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Doutor? António Costa. Receita? Realidade. Dose? Homeopática

16 set, 09:52
A entrevista de António Costa à TVI/CNN Portugal na íntegra

Ninguém diria que o António Costa que foi a Leiria há dias avisar os seus deputados dos tempos combativos que aí vêm é o mesmo António Costa que 24 horas depois dava uma entrevista à CNN Portugal em que as dificuldades nacionais pareciam resumir-se à “cassete dos comentadores”, às perguntas dos jornalistas e aos textos do Pedro Santos Guerreiro.

No domingo, o governo parecia ter descido à terra; na segunda-feira, o primeiro-ministro regressava ao seu lado lunar.

Nas jornadas do Partido Socialista, a palavra mais repetida pelo primeiro-ministro foi “responsabilidade”, “responsabilidade”, “responsabilidade”. Perante a maior inflação em 30 anos e uma perda de poder de compra superior ao período da troika, Costa subiu ao palanque com a redução da dívida como prioridade e as agências de rating como trunfo ‒ virando a página, afinal, com uma história idêntica à que veio pôr termo em 2015.

Na entrevista em São Bento, por outro lado, a palavra mais repetida já não foi “responsabilidade”. Foi, curiosamente, “truque” ‒ não para o assumir, mas para o negar. Durante 12 minutos, António Costa fez o que pôde para reestabelecer a sua relação de confiança com o eleitorado pensionista, que muito contribuiu para a sua maioria absoluta em janeiro passado. Ao fim de uma hora, não é claro que tenha tido sucesso.

Em Leiria, se quisermos, o primeiro-ministro teve o seu momento “Winter is coming”, acabou-se a papa doce, não se acanhem que temos maioria absoluta ‒ recomendou aos seus deputados. Os trabalhos parlamentares desta semana refletiram-no, com a bancada socialista a recusar responder à oposição sobre a Segurança Social e a “não aceitar lições” ou questões de quem foi eleito para as fazer.

Na entrevista, Costa foi menos franco com os portugueses do que havia sido com as suas tropas 24 horas antes. A realidade foi servida, mas a conta-gotas. “Fui rigoroso com os pensionistas”, jurou, quando metade deles ainda não percebeu o que lhes vai acontecer em 2024 e a outra percebeu que será exatamente o oposto do que o primeiro-ministro lhes prometeu nos últimos sete anos.

“Temos um problema central, que é a inflação, e é um problema para o qual não há vacina”, afirmou friamente, no comício do Estado-maior do PS.

“Não sou candidato à função”, brincou, bonacheirão, sobre o CEO do Serviço Nacional da Saúde, na entrevista. “Vocês na TVI também vão de férias, não vão?”, riu-se para os jornalistas.

O que explica a mudança de tom do chefe do governo, de um dia para o outro, diante da mesma conjuntura, mas interlocutores tão diferentes?

Há uma imagem que o explica, apesar de lhe faltar a subtileza que caracteriza as melhores metáforas.

A imagem é esta: neste momento, António Costa é uma barragem. De um lado tem uma gigantesca massa de água, a que podemos chamar “realidade”. Do outro tem uma pequena aldeia indefesa, a que devemos chamar “portugueses”. O que separa um do outro é a passagem do tempo que se aproxima e a narrativa que o governo emite. Costa controla uma e espera pela outra. A inevitabilidade da sua chegada ‒ o aumento das taxas de juro, os cortes definitivos na despesa do Estado, a perda de poder de compra sem precedentes desde a entrada no euro ‒ faz com que o primeiro-ministro, a cada aparição, seja forçado a abrir as comportas e aliviar a pressão da albufeira – isto é, da realidade.

Até na conversa com José Alberto Carvalho e Pedro Santos Guerreiro foi obrigado a fazê-lo. As negociações com a função pública para os aumentos do próximo ano terão 2% como valor-base, anunciou Costa, vários pontos abaixo das estimativas de inflação para 2023 (7,3%). Segundo as contas de economistas como António Nogueira Leite, tal resultará numa perda acumulada ‒ e definitiva ‒ de 9% a 11% do seu poder de compra. E esses números ilustram bem a situação ingrata em que António Costa se encontra: entre a coerência política, de um lado da barragem, e a necessidade orçamental, do outro.

O pacote de medidas para as famílias, que vinha relançar o governo após um começo atribulado, acabou transformado num corte nas pensões. A entrevista dada para resolver esse imbróglio trouxe outro corte, mas para os funcionários públicos, de cerca de um salário por ano. E a indexação das prestações sociais, previsivelmente, será o próximo balde de água fria.

Por mais habilidosa que seja a barragem, para não desabar tem de descarregar.

Para um governo que se colou à imagem de sair por cima das crises ‒ do défice excessivo aos incêndios, da pandemia à guerra ‒, a inflação é um desafio como nenhum outro: expõe fragilidades que obrigam a más notícias, não provocadas pelo acaso ou por outrem mas tomadas pela mão do governo. Com os pensionistas, a realidade transbordou. Com os funcionários públicos, escoou. E com todos os outros?

António Costa, na sala das máquinas, irá decidindo.

Depois de sete anos de otimismo irritante, teremos quatro de realismo itinerante.

Ou, no fundo, de gestão da barragem.

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