Do elogio ao Porto, e o "muito" que Lisboa "tem a aprender", aos 125€ que não são o “vale alimentar da direita": a entrevista em que Costa se demarcou de todos os "truques"

12 set, 23:47

Em entrevista à TVI/CNN Portugal, o primeiro-ministro lembrou que o caos nas urgências dos hospitais de Lisboa e Vale do Tejo não se verificou a Norte

Uma semana depois de ter apresentado o pacote de medidas anti-inflação, António Costa tentou esclarecer as dúvidas que ficaram pendentes em entrevista exclusiva à TVI/CNN Portugal nesta segunda-feira. O primeiro-ministro negou ter feito quaisquer "truques" ao nível do aumento das pensões e defende que o apoio extraordinário de 125 euros pago em outubro deve ser gerido pelas famílias, demarcando-se assim de uma "visão paternalista" que associou aos partidos da direita. Na saúde, Costa quer que Lisboa siga o exemplo de gestão dos hospitais do Porto e, sobre a crise energética, deixou um aviso a Macron.

Com um verão marcado pelo caos nas urgências, com encerramentos constantes de serviços de urgências de vários hospitais em todo o país, no meio do caos houve uma região que se destacou e que mereceu o elogio do primeiro-ministro: a cidade do Porto. É que, ao contrário do que se passou nas urgências de Lisboa e Vale do Tejo, "o Porto nunca teve problemas", sublinhou António Costa. 

Por isso, "Lisboa tem muito a aprender com o Porto", defendeu Costa. "O Porto tem há muitos anos um sistema de urgência que assegura que o cidadão tem uma porta aberta", vincou.

Costa nega "truques" nas pensões

O aumento das pensões tem marcado o debate político na última semana e essa foi também uma das questões que mereceu um esclarecimento por parte do primeiro-ministro. Questionado sobre o "truque na retórica", António Costa foi peremptório. "Primeiro, não há truque nenhum, nem de retórica nem de coisa nenhuma", salientou, acrescentando que os aumentos das pensões foram anunciados pelo próprio "com toda a transparência".

"No discurso que apresentei, tive a transparência de dizer não só qual o suplemento extraordinário que pagamos em outubro, como anunciar desde já que apresentámos à Assembleia da República uma proposta - que será, aliás, discutida na próxima sexta-feira - para fixar o aumento do montante das pensões para 2023. Se quisesse fazer algum truque, tinha só apresentado o suplemento extraordinário e nada teria dito sobre as pensões do próximo ano, porque só em novembro é que se costuma anunciar qual o aumento das pensões do próximo ano. Eu quis fazê-lo já porque quis deixar claro que íamos apresentar à Assembleia da República uma lei para vigorar em 2023", explicou.

Os 125€ não são o "vale alimentar" da direita

Tal como os aumentos das pensões, o apoio extraordinário de 125 euros a ser pago em outubro também foi tema de intenso debate político e escrutínio na opinião pública. Questionado sobre se os 125 euros servem para as famílias gastarem em alimentação, uma vez que o custo do cabaz alimentar também tem vindo a sofrer com o impacto da inflação, António Costa começou por lembrar que a proposta apresentada pelo PSD, ao contrário da do Governo, abrangia apenas "famílias com rendimentos até 1.100 euros".

Mas o Governo quis ir mais longe e apresentar uma proposta dirigida à pessoa, "não por agregado", e abrangendo também a "classe média até 2.700 euros". "Por pessoa", reforçou. António Costa demarco-se, assim, do que designou por "visão paternalista" de dar este apoio "sob a forma de vale alimentar" - que é, nas suas palavras, uma "lógica de direita".

"As pessoas têm a liberdade de gerir o apoio que o Estado disponibiliza. O vale alimentar é uma lógica de direita na falta de confiança na capacidade de as pessoas se gerirem a si próprias. As famílias sabem gerir os seus recursos", defendeu.

Costa lembra que também paga o mesmo gasóleo para os carros da PSP, GNR e INEM

Na sequência do impacto da inflação, o primeiro-ministro lembrou que "o Estado também paga a inflação". "Nós em combustíveis e em alimentação paga pelo Estado temos mais 596 milhões de euros gastos acima do previsto. Os carros da PSP ou da GNR ou do INEM andam com o mesmo gasóleo, portanto o Estado também está a aumentar a sua despesa", afirmou.

Na sequência destas declarações, Costa foi questionado sobre a possibilidade de implementar um imposto aos lucros extraordinários, ao que respondeu que o Governo "tem vindo a controlar o fenómeno através da ASAE nos preços alimentares", ou seja, controlando se há efetivamente "lucros extra e em que ponto". "Os reguladores têm fornecido informação, sobretudo no setor energético. Analisam se há ou não lucros, se estão ou não tributados no sistema fiscal", acrescentou.

Mediante estas informações, o Governo "nem exclui nem decide" sobre um eventual imposto nesse sentido, resumiu o primeiro-ministro.

O braço de ferro com Macron

A relutância de França em relação ao gasoduto ibérico também foi um dos temas abordados nesta entrevista, com o primeiro-ministro a defender que o presidente Emmanuel Macron deve compreender "que não é possível continuar a bloquear este projeto", que, nas suas palavras, "serve o conjunto da Europa".

"Não é preciso explicar nada ao presidente Macron, ele sabe bem", disse, lembrando que o chefe de Estado francês esteve presente na cimeira das interconexões energéticas, em 2018, em Lisboa, e "aceitou que se desenvolvessem interconexões quer elétricas, quer de gás".

António Costa lembrou que a Comissão Europeia "já disse que lançará a interconexão entre Espanha e Itália" caso a França continue a rejeitar "ser parte da solução". "A minha esperança é que a França compreenda que não é possível bloquear mais este projeto, que é um investimento que serve hoje e amanhã o conjunto da Europa. Espero que o faça o mais rapidamente possível e que não seja necessário o plano B."

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