer. Se ele tinha consciência que essa decisão o poderia prejudicar, acredito que sim. Mas não deixou de a tomar”, resume Afonso Candal.
As críticas foram encabeçadas por António Costa, que pediu a demissão do secretário-geral e exigiu publicamente a convocação de um congresso extraordinário, para que os militantes pudessem decidir sobre a liderança do PS, caso António José Seguro não o fizesse por iniciativa própria.
“No dia em que o António Costa decidiu avançar contra ele, lembro-me que ele nos disse ‘não estava à espera disto, mas um líder tem de estar disposto a ser escrutinado. Estatutariamente, podia impedir isto, mas vou convocar eleições primárias’. Organizei as primárias com o Jorge Coelho e ele nunca interferiu no processo: ‘Vocês são a esquipa que organiza as eleições eu sou candidato’”, recorda Catarina Resende.
António Costa havia de sair vencedor. “Na noite em que perdeu as primárias. Ele percebeu muito cedo que ia sair derrotado. A imagem dele a sair do Rato, com a mulher e a filha, foi de uma dignidade e solenidade muito grandes. Foi um momento de grande elevação. Saiu e não voltou ao Largo do Rato. Tinha lá coisas dele, mas não voltou para as ir buscar”, revela Catarina Resende.
Óscar Gaspar foi assessor de António José Seguro no Largo do Rato. “É um homem calmo, sereno, racional e muito afetivo. Não decide por impulso. Muito racional em termos de decisão e muito afetivo na relação com as pessoas. Quem cunhou a expressão ‘politico dos afetos’ foi o António José Seguro, em 2013, creio eu”, recorda.
“Foi sempre um progressista. Tem um fino faro político e envolveu-se sempre em causas do futuro. Foi conotado com uma ala mais conservadora do PS e é, ao contrário, um progressista”, acrescenta.
O antigo assessor de Seguro recorda ainda as “várias reuniões com a troika no Largo do Rato: “Ele sempre disse tudo à troika. Disse-o e escreveu-o, mas sempre com muita elevação. É uma pessoa elegante no trato, seja no trato pessoal, seja no trato político”. “É um institucionalista. É um homem resguardado e nunca revelou, por exemplo, conversas que teve a sós com o Presidente da República. Para ele, as instituições são uma matéria sagrada”, diz ainda Óscar Gaspar.
“Quem lidou com ele ao longo dos tempos, goste ou não dele, concorde ou não com ele, vai dizer-lhe que é um homem confiável”, resume.
“Ponderado” e “exigente
Tanto Óscar Gaspar como Afonso Candal lembram ainda “o bom amigo”, que “nunca se esquece de um aniversário”. “Qualquer mensagem que eu lhe envie, ele faz questão de responder. Muito bem preparado. Dificilmente é chamado a falar de um assunto e não saiba falar. Exigente com ele próprio e com os outros. Chama a atenção quando as coisas não estão bem. Mas chama a atenção em privado, de forma que seja consequente e ouvido, mas sem dar espetáculo”, diz Afonso Candal.
“Quando ele foi eleito líder parlamentar, lembro-me que antes de apresentar a lista, fez questão de falar demoradamente com todos os deputados em privado. Um a um”, recorda.
Nos 10 anos de interregno político, António José Seguro, dedicou-se sobretudo à carreira académica. Foi professor na Universidade Autónoma de Lisboa (UAL) e no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP). Granjeou admiradores entre os alunos. “No dia da apresentação da candidatura, nas Caldas da Rainha, estavam muitos antigos alunos naquele auditório”, lembra Catarina Resende.
“É inspirador nas coisas grandes da vida, naquilo que vale realmente a pena. Acho que o país o está a conhecer um bocadinho melhor e a fazer-lhe alguma justiça”, acrescenta.
A amiga de longa data lembra que, na última década, ele foi “várias vezes convidado para fazer comentário político”. “Só aceitou recentemente, quando foi comentador na CNN Portugal. Antes, até pela forma como saiu do partido, achou que podia prejudicar o PS se o fizesse. Dizia-me sempre ‘não faço. O que é que eu vou acrescentar agora? Lama? Não faço’”, acrescenta Catarina Resende, que chegou a mediar alguns desses convites.
A antiga deputada Carla Tavares diz que “nada acontece por acaso”. “Se ele não tivesse saído abruptamente de secretário-geral do PS, se calhar, não estávamos aqui a falar dele como candidato a Presidente da República. Não pensei duas vezes em apoiá-lo”. “António José Seguro, curiosamente, tem sido o único candidato que tenho ouvido falar de forma expressa das desigualdades entre homens e mulheres e da urgência que há em eliminá-las”, nota Carla Tavares.
Óscar Gaspar diz ainda que Seguro é “muito ponderado. Para o bem e para o mal”. “Alguns dirão que é exageradamente ponderado. Gosta de trabalhar em equipa, gosta de fazer pontes. O único defeito que lhe consigo identificar decorrem destas características positivas. Se lhe pedem para fazer uma declaração sobre determinado tema, ele vai rever todas as palavras, todas as vírgulas. Algumas pessoas poderão dizer-lhe que é exageradamente ponderado. Mas ele só decide quando de facto tem todos os elementos para decidir”, sublinha o socialista.
Como prova dessa característica, Óscar Gaspar lembra a célebre frase de Seguro “qual é a pressa?”, aquando das guerras internas do PS e foi pressionado pelos jornalistas a responder se iria convocar ou não um congresso extraordinário. “Em frente ao Parlamento, a cada existência dos jornalistas, ele respondia invariavelmente e com toda a calma e ponderação ‘qual é a pressa?’. Essa frase revela aquilo que é a sua ponderação”, conclui.