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Folhetim de voto: o homem que se enganou duas vezes e recebeu uma maioria absoluta

31 jan 2022, 08:39
Costa abraça a mulher na vitória (Lusa/Miguel A. Lopes)

Costa recebeu o resultado que queria quando já não o pedia, Rio acumulou mais uma derrota estrondosa mas acha que fez uma campanha “excelente”. O Chega inchou, a IL também, o BE, o PCP, o PAN e o CDS não se sentem lá muito bem. A análise dos resultados pelo jornalista de política Filipe Santos Costa

Costa. Foi o grande vencedor da noite, graças a si próprio e apesar de si próprio. Graças a si porque protagonizou sozinho a campanha socialista, e os portugueses quiseram mantê-lo como primeiro-ministro. Se a questão era o nível de rejeição de Costa, ficou à vista que desgaste não é rejeição, e que a rejeição de Rio é bem maior. Cercado à esquerda e à direita, com o cansaço de seis anos de governação e dois anos de pandemia, com o passivo de um governo gasto e alguns governantes que só pesavam, foi Costa o dínamo da campanha socialista. Mas também apesar de Costa, porque foi ele que andou em ziguezagues táticos e demorou a acertar com o discurso de campanha. Na fase crucial da campanha enganou-se duas vezes: primeiro, ao pedir a maioria absoluta, o que afugentou intenções de voto; depois, voltou a enganar-se ao afirmar que, afinal, os portugueses não queriam uma maioria absoluta. Querer até querem, não querem é que os obriguem a pensar nisso. Mais valia que Costa nunca tivesse saído da sua velha máxima de que “as maiorias absolutas não se pedem, ou se têm ou não se têm”. Porém - e esta é a maior ironia - se o líder socialista não tivesse dado o passo de pedir a maioria absoluta (mesmo que para depois a deixar cair), talvez nunca tivesse provocado o sobressalto nas sondagens que acabou por determinar o desfecho das eleições.

 

O dia D. O resultado de dia 30 foi em boa medida determinado dez dias antes. A 20 de janeiro foram divulgadas duas sondagens que deram conta, pela primeira vez, de uma situação de empate técnico entre PS e PSD: a tracking poll da Pitagórica para a CNN Portugal e o estudo da Universidade Católica para o Público. No dia seguinte, escrevi aqui no Folhetim de voto: “Ontem foi o dia decisivo”. E explicava: “Foi o dia em que mudou a perceção do que está em causa, e da força relativa dos dois principais partidos. (...) Ou seja, a vitória do PS não está garantida - e menos ainda a maioria absoluta -, e a derrota do PSD não é uma fatalidade. Sobretudo porque a tendência é de crescimento do segundo e encolhimento do primeiro. (...) Com uma semana de campanha pela frente, este é o momento decisivo. Costa conseguirá conter os danos e inverter a tendência? Rio será capaz de manter o momentum?” Tivemos entretanto a resposta: Costa mudou de discurso, deixou de pedir maioria absoluta e passou a acenar com os riscos de um governo de direita dependente do Chega; Rio, esse, continuou a partilhar fotos do seu gato, continuou a transmitir mensagens contraditórias sobre o Chega, e começou a falar como se já tivesse ganho. Correndo o risco de se mostrar errático, Costa olhou para os sinais e mudou o discurso a tempo; Rio, esse, convenceu-se de que estava no caminho certo e não mudou nada. 

 

Voto útil à esquerda. A única explicação de Rui Rio para o resultado das eleições foi o “voto útil à esquerda absolutamente esmagador” - é verdade, a queda do BE e do PCP, mas também do PAN, aí estão para o demonstrar. Juntos, BE, PCP e PAN perderam 430 mil votos (e estou a incluir na esquerda o PAN, que me parece ter sido muito afetado pelo voto útil, para além de ter sempre viabilizado os orçamentos do PS). Dois terços dos votos perdidos por estes partidos terão ido diretos para o PS, que cresceu 340 mil votos em relação a 2019. Para onde foram os restantes 90 mil votos perdidos pela esquerda? Uma boa parte terá ido para o Chega, em círculos onde BE e PCP caíram bastante e o Chega subiu muito, como são os casos de Faro ou de Santarém. Em todo o caso, sim, confirma-se que o voto útil à esquerda foi um facto. Mas não foi um acaso, nem caiu do céu aos trambolhões: Costa fez toda uma campanha a responsabilizar os antigos parceiros da geringonça pela crise política e a apelar diretamente ao eleitorado desses partidos. Convenceu muitos, porque tudo fez para o conseguir.

 

Sem voto útil à direita. Rui Rio queixa-se de que, ao contrário do que se passou à esquerda, “à direita não houve a mesma união em torno do PSD para evitar que o dr. António Costa continuasse”. Também é verdade. A direita cresceu bastante em relação a 2019: PSD+Ch+IL+CDS receberam agora 2,2 milhões de votos, em comparação com 1,7 milhões em 2019. Foram mais 470 mil votos para a direita no seu conjunto. Tirando o caso do CDS, todos os partidos da direita subiram em relação às anteriores legislativas. Mas o PSD, que teria a obrigação de ser o motor da alternativa à direita, foi o que menos cresceu. Apenas mais 78 mil votos, enquanto o Chega ganhou 319 mil e a IL aumentou 202 mil votos. Não houve nem sombra de voto útil à direita. E estranho seria se houvesse. Por duas razões:

  • Desde que chegou à liderança do PSD Rio insiste que não é de direita, nem o seu partido é de direita. Mais: hostilizou abertamente as correntes mais à direita, que sempre existiram e foram reconhecidas dentro do PSD. Por que razão a direita haveria de concentrar voto útil num líder e num partido que vivem a dizer que não são de direita?
  • Ao contrário do que Costa fez com a esquerda, Rio não fez uma campanha em marcação cerrada aos partidos à sua direita. Até chegou ao ponto de recomendar o voto no CDS, para quem não quisesse votar PSD; explicou e desdramatizou propostas do Chega; concordou com muitas ideias da IL. Mais do que tudo isso, deu de barato que faria um governo de coligação com o CDS e a IL - ou seja, deu utilidade aos votos nestes partidos. Só muito tarde na campanha Rio apelou ao voto útil, e sempre com pouca convicção. Foi mais o chá e simpatia que distribuiu à direita do que a vontade de lhes disputar os votos.

 

Inédito. Esta foi a segunda maioria absoluta do PS e a terceira a que o país assistiu. Mas é a primeira vez que um partido ganha duas maiorias absolutas com dois líderes distintos. 

 

Inédito II. Pela primeira vez o partido conseguiu maioria absoluta sem se apresentar com um líder novo ou em estado de graça. Sócrates conseguiu-a acabadinho de chegar à liderança do PS: Cavaco conquistou-a quando ainda só tinha passado dois anos à frente do governo e tinha níveis mínimos de desgaste. António Costa chegou aos 117 deputados com seis anos de governação em cima, em plena crise pandémica, com uma crise económica, com ameaça de uma crise social, e quando muitos comentadores anunciavam que “cheira a fim de ciclo”. A maioria absoluta mais imprevisível de todas aconteceu na circunstância mais improvável que se pudesse imaginar.

 

Mapa cor de rosa. Outro facto inédito: nunca um partido havia vencido em todos os 18 distritos do continente. Nem as maiorias absolutas de Cavaco conseguiram isso, nem a de Sócrates foi tão longe. Trata-se de uma hegemonia nunca vista. Na onda rosa que cobriu o país, só escapa a Madeira, onde a coligação PSD-CDS ficou à frente do PS, embora os dois lados tenham eleito o mesmo número de deputados (3/3).

 

PSD encolhe. Apesar de ter subido em número absoluto de votos, o PSD de Rui Rio ficou praticamente com a mesma percentagem de 2019, e sai destas eleições com menos deputados do que tinha. Neste momento, contando com os cinco deputados eleitos nas regiões autónomas em listas conjuntas com o CDS, o PSD soma 76 lugares no Parlamento. Admitindo que mantenha dois lugares pelos círculos da emigração (esses quatro deputados só serão distribuídos mais tarde), chegará aos 78 deputados - menos um do que elegeu em 2019. Ou seja, frente a um governo desgastado, que enfrentou uma crise pandémica e económica, que acumulou polémicas com diversos ministros, e que viu ruir no Parlamento a sua base de apoio, Rui Rio conseguiu eleger menos um deputado do que há três anos. É obra!

 

“Excelente”. Rio terminou a noite como cumpriu os quatro anos que leva de liderança do PSD: sem admitir um único erro. Ao fim de quatro eleições nacionais em que o PSD saiu derrotado (e quatro eleições em que o PS de Costa saiu vencedor), ao fim de duas legislativas em que ficou abaixo dos 30%, contabilizando dois dos piores resultados de sempre do PSD, Rio considerou que fez uma campanha “excelente” e diz que não mudaria nada na forma como fez oposição. Um caso perdido. Apesar disso, não anunciou a sua saída, ao contrário do que fez Francisco Rodrigues dos Santos. Fez o que Rio faz sempre: deixou uma frase ambígua, que diz uma coisa mas pode significar outra. Começou por dizer que “se houver maioria absoluta, sinceramente não estou a ver como é que posso ser útil neste enquadramento.” Mas, depois, acrescentou que “o partido decidirá”. repetindo: “Eu não consigo argumentar como é que posso ser útil ao partido havendo 4 anos de maioria absoluta. Só se alguém argumentar…” Fica clara, aqui, uma porta aberta para sair… a não ser que “alguém” consiga demonstrar que Rio deve continuar. Os que estavam na sala, pelos vistos, queriam a sua continuidade. Isabel Meireles, vice-presidente do PSD, afirmou nas tvs que não via qualquer razão para Rio sair. Pior cego é aquele que não quer ver.

 

Genuíno. Na noite eleitoral, Rio protagonizou um daqueles momentos em que é muito genuíno, tão genuíno que as coisas só fazem sentido na sua cabeça: antes de ir à análise dos resultados, congratulou-se por ter feito uma campanha eleitoral baratinha, que não deixará dívidas no partido. Como se não fosse surreal o suficiente, acabou a conferência de imprensa a falar alemão. Contabilista alemão mais genuíno não há na política portuguesa.

 

PS capitaliza em todo o país. O PS melhorou o seu resultado em todos os distritos. Nisso, o PSD não foi diferente: também melhorou em todos os círculos eleitorais. A questão é que os saltos de votação do PS foram incomparáveis com os magros crescimentos do PSD. Dois exemplos óbvios: no Porto, o PS conseguiu mais 6 pontos percentuais, correspondentes a mais 76 mil votos; o PSD subiu menos de 1 ponto percentual, e com mais 27 mil votos - e este, recorde-se, é o círculo eleitoral de Rui Rio. Em Lisboa, o círculo liderado por Costa, o PS cresceu 4 pontos em relação a 2019, com mais 78 mil votos; o PSD subiu 1,6 pontos, com apenas mais 36 mil votos. E aquilo que se viu nos dois círculos maiores viu-se por todo o lado na mesma proporção. Acrescento mais um exemplo: o distrito de Braga, onde Rui Rio arrancou a sua campanha com uma grande ação de rua em Barcelos - o PS subiu 6 pontos percentuais, conquistando mais 38 mil votos; o PSD subiu 0,7 pontos, com mais 14 mil votos. Foi assim, círculo a círculo, com crescimentos muito maiores do que os do PSD, que o PS garantiu a sua maioria absoluta.

 

Porto. Já que referi o Porto, olhemos para as sete freguesias do concelho que Rio liderou durante doze anos. O PSD ganhou apenas em três. As outras quatro deram a vitória ao PS. Ao nível do concelho, o PS saiu vencedor, com mais 530 votos do que o PSD.

 

Lisboa. Comparação igual com Lisboa, onde Costa foi autarca. O PS venceu destacado (36% versus 27%), na autarquia que há quatro meses provocou um pequeno terramoto com a vitória de Carlos Moedas. Das 24 freguesias de Lisboa, o PS venceu em 16, entre elas, Arroios, onde a antiga presidente de freguesia socialista, Margarida Martins, se tornou um dos maiores passivos políticos do partido. O PSD, que em setembro conquistou a maioria das juntas de freguesia, venceu agora apenas em oito. Mas há uma análise mais fina que vale a pena fazer no maior concelho do país: o enorme crescimento dos dois novos partidos de direita, em particular a IL, como veremos abaixo. 

 

Medina. Esteve ontem a comentar a noite eleitoral na CNN, também deu um abraço a António Costa, e foi eleito deputado nas listas do PS por Lisboa. Mas não foi por isso que Fernando Medina se destacou na noite passada. É ele - digo eu - um dos grandes responsáveis pelo resultado do PS. Se não tivesse perdido como perdeu a Câmara de Lisboa, há quatro meses, talvez os socialistas não se tivessem mobilizado como se mobilizaram ontem, e talvez a restante esquerda não tivesse concentrado os votos no PS como concentrou. Em setembro, a vantagem de Medina parecia tal, que muitos eleitores lisboetas não foram votar ou dispersaram votos à esquerda. Não houve razão para dramatização nem para apelo ao voto útil. O resultado foi a vitória surpresa de Carlos Moedas. O susto valeu uma lição: desta vez, perante o risco de outra surpresa, mais de dois milhões de eleitores cerraram fileiras em torno de António Costa. Medina irá provavelmente para o futuro Governo de Costa - talvez o primeiro-ministro saiba que também lhe deve em parte os quatro anos de governação que tem pela frente.

 

Leiria. É o símbolo maior da derrota do PSD: nunca os sociais-democratas tinham perdido neste distrito. Nem na maioria absoluta de Sócrates, em 2005. Ontem foi a primeira vez.  

 

Ministros em força. Apesar da fama de estarem desgastados, como se comportaram os membros do Governo que encabeçaram listas eleitorais? Nada mal, há que dizê-lo. Com um total nacional de 41,6% dos votos, o PS cresceu 5 pontos percentuais em relação aos 36,6% de 2019. Dos oito governantes que encabeçavam listas distritais, cinco conseguiram um crescimento nos respetivos círculos acima do crescimento nacional do PS. São, por ordem de crescimento: Ana Mendes Godinho (Guarda, +7,6 pontos percentuais); Tiago Brandão Rodrigues (Viana do Castelo, +7,3 p.p.); Ana Abrunhosa (Castelo Branco, +6,8 p.p.); Marta Temido (Coimbra, +6,2 p.p.) e Pedro Nuno Santos (Aveiro, + 5,1 p.p.). Lacerda Sales, em Leiria, liderou um crescimento de 4,7 p.p. (mas este é o tal círculo onde nunca antes o PS havia ganho). Curiosamente, em Lisboa, com Costa como primeiro da lista, o PS cresceu abaixo da média nacional (4,1 pontos percentuais), bem como Alexandra Leitão, em Santarém (mais 4 p.p.). Últimas duas notas para dois nomes que são por vezes apontados para voos mais altos no PS ou no Governo: Ana Catarina Mendes, em Setúbal, conduziu o PS a um crescimento de 7,2 p.p., e em Braga o secretário-geral adjunto, José Luís Carneiro, liderou uma lista com um crescimento de 5,6 pontos, também acima da média nacional.

 

Marcelo. Acertou na leitura que fez do chumbo do Orçamento. Aquela maioria estava esgotada, aquela composição do Parlamento já não refletia o que os portugueses queriam, a situação clarificou-se. Nenhum dos riscos da decisão de dissolver o Parlamento se concretizou: não ficou tudo na mesma, o que teria tornado a dissolução uma inutilidade; nem caímos na ingovernabilidade. Marcelo não terá de resolver o berbicacho da instabilidade. Pelo contrário, pode mesmo ficar de mãos a abanar - com a maioria absoluta, esfumou-se o sonho de se tornar o centro do regime. Pode mesmo tornar-se uma peça decorativa.

 

Centrão. Cresceu. Os votos somados do PS e do PSD ultrapassaram os 70%. Tal não acontecia desde 2005. Nas legislativas de 2009, e todas as seguintes até ontem, PS+PSD ficaram na casa dos 60%. Apesar da grande polarização política a que se tem assistido em Portugal, o centro resiste. Mais por força do PS do que do PSD, mas resiste.

 

Menos. Nunca tantos partidos tiveram tanta exposição mediática como nestas eleições, em que nove estiveram no campeonato dos grandes no palco dos debates televisivos. Mas não se concretizou a perspetiva de mais partidos terem representação no Parlamento. Até desapareceram dois: o PEV, arrastado pela debacle do PCP, e o CDS, aparentemente de morte natural.

 

Chega. Atingiu as fasquias que colocou: ser terceira força política e superar os 7% (teve 7,15%). Com 12 deputados, tem mais lugares no Parlamento do que o BE e o PCP juntos e foi a terceira força em praticamente todos os círculos. Em três conseguiu ultrapassar os 10%: Faro (12,3%, em boa medida à custa da extrema-esquerda), Portalegre (11,5%) e Santarém (10,9%). O crescimento no Algarve pode avaliar-se por esta medida: os novos 20 mil votos que o Chega conquistou nesse círculo são mais do que o crescimento somado do PS e do PSD aí. Mas mesmo em Lisboa, foi o terceiro partido mais votado em três freguesias, provando boa capacidade de penetrar no voto urbano. Na freguesia de Santa Clara superou os 10% e em Marvila ficou perto disso. A celebração fez-se com a berraria do costume. “Que sova lhes demos esta noite!”; “António Costa, eu agora vou atrás de ti!”. Num partido que até agora foi de um homem só, a entrada de 12 deputados terá o reverso de dar mais exposição a gente que nunca esteve sujeita a escrutínio. Porque ficará mais à vista a inconsistência e vazio do seu discurso, e a falta de coerência interna na bancada, num partido sem ideário nem programa. 

 

IL. A Iniciativa Liberal fez a outra festa da noite à direita, como quarto maior partido. Superou as metas colocadas e ultrapassou os 10% em Lisboa, onde ficou como terceira força política - na capital, houve seis freguesias onde foi o terceiro partido mais votado, chegando aos 16% nas Avenidas Novas, e cerca de 15% em Belém, Estrela e Parque das Nações. O perfil urbano do seu eleitorado comprova-se pelos círculos onde elegeu os seus oito deputados.

 

Jerónimo. Chegou ao fim o tempo de Jerónimo de Sousa, com um resultado tão mau que não houve imaginação retórica que o disfarçasse. Para agravar a tragédia comunista, João Oliveira, um dos possíveis sucessores de Jerónimo, ficou fora do Parlamento, com o PCP a falhar pela primeira vez a eleição por Évora. A razia foi quase total, e nem o histórico António Filipe resistiu. O chumbo do Orçamento teve um preço demasiado evidente. Até no Couço, freguesia mítica do concelho de Coruche onde a CDU tinha sempre resultados estrondosos, os comunistas foram ultrapassados pelo PS. Na enxurrada, Os Verdes foram varridos do mapa. O Comité Central reúne-se amanhã, e começa a contagem para o fim dos dias de Jerónimo de Sousa como secretário-geral comunista. Depois de três péssimos resultados, nas presidenciais (com João Ferreira, outro putativo sucessor), nas autárquicas e nas legislativas. O PCP tem problemas sérios, e não é apenas por causa do PS.

 

Catarina. Outra razia indisfarçável. Como era previsível, ninguém perdeu mais do que o BE com estas eleições antecipadas. Os 19 deputados bloquistas encolheram para cinco: apenas um quarto da bancada sobreviveu. Foi uma hecatombe ainda maior do que a de 2011, quando o BE ajudou a chumbar o PEC IV de José Sócrates - na altura, a bancada bloquista reduziu-se para metade. Ontem, metade teria sido bom. O BE não aprendeu a lição de 2011, e supôs que a mesma ação - derrubar um governo de esquerda - teria uma consequência diferente. Não é racional, é só cegueira e fezada. Cegueira e fezada não costumam compensar em política. E vão três péssimos resultados de seguida para o BE: presidenciais, autárquicas e legislativas. Por menos, o BE trocou de líder em 2011. Se optar por fazer o mesmo agora, Mariana Mortágua já fez a rodagem ao país nesta campanha.

 

Chicão. Ainda há três dias sonhava com a ressurreição do CDS e a vida como ministro da Defesa que havia de ser. No “verdadeiro teste de vida”, o CDS deu morto. Pelo caminho, morreu Chicão, trucidado pela carga de cavalaria da esquerda, que deu a vitória a Costa, e da nova direita, que riscou o CDS do mapa. O CDS é o primeiro dos grandes partidos fundadores da democracia a ficar excluído do Parlamento. Não é o primeiro partido constituinte a desaparecer - isso já aconteceu com a UDP, o MDP e a ADIM (se não se lembra, era a Associação de Defesa dos Interesses de Macau). Mas o facto inédito é o desaparecimento de um dos quatro grandes pilares partidários da democracia. Em 1976, nas primeiras eleições legislativas, o CDS teve 42 deputados. Ontem, teve zero. Rodrigues dos Santos correu com os melhores que o partido tinha e, previsivelmente, acabou sozinho e fora do Parlamento. Alguém se dará ao trabalho de fazer respiração boca a boca a um partido defunto?

 

Livre. Em 2015, quando defendia a geringonça antes da geringonça, Rui Tavares, do Livre, não conseguiu ser eleito. Em 2022, quando defendeu uma nova geringonça após a geringonça, Rui Tavares conseguiu ser eleito, mas ninguém precisará de geringonça alguma. Um historiador sempre às avessas com a História, portanto.

 

PAN. Reduzido a um único deputado (a sua líder, Inês Sousa Real, eleita na 25ª hora), o PAN serviu de argumento ao BE e ao PCP para tentarem demonstrar que, afinal, não tinham sido penalizados por causa do voto contra o Orçamento. A lógica foi a seguinte: o PAN não chumbou o Orçamento (absteve-se) mas também foi penalizado pelos eleitores. Talvez PCP e BE devessem preocupar-se mais com o que se passa na sua casa do que em casa alheia, mas vale a pena perder algumas linhas para explicar o óbvio: uma vez chumbado o Orçamento, e abrindo-se o risco de uma vitória da direita, o rolo compressor do PS apelando ao voto útil arrastou eleitores de toda a esquerda e centro-esquerda. E neste espaço incluo o PAN, que viabilizou todos os orçamentos do PS. O problema é que a direção do PAN não parece ter percebido que o seu eleitorado não era indiferente a estas proximidades. Ao colocar-se em posição equidistante entre PS e PSD, disponibilizando-se para fazer maiorias com um ou com outro, Inês Sousa Real afugentou a parte do seu eleitorado que se sente mais à esquerda do que à direita. Pelo que se viu, não seriam poucos. Aqui há uns anos, Freitas do Amaral já tinha tentado esse truque da equidistância e correu-lhe mal. Os eleitores não gostam de partidos que não são carne nem peixe, e o tofu não é para aqui chamado.

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