ANTEVISÃO 2026 || Foco de António Guterres terá de ser desviado do objetivo principal para "implorar" que a ONU continue a ter financiamento
António Guterres terá em 2026 o seu último ano como secretário-geral da ONU, período em que se dedicará a manter a organização financeiramente viável e tentará evitar a falência da mesma após cortes orçamentais significativos em 2025.
Num cenário ideal, Guterres dedicaria 2025 e 2026, os seus dois últimos anos na liderança das Nações Unidas, à promoção da cooperação internacional em torno da Inteligência Artificial e de outros problemas de grande escala.
Contudo, a "triste realidade é que o seu legado está agora ligado ao futuro financeiro da ONU", lamentou à Lusa Richard Gowan, especialista no sistema da ONU, no Conselho de Segurança e em operações de manutenção da paz, frisando que Guterres terá de encerrar o seu segundo e último mandato a "implorar e a pressionar os membros da ONU para que lhe forneçam financiamento".
Apesar dos esforços de Guterres para tentar convencer o mundo de que a ONU é hoje mais vital do que nunca, a organização fundada após a Segunda Guerra Mundial tem a influência desacreditada e o pleno funcionamento em risco devido aos cortes de financiamento de nações como os Estados Unidos, país que acolhe a sede da instituição, em Nova Iorque, e o seu maior doador.
No início do mês, António Guterres atualizou a proposta de orçamento regular da ONU para 2026, prevendo agora cortes de 577 milhões de dólares (496 milhões de euros) - uma diminuição no orçamento de 15,1% face a 2025 - e uma redução de 2.681 postos de trabalho.
Apesar da carga de trabalho da ONU aumentar de ano para ano, os recursos estão a diminuir em todos os setores, contribuindo para isso nem todos os Estados-membros pagarem na totalidade as obrigações anuais e muitos não pagarem a tempo - o défice é atualmente superior a 1,3 mil milhões de euros.
Apesar dos cortes que Guterres se viu obrigado a fazer, as dificuldades financeiras da ONU deverão continuar e o antigo primeiro-ministro português já alertou que a organização corre o risco de falência no próximo ano.
"Embora não seja realmente culpa sua, o secretário-geral está numa situação sem saída. Se a ONU ficar sem dinheiro, ele ficará para a história como o secretário-geral que deixou a organização falir. Se conseguir ultrapassar a situação, o que acredito que acabará por acontecer, será ainda muito impopular entre os funcionários da ONU, que detestam todos os cortes que fez. Isto não é justo", defendeu Gowan, analista do International Crisis Group (ICG).
Gowan considerou Guterres uma vítima das circunstâncias, uma vez que "teve o azar" de lidar já no final da sua carreira na ONU com os severos cortes orçamentais decretados por Donald Trump.
"António Guterres é um homem inteligente e, noutra época, poderia ter apresentado ideias realmente importantes sobre a governação global. Mas está preso a lidar com problemas de fluxo de caixa", assinalou.
O legado de António Guterres como secretário-geral poderá estar em risco. No entanto, se conseguir manter a ONU financeiramente viável, a sua reputação poderá melhorar com o tempo.
"Os historiadores poderão olhar para trás e honrar Guterres como um líder que tomou decisões muito difíceis para proteger a organização. A sua reputação pode melhorar com o tempo. Mas, a curto prazo, ele não tem opções realmente boas", frisou Gowan, que é diretor do departamento da ONU no ICG, uma organização não-governamental voltada para a resolução e prevenção de conflitos armados internacionais.
António Guterres assumiu a liderança da ONU em janeiro de 2017, tendo sido reconduzido para um segundo mandato, que termina no final de 2026, ano em que será eleito o seu sucessor.
Apesar de o secretário-geral em funções raramente ter grande influência no processo de seleção, cresce a pressão para que Guterres seja sucedido por uma mulher, algo que nunca aconteceu nos 80 anos de história da ONU.
O processo de seleção foi oficialmente lançado em 25 de novembro, com o envio aos Estados-membros de um apelo para apresentação de candidaturas.
Embora alguns países defendam claramente que uma mulher deverá ser finalmente escolhida para o cargo, a ideia não é unânime.
Vários candidatos já são conhecidos informalmente, incluindo a ex-presidente chilena Michelle Bachelet, o diretor da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), Rafael Grossi, e a costa-riquenha Rebeca Grynspan, atualmente à frente da agência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (UNCTAD).
Seguindo uma tradição de rotação geográfica nem sempre respeitada, a posição é desta vez reivindicada pela América Latina.