Ventura vai ser duas coisas: contra a esquerda e contra o Governo. Seguro vai querer mostrar que, com a sua moderação, quando diz que será “Presidente de todos os portugueses” isso inclui o próprio rival - mas não aquilo que ele representa
Se pudermos aplicar a linguagem da guerra a esta segunda volta presidencial, percebemos bem o que vai acontecer: António José Seguro e André Ventura a “cavarem trincheiras”, a mostrarem tudo aquilo que os separa, descrevem os politólogos.
Não se esperam “mudanças radicais no discurso”, defende João Pacheco, uma vez que os candidatos precisam de “garantir o voto que já tiveram e conquistar novo eleitorado”. O que se espera, sim, são separações claras: nós e eles, nós contra eles.
“Enquanto Ventura afirma o bloco da direita, como alternativa à esquerda e ao socialismo, Seguro afirma o bloco dos democratas, humanistas e progressistas contra aqueles que não gostam da Constituição”, resume José Fontes.
Posição partilhada por João Pacheco: “Ventura vai pelo discurso anti-Seguro e antissocialista, apostando na ideia de estar mais próximo de uma eleição, de poder mesmo abanar o sistema. Já Seguro tentará a derradeira conversão de eleitores à direita, mostrando que a divisão não está entre a esquerda e a direita, para que estes possam mais facilmente justificar o seu voto nele. É o discurso da democracia contra o fascismo, dos constitucionalistas contra quem não respeita a Constituição, da moderação contra os extremismos”.
É certo que este delinear de fronteiras já acontecia antes dos resultados deste domingo. Contudo, os discursos dos candidatos na noite eleitoral vieram deixar mais vincados os argumentos para o confronto.
“Ventura vai tentar aproveitar o não posicionamento de Montenegro e Cotrim para piscar o olho ao eleitorado de direita. Vai ser duro e combativo. Seguro vai responder com sentido de Estado e elevação, mantendo a linha de ser um candidato acima dos partidos, um ‘presidente de todos os portugueses’, um garante da democracia e da Constituição”, completa Bruno Ferreira Costa.
Ventura, o “camaleónico” contra tudo e todos
Os politólogos antecipam que Seguro “não deverá entrar em grande despique com Ventura”. “O objetivo de Seguro será não cometer erros na campanha”, vinca Bruno Ferreira Costa.
Já Ventura, descreve José Fontes, procurará ser “ainda mais camaleónico, porque o palco vai estar dividido entre dois atores”. “Vai procurar adaptar a mensagem às circunstâncias do momento, mesmo que haja contradição nos termos. Terá um perfil agressivo, mas irá temperá-lo com uma posição de estadista quando for necessário”, concretiza.
Ventura vai ser duas coisas: contra a esquerda e contra o Governo.
Primeiro: contra a esquerda. “Vai apostar tudo na ideia de ser o candidato ‘agregador da direita’ contra o socialismo. Haverá referências constantes a José Sócrates e António Costa, vai sinalizar que poderá levar a cabo reformas estruturais e da própria Constituição”, aponta Bruno Ferreira Costa.
Segundo: contra o Governo. “Vai exigir responsabilidades e mudanças, mostrar que o seu papel é o de monitorizar o Governo. Já não é só apontar o que está mal, é apontar e exigir soluções na saúde, na reforma da justiça ou da segurança social”, acredita João Pacheco.
E, para tal, concordam os restantes politólogos, terá de perceber como agarrar os eleitores de Marques Mendes, mas sobretudo de Gouveia e Melo e de Cotrim de Figueiredo. Mesmo sem apoios declarados, “isso obriga a AD e a IL a intervir de forma inteligente, para não deixar o campo da direita para André Ventura”, conclui José Fontes.
Seguro, o “moderado, institucionalista” à procura do centro
Para Seguro, dizem os politólogos, é uma questão de aplicar este pensamento na segunda volta: em fórmula que funciona não se mexe.
“O que lhe permitiu ganhar a primeira volta é a sua mais-valia para este segundo round: um discurso moderado, institucionalista, que são fundamentais para agregar o centro”, descreve José Fontes.
Os apoios que vão chegando, inclusive de dirigentes à direita, podem funcionar como fortes argumentos para convencer os eleitores em dúvida de que é a solução de compromisso, dizem os analistas.
“Além disso, tem a mais-valia de não ter sido apoiado por todo o PS. Havia uma ala mais à esquerda no PS que não estava com ele. Não deixa de ser irónico, uma vez que foi Pedro Nuno Santos [associado a uma fação mais à esquerda no PS] o primeiro a sugerir o seu nome”, completa José Fontes.
A mensagem está nas palavras, mas também na comunicação não verbal. E, para João Pacheco, a noite deste domingo já trouxe mudanças para Seguro, com uma sala grande, repleta de gente, “para mostrar que é o candidato de uma onda, de uma multidão. Nada foi intencional, nem o facto de ter começado a falar durante o discurso de Ventura. Quer mostrar que há uma força que não parou, que tem de continuar”.