Seguro será “institucional e pragmático, uma figura que gera estabilidade, mas que exige que se cumpram metas e objetivos”. Trata-se de uma nova forma de estar em Belém, concordam os politólogos. O tempo dirá como os portugueses se adaptam a ela
Frases fortes. Avisos ao Governo. Garantias de estabilidade. Foi assim que António José Seguro “fugiu ao clássico discurso de vitória”. “Foi uma intervenção prática”, resume a politóloga Paula do Espírito Santo.
E essa palavra - “prática” – é uma importante pista para aquilo que Portugal pode esperar do seu próximo Presidente da República.
Foco nas vítimas do mau tempo: a diferença evidente para Ventura
À primeira fase, Seguro definiu a prioridade: a resposta às populações afetadas pelo mau tempo.
“Um discurso sério, com alguma ‘gravitas’, para reiterar a posição de Seguro enquanto homem sério, comprometido, institucional, que veio para colaborar, que espera desenvolver uma magistratura de serviço, de colaboração”, resume Sílvia Mangerona, especialista em comunicação política.
Foi, talvez de forma involuntária, o derradeiro argumento a distingui-lo do rival. É que Ventura, nota Paula do Espírito Santo, “apesar de ter feito a sua campanha nas regiões em situação de calamidade, não teve sequer uma palavra em relação às vítimas”.
“Seguro foi distintivo, porque encontrou uma forma autêntica e genuína de lamentar as vítimas, sublinhando qual vai ser a sua intervenção nesse plano e a forma como o Governo se deve responsabilizar”, junta.
Sílvia Mangerona recusa que tenha sido um golpe sobre o rival. “Foi antes marcar a agenda mediática. Para mostrar que, apesar da alegria e da vitória, há uma agenda que tem de ser cumprida, situações por resolver”.
Trabalho na sombra
Seguro quer mostrar que é um Presidente que força as promessas a passarem do papel ao terreno. A primeira manhã após a eleição foi passada em casa, em contacto com os autarcas dos territórios mais afetados pelo mau tempo. À tarde, houve encontro no Palácio de Belém com Marcelo Rebelo de Sousa.
“Seguro vai privilegiar a ação política, bem como a orquestração da sua cooperação institucional com o Governo. Seguro irá contrabalançar o mediatismo com um modelo de intervenção com menos visibilidade”, acredita Paula do Espírito Santo.
O discurso deste domingo deixa antever que, quando for mesmo necessário, Seguro ocupará a esfera pública. Mas será nos bastidores que o seu trabalho se irá desenvolver em força.
Até porque os poderes do chefe de Estado têm limites. “Seguro vai ter de se adaptar ao que pode fazer. Pode ser um agente de pressão. Intuo que será um presidente de diplomacia discreta, de reuniões às quintas com o Governo, de onde não vão sair cá para fora quais as matérias decididas”, argumenta Sílvia Mangerona.
“Se alguma situação for verbalizada, será na forma de recados para a Assembleia da República”, para que os deputados exerçam esse papel de contrapoder que não cabe ao chefe de Estado, junta a analista.
Garante de estabilidade
“Não será por mim que a legislatura será interrompida”. É uma das frases mais fortes da noite eleitoral de Seguro. E uma indicação importante de como será a relação com o executivo de Luís Montenegro.
“É a assunção de um compromisso muito sério. Mesmo que não dependa só do Presidente da República, deixa uma tónica de responsabilidade e compromisso. Seguro vai tentar manter-se equidistante, mas tendendo a colaborar”, descreve Sílvia Mangerona.
O politólogo Marco Lisi adverte que tudo dependerá da própria atitude do Governo e dos parceiros que escolher para negociar. “Pode manter uma cooperação com o Chega e o PS. Mas, se houver uma aliança demasiado evidente com o Chega, o Governo pode encontrar obstáculos no Presidente, para recentrar a cooperação mais ao centro”.
Para o analista, “o código laboral será um teste-chave”. “É aí que vamos ver se o Governo está mesmo disponível a colaborar com o PS e com o Presidente da República, suavizando as medidas que propôs. Aí Seguro terá, provavelmente, um papel mais ativo e preventivo”, antevê.
Em resumo, com a ajuda de Paula do Espírito Santo: Seguro será “institucional e pragmático, uma figura que gera estabilidade, mas que exige que se cumpram metas e objetivos”.