António Costa: "Cansado? Desde as eleições, quem se cansou foi um líder do PSD, um líder da Iniciativa Liberal e um líder do PCP. Eu ainda cá estou"

15 dez 2022, 12:29
António Costa apresenta OE2023 aos militantes socialistas (LUSA/JOSÉ SENA GOULÃO)

O PSD ainda não digeriu os resultados eleitorais e a Iniciativa Liberal adoptou um "estilo histriónico". Em entrevista à Visão, o primeiro-ministro não poupa nas críticas à oposição. E sobre uma eventual candidatura a Belém é claro: "Nunca, jamais, em tempo algum"

"Nove meses intensos" - marcados pelo início da guerra na Ucrânia, uma crise energética e uma inflação galopante, mas ainda assim satisfeito com tudo o que seu Governo tem conseguido, desde o acordo de concertação social ao controlo do défice, passando pelas medidas laborais ou pela aprovação da morte medicamente assistida. Em entrevista à revista Visão, o primeiro-ministro faz o balanço deste segundo mandato: "Cumprimos todos os compromissos eleitorais que tínhamos assumido."

Sobre a ideia de que é acima de tudo "um gestor de crises", em vez de implementar reformas, o primeiro-ministro responde com ironia. "A central de produção de soundbites da direita criou esse mito, que, aliás, os meus quase 30 anos de cargos executivos só desmentem. Mas o nosso programa não são as reformas que a direita diz que gostava de fazer mas que, na verdade, nunca faz. O nosso programa tem outro tipo de mudanças estruturais. Se me pergunta qual é a mais importante e aquela de que mais me orgulho, e que aconteceu nos últimos sete anos, digo que é termos reduzido para menos de metade o abandono escolar precoce no nosso país - era de 13,7%, em 2015, e é menos de 6% em 2021. Essa é a mudança mais estrutural do país."

Costa deixa também vários recados à oposição e responde a todos os que dizem que a sua imagem pode estar a ressentir-se após tantos anos no Governo: afinal, os portugueses "não só renovaram a confiança no PS como a reforçaram, conferindo-lhe uma maioria absoluta. Cansado? "Desde as eleições, quem se cansou foi um líder do PSD, um líder da Iniciativa Liberal e um líder do PCP. Eu ainda cá estou."

Polémicas no Governo: é tudo fruto da "bolha político-mediática"

O primeiro-ministro considera que, por ter “falta de ideias alternativas” e não se “conseguir confrontar com os resultados”, a oposição “encontra outros argumentos falando de ‘casos’” e repetindo “ad nauseam coisas que não têm relevância para ninguém”.

Abordando os casos que têm envolvido membros do Governo, e que levaram a várias mexidas na constituição do executivo, Costa garante que não perde “um segundo” com as polémicas e afirma que se “andasse a fazer política para os comentadores” e para a “bolha político-mediática” não teria ganho as eleições.

"Os portugueses estão é preocupados com os problemas que enfrentam no dia a dia. Os preços que sobem, saber se vão conseguir continuar a pagar a prestação da casa, o que vai acontecer na área da energia... E é nesses problemas que devemos focar-nos. Se um governo se distrai com o ruído da bolha mediática, passa a governar para a bolha e não para os cidadãos."

O chefe do executivo considera que o caso da revogação de um despacho do ministro Pedro Nuno Santos sobre a localização do novo aeroporto de Lisboa foi “o único verdadeiramente grave”. “Felizmente, foi resolvido em 24 horas e ultrapassado”, garante.

Críticas à direita: "Estão furiosos e ainda não digeriram a fúria"

Nesta entrevista, Costa deixa ainda críticas ao atual líder do PSD, considerando que a tentativa de um referendo sobre a eutanásia foi um “número político que o dr. Montenegro inventou para tentar resolver uma dificuldade interna da direita portuguesa”.

“Não faz nenhum sentido. É um bom exemplo do estado da oposição: não é capaz de apresentar uma alternativa ao Governo, quando discutimos o Orçamento, não é capaz de atacar pelos resultados alcançados na economia ou nas diferentes áreas e, portanto, agarra-se a números políticos”, critica.

Na sua opinião, o PSD falhou "em tudo": desde as opções estratégicas internas ao facto de quererem discutir polémicas em vez de apresentarem alternativas ao país. "Depois, chegámos ao dia das eleições e falharam outra vez. Estão furiosos e ainda não digeriram a fúria. Andam, desde o dia 30 de janeiro, a remoer. Habituem-se. Vão ser quatro anos, e habituem-se a viver com a escolha dos portugueses."

Costa acusa a “direita democrática” de, “em vez de fazer uma barreira clara” ao Chega, se “deixar contaminar” e de ser um “aliado objetivo” do partido liderado por André Ventura, por oposição ao PS, que estabeleceu "um cordão sanitário”.

“O que explica a mudança da liderança da IL? É o facto de Cotrim de Figueiredo não se conseguir adaptar a este novo estilo histriónico que a IL quer ter, de guinchar um bocadinho mais alto do que o Chega. Fica é ridículo. Porque os ‘queques’ quando tentam guinchar ficam ridículos perante o vozeirão popular que o Ventura consegue fazer”, diz.

Numa questão relacionada com a taxa de execução do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), Costa deixa também críticas ao atual presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas, afirmando que, no caso de projetos no âmbito do PRR, há várias etapas a cumprir entre a projeção e a execução de uma obra.

“Só o engenheiro Carlos Moedas é que quer convencer os portugueses de que em menos de um ano consegue fazer o projeto do plano de drenagem de Lisboa…”, ironiza.

Costa na Presidência da República? "Esqueçam!"

Interrogado se pretende candidatar-se à Presidência da República, António Costa recusa perentoriamente, sublinhando que “cada um tem a vocação que tem, e quem gosta de ser primeiro-ministro e tem vocação para isso dificilmente se adaptará a uma função que é muito distinta”.

“Esse assunto, esqueçam! Nunca, jamais, em tempo algum. E não é jamais, é mesmo nunca!”, sublinha.

Interrogado se estaria interessado num cargo executivo nas instituições europeias, o primeiro-ministro defende que já tem esse cargo “por inerência”, enquanto chefe de Governo de um Estado-membro da União Europeia, o que lhe dá um assento no Conselho Europeu. “Tenho um mandato, aqui, até outubro de 2026. (…) Neste momento, tenho uma grande missão, que me ocupa bastante e me deixa totalmente realizado. Na minha vida, nunca andei a pensar no que ia fazer a seguir”, afirma.

Finalmente, questionado se uma saída em 2024 está “totalmente excluída”, Costa responde: “Nenhum médico me disse que tinha de sair em 2024 e, como sou otimista, espero de estar de ótima saúde, nessa altura, para continuar.”

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