Folhetim de voto: isto não está para brincadeiras

17 jan, 07:20

Rui Rio promete uma campanha sem deturpações, mas no primeiro dia de campanha espalhou desinformação sobre o voto antecipado em mobilidade. Afinal, Rio diz que era só “brincadeira”. Mas ninguém achou graça, escreve o jornalista de política Filipe Santos Costa, na coluna diária de análise e opinião à campanha. António Costa foi aos Açores à procura da “vacina” contra um governo das direitas, Chega incluído

Tracking poll. Um dos acontecimentos diários da campanha será o barómetro diário da CNN Portugal, seguindo o método conhecido como tracking poll. Com um total de cerca de 600 entrevistas, a cada dia cerca de um quarto das respostas são refrescadas com novos inquiridos, o que permite ir atualizando a perceção do eleitorado conforme a campanha avança. Mais do que as oscilações diárias (mais meio ponto para cima, menos umas décimas para baixo), o que é interessante numa tracking poll olhar para tendências. Cada dia conta pouco, mas os movimentos dos partidos ao longo do tempo podem ser reveladores sobre quem ganha e quem perde terreno, quem consolida posições e quem oscila muito.

No essencial, os dias já conhecidos desta tracking poll dão Costa à frente e longe da maioria absoluta, mas com tendência de reforço de posição, e Rio a cerca de dez pontos de diferença e com oscilações diárias que não lhe permitem ganhar terreno. Nos restantes partidos com representação parlamentar, o ranking vai assim: Chega, BE, CDU, IL, PAN, Livre, e CDS em último, abaixo de 1%.

Rui Rio - que fica contente quando tem sondagens favoráveis, mas há anos as trata como “aldrabice” -, já veio atacar este trabalho. “Não vale a pena estar a inventar sondagens todos os dias. Os portugueses já mostraram que não vale a pena inventar sondagens porque é o povo que decide”. Nada de novo nesta frente.

 

#CampanhaBem. Ao fim de duas semanas de debates, e a duas semanas das eleições, recomendo a reflexão sobre a campanha feita ontem à noite na CNN Portugal pelos comentadores do programa Princípio da Incerteza, José Pacheco Pereira, António Lobo Xavier e José Magalhães (em substituição de Ana Catarina Mendes). Destaco o veredito do antigo dirigente do PSD, de que “globalmente, esta campanha está a ser melhor do que as anteriores”. 

Os debates, tão criticados no início - ou porque eram de menos, por serem curtos, ou porque eram demais, por serem muitos… - revelaram-se decisivos para clarificar posições e alternativas, mas também para mostrar ao país líderes com défice de notoriedade, que aproveitaram bem a oportunidade, como foi o caso de Rui Tavares, João Cotrim Figueiredo e Francisco Rodrigues dos Santos. Creio que foram os maiores beneficiados com a longa maratona de debates. No polo oposto, diria que ninguém ganhou menos com os debates como André Ventura. Não digo que tenha perdido (para Ventura, toda a publicidade é boa publicidade), mas não acrescentou ao que já tinha - e talvez por isso as sondagens indiciam uma estagnação das intenções de voto no Chega. Ficou demasiado à vista a boçalidade, a má criação, a inconsistência, o estilo terrorista e o vazio argumentativo de Ventura. 

 

Antecipado. António Costa fez aquilo que pelo menos 69 mil eleitores (dados de ontem à noite) já fizeram: inscreveu-se para o voto antecipado em mobilidade. Este regime permite que qualquer pessoa vote no próximo domingo, onde quer que esteja, e é particularmente importante em contexto de pandemia: quem votar mais cedo evita o risco de ficar impedido de votar no dia 30, caso seja entretanto infetado com covid-19. Nas redes sociais, Costa apresentou esta como uma boa forma de “votar em segurança”. “É fundamental que todos votemos, antecipadamente, no dia 23, ou normalmente, no dia 30. Mas todos temos de votar”, foi a mensagem do líder socialista, que no próximo domingo estará em campanha no Porto e, por isso, se inscreveu para votar naquele distrito. 

 

Maluco do riso. Rui Rio aproveitou a deixa para acusar Costa de ter encontrado uma “forma airosa” de evitar votar em si mesmo”, pois “sabe que [isso[ não é bom para Portugal”. A publicação, no Twitter, tem um problema: é falso aquilo que Rio escreveu. No voto antecipado em mobilidade, as pessoas podem votar num distrito que não o seu, mas o voto conta sempre no círculo distrital onde o eleitor está recenseado. Ou seja, onde quer que Costa vote, o voto conta sempre por Lisboa. O deputado socialista Pedro Delgado Alves foi o primeiro a reagir, registando a falsidade da alegação. O comentador Daniel Oliveira fez o mesmo. Pedro Filipe Soares, do BE, questionou-se como é possível alguém que diz que esteve anos a preparar-se para ser primeiro-ministro cometer uma asneira desta dimensão.

Rio acabou por explicar aos jornalistas que era só uma piada. “Aquilo que eu pretendo é brincar. Não têm sentido de humor? Têm de ter sentido de humor”, advertiu, recomendando que se faça campanha “com alegria” e “com alguma brincadeira à mistura, para as coisas não serem tão pesadas”. Uma abordagem que abre todo um mundo de possibilidades daqui até dia 30. Afinal, era Rio a soltar o maluco do riso que há em si. Ele é assim mesmo, não há nada a fazer. “Quem não gostar de brincadeira e quiser isto muito a sério, que não vote em mim, vote naqueles que levam muito a sério.” 

Num país onde a abstenção é alta, onde a pandemia tem levantado muitas dúvidas sobre a segurança do voto e possibilidade de quem está isolamento poder ir votar, e onde não falta quem ataque os mecanismos da democracia, não consta que a veia galhofeira de Rio tenha provocado muitas gargalhadas. Apesar disso, o tweet galhofeiro de Rio abriu os jornais televisivos de domingo à noite. Rio é assim, “muito genuíno”. 

 

Graçola. A reação de António Costa à “piada” de Rio foi tão seca como a piada. “Rui Rio tinha obrigação de saber o que era o voto antecipado. Se resolveu disfarçar o seu conhecimento como sendo uma graçola, pronto, era uma graçola”, disse Costa sem se rir. “Não creio que um político afirme a sua credibilidade com graçolas. (...) Humor é uma coisa, desconhecimento do funcionamento básico da democracia é outra.” Rio, apostado em deixar bem claro que é mesmo ele quem gere a sua conta de Twitter, reagiu entretanto, acusando Costa de “mau humor”. À hora a que escrevo esta crónica, Rio mantém na sua conta o tweet com desinformação sobre o voto antecipado em mobilidade.

 

O jogo da imitação. Poucos minutos depois do tweet de Rio, André Ventura publicou um tweet a dizer a mesma coisa. Ninguém lhe deu importância, a não ser para assinalar a colagem entre PSD e Chega.

 

Banho. Se não fosse a sua atração irresistível pelo Twitter, o primeiro dia de campanha teria corrido muito bem a Rui Rio. Em Barcelos, foi recebido com um banho de multidão, à antiga, com muita gente na rua, como se fazia antes da pandemia. Como se fazia, não - Rui Rio mostrou sempre algum desprezo por este tipo de campanha, e costuma dizer que a sua forma de fazer política é diferente, sem “espetáculo” e “foguetório”. Ontem em Barcelos, autarquia que o PSD recuperou em setembro, teve tudo a que tem direito, e só as máscaras marcaram a diferença em relação a campanhas passadas. Fica a ideia de que, para Rio, fazer ou não fazer grandes ações de rua não resulta de uma opção, mas do que a terra dá: onde consegue, o PSD enche ruas, onde não consegue, finge que quer fazer diferente.

Principal mensagem do líder do PSD: acusou o PS de lançar mentiras e deturpações, nomeadamente sobre as propostas do PSD para a saúde e Segurança Social. Por azar, coincidiu com o dia em que Rio publicou desinformação no Twitter. A brincar, claro.

 

Sessões-tipo-comício. Em Braga, Rui Rio voltou a fazer campanha tipo-diferente. Com Rio, o PSD não faz comícios. Um comício, como se sabe, é um ajuntamento de gente para ouvir políticos em palco a dizer coisas de um palanque. Rio faz “sessões temáticas”: um ajuntamento de gente para ouvir políticos em palco a dizer coisas sentados em poltronas. 

 

Vacina. António Costa começou a campanha nos Açores, sem banho de multidão. Mesmo o comício - que o fez - foi com gente contada a dedo, porque só entrava quem tinha lugar sentado, e sanitariamente distanciado. Em tempo de pandemia, Costa não só se mostrou escrupuloso no cumprimento das regras da DGS, como foi aos Açores à procura de uma nova vacina: a vacina contra governos que juntam a direita toda, do PSD ao Chega.

Nos últimos tempos o PS sofreu duas grandes derrotas por excesso de confiança - a última foi em Lisboa, mas antes já tinha sido nos Açores. Em ambos os casos, o eleitorado socialista deixou-se dormir na forma. Foi contra esse risco que Costa foi alertar no arranque da campanha, nos Açores, onde um governo socialista foi substituído por um governo PSD+CDS+IL+Chega. “Que a nossa experiência nos Açores tenha sido uma vacina para todo o país, e que todo o país se mobilize para garantir uma maioria do PS, a única condição para impedir um governo de toda a direita, incluindo a extrema-direita.”

 

Ryanair. Numa campanha em que um dos temas tem sido a TAP, registe-se a ironia de Costa ter voado para os Açores a bordo de um voo da Ryanair, a companhia low cost que mais se tem batido contra os apoios do Estado à transportadora aérea nacional.

 

Anti-PAN. Catarina Martins começou a campanha em Miranda do Douro, onde está uma das famosas barragens que a EDP vendeu por muitos milhões, com uma borla fiscal. Não é que o BE aspire a eleger em Bragança, mas o caso serve para ilustrar o pior do bloco central: as portas giratórias de políticos que circulam entre governos e grandes empresas. Para além do PS, do PSD, e dos “abutres da economia portuguesa”, a campanha do BE teve outro alvo: o PAN. Martins advertiu que “o País não precisa de maiorias absolutas, nem de maiorias absolutas com o PAN, e muito menos de navegação à vista.” Pedro Filipe Soares, líder parlamentar, deixou a mesma ferroada, sobre a hipótese de um acordo do PS com o PAN, que tanto admite viabilizar um executivo de esquerda como de direita: “Um governo que tanto é carne ou peixe, que tanto é seitan como tofu.” Quando todos os votos contam, até os votos do sétimo partido nas intenções de voto fazem mossa.

 

Tirocínio. Ao lado de Catarina Martins, em Miranda do Douro, estava Mariana Mortágua. Depois, seguiu para Viseu com a líder do partido. A deputada, que é candidata por Lisboa, andou bem longe do seu círculo eleitoral, em campanha nacional ao lado da líder bloquista. Recorde-se que, em 2011, quando o BE caiu para os 5%, o partido mudou de liderança, após muitos anos com Francisco Louçã. Agora, as sondagens indicam uma queda semelhante. Estará Mortágua a fazer o tirocínio para a liderança, na eventualidade de Martins ter de se afastar da liderança? 

 

Tiro ao PS. Por falar em tirocínio, o PCP tem não um, mas dois potenciais líderes do partido a assumir o protagonismo nesta campanha, em substituição de Jerónimo de Sousa, operado na semana passada. No seu Alentejo, João Oliveira fez as vezes do secretário-geral; em Setúbal, foi João Ferreira. Com os Joões, os comunistas voltam a fazer campanha de rua como não se viu nas últimas autárquicas, quando o partido tudo fez para poupar Jerónimo de Sousa. Com os Joões não há poupança: há cafés com os camaradas, conversa de rua, e comícios de discurso apontado sobretudo ao PS e à sua ambição de uma maioria absoluta. Nas palavras de Ferreira, o tiro faz-se à “sobranceria de quem diz que a primeira coisa que vai fazer se ganhar é apresentar o mesmo Orçamento” que foi rejeitado pelo Parlamento. O PS é o alvo a abater, mas parece haver quem não compreenda esta opção. “Não sei porque é que eles se zangaram”, dizia na reportagem da CNN Portugal Salvador do Espírito Santo, antigo mineiro em Aljustrel. Depois de ouvir Oliveira, prometeu votar CDU. Mas continua sem perceber “porque é que eles se zangaram”.

 

Ressurreição. Faz parte do credo cristão a crença na “ressurreição dos mortos e na vida no mundo que há de vir”. Francisco Rodrigues dos Santos está a alinhar de tal maneira o seu CDS com a doutrina democrata-cristã (na sua vertente mais conservadora) que encontra na Bíblia o ânimo para contrariar as sondagens. Se estas dão o CDS como morto, “Chicão” acredita na ressurreição. “O nosso partido, talvez por ser democrata cristão, está habituado a ressuscitar nas urnas”, disse no primeiro dia oficial de campanha. 

Para cumprir o milagre, anda à procura dos nichos de eleitorado que no passado deram sete vidas ao partido: ontem, em Leiria e Santarém, recuperou o rótulo de “partido da lavoura” e do “mundo rural”, do tempo em que o CDS de Paulo Portas elegia um deputado em cada um destes círculos (em Leiria, era Assunção Cristas). 

Também voltou a piscar o olho aos aficionados da tauromaquia. Um aficionado piscou-lhe o olho de volta, oferecendo a Rodrigues dos Santos um barrete de forcado. “Chicão”, que se apresentou nos debates televisivos com pose de quem vai à pega, confessou que já ensaiou “as artes do forcado” e revelou o sonho de vir a “pegar a maioria de esquerda pelos cornos no Parlamento”.

 

Desmascarados. Com o país a atravessar um pico de pandemia, ontem apenas dois líderes partidários insistiram em fazer campanha de rua sem máscara nos contactos diretos com as pessoas: Francisco Rodrigues dos Santos e André Ventura.

 

História de burros. O líder do Chega não só faz contactos de rua sem máscara como não abdica dos tradicionais jantares de campanha, em locais fechados. Ontem à noite, foi em Coimbra, onde Ventura apresentou, com orgulho, o seu cabeça de lista, Paulo Ralha,  que em campanhas passadas foi apoiante do BE e de Marisa Matias. Inconstância? Desorientação? Oportunismo? Não, explica o próprio, com uma história sobre burros: “Só os burros não mudam. Como não sou burro, mudei”. Ventura, que se revelou ao mundo quando era militante do PSD, também mudou e conta a mesma história. “Eu acreditei no PSD, que é de esquerda, na verdade”. 

 

Consequências. Ventura diz que ambiciona um resultado na ordem dos 15%, mas que já seria “aceitável” um score “entre os 7% e os 12%”. Se não o alcançar, “as consequências serão depois avaliadas” - será coisa para, no mínimo, fazer mais um congresso.

 

Quem? A Iniciativa Liberal iniciou a campanha a jogar vólei de praia em Matosinhos, para mostrar que é jovem e desportista. O PAN arrancou na Quinta do Ferro, em Lisboa, para mostrar que se preocupa com as condições de habitação na capital. O Livre foi à Feira do Relógio para se mostrar. Apesar da exposição mediática conseguida graças aos debates, Rui Tavares cruzou-se com muita gente que nunca ouviu falar dele nem do Livre. Antes de explicar as suas propostas, teve de explicar quem é. É um bom começo.

 

Ordem do dia. Hoje é dia de debate, mas desta vez todos contra todos: os partidos com assento parlamentar confrontam-se na RTP às 21h.

 

Frase do dia: “Uma vitória de Rui Rio apenas dará governabilidade em situações muito delicadas. Ao contrário do que se disse muitas vezes, é mais fácil explicar a solução de governabilidade de António Costa do que de Rui Rio.”

António Lobo Xavier, no programa da CNN Portugal “O Princípio da Incerteza

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