Ucranianos já tinham alertado Costa há dois anos sobre ligações perigosas a Putin

11 mai, 07:00
António Costa (Lusa/José Sena Goulão)

Numa carta aberta, os imigrantes explicaram, em 2020, que havia associações que representam a comunidade ucraniana que tinham ligações ao regime do presidente Russo. O aviso surgiu em sequência de uma série de apelos deixados a vários organismos governamentais, em que pediam que houvesse intervenção. "Nunca fizeram nada", sublinha Pavlo Sadoka

As movimentações das organizações com ligações a Putin, em Portugal, e a sua infiltração no organismo que representa a comunidade ucraniana foi denunciada numa carta aberta ao primeiro-ministro, António Costa, em 9 julho de 2020.

Nessa altura - já depois da anexação da Crimeia - a Associação dos Ucranianos em Portugal (AUP) decidiu alertar o líder do Executivo para os riscos de o Alto Comissariado para as Migrações (ACM) reconhecer como representantes dos imigrantes ucranianos pessoas e associações que na realidade estavam “diretamente ligadas à Embaixada da Federação Russa em Portugal e a instituições estatais russas como “Russkiy Mir” e “Rossotrudnichestvo” - organismos de propaganda do Kremlin.

Na carta aberta ao primeiro-ministro, cuja uma cópia foi enviada, entre outros, à secretária de Estado para a Integração e Migrações, alertava-se as autoridades para o facto de aquelas organizações com ligações a organismos de Putin serem “oficialmente reconhecidas pelo ACM como representantes da comunidade ucraniana”, o que “preocupa porque substitui a opinião dos russos pela a dos ucranianos”.

Tendo em conta o crescimento da tensão entre Rússia e Ucrânia e a guerra que se iniciara em 2014, na missiva recordava-se ainda que o próprio Parlamento Europeu tinha aprovado, em 2016, uma resolução em que apelava “às instituições europeias e aos 28 Estados-membros para reforçarem medidas contra a guerra de propaganda e de desinformação" levada a cabo pela Rússia na Europa, nomeadamente através da Fundação Russkiy Mir.

Esta resolução, segundo adiantou à CNN Portugal o eurodeputado Paulo Rangel que votou a favor, surgiu no seguimento de terem sido obtidas evidências de que havia uma estratégia de desinformação em que a fundação Russkiy Mir tinha papel ativo.

O presidente da Associação dos Ucranianos em Portugal, Pavlo Sadhoka, garante que nunca recebeu qualquer resposta do Governo. “Ao longo dos anos, fomos avisando as várias entidades para o que se estava a passar, mas nunca fizeram nada”, acusa Pavlo Sadhoka, explicando que os avisos se intensificaram depois da anexação da Crimeia e da colaboração desta Fundação Russkiy Mir com associações presentes no Conselho para as Migrações, o órgão responsável por apoiar e participar na definição das linhas gerais do Alto Comissariado para as Migrações em Portugal.

“Denunciamos tudo ao Alto Comissariado das Migrações” e a outras entidades nacionais e por isso o “nosso maior enigma é perceber porque razão nunca fizeram nada”, diz o presidente da Associação dos Ucranianos em Portugal, sublinhando que os avisos a organismos do Estado português já têm onze anos.

Como explicou esta terça-feira Pavlo Sadhoka no Parlamento, as denúncias ao Alto Comissariado para as Migrações começaram a ser feitas já em 2011. Nesse ano, segundo explicou à CNN Portugal, a AUP até pediu para que a comunidade de imigrantes onde os ucranianos estavam representados deixasse de ser chamada de “comunidade de Leste”, como sucedia até então. “Se os brasileiros, os cabo-verdianos, etc tinham a sua comunidade, os ucranianos também deviam ter a sua própria denominação e não estar integrados numa entidade de leste”. O pedido foi aceite e passou, então, a existir uma comunidade de ucranianos no Alto Comissariado para as Migrações. “Mas depois a situação piorou”, explica o líder da associação dos ucranianos, dizendo que algumas entidades com ligações à Rússia começaram logo aí a tentar infiltrar-se.

E foi assim que, explica Pavlo Sadhoka, no Conselho para as Migrações, que representa a comunidade ucraniana no ACM, muitas das associações que foram sendo aprovadas por esta organismo tinham ligações à Rússia e àquela Fundação Russkiy Mir. Desde então os alertas e denúncias sucederam-se.

Em novembro de 2017, por exemplo, já depois da anexação da Crimeia pela Rússia, a Associação de Pavlo Sadhoka enviou uma carta ao ACM a denunciar que a Associação MIR, uma das ONG tidas por este órgão do Estado como representantes da comunidade ucraniana, tinha sido “uma das organizadoras de um evento dedicado a vitória (da Rússia) na Segunda Guerra Mundial”. E alertou ainda o ACM que durante este evento também conhecido como “Regimento Imortal”, a associação MIR apoiou “as repúblicas auto-proclamadas separatistas de Donetsk e de Lugansk assim como, a anexação da Crimeia”.

Entre outras várias tentativas há uma em 2020, em que Pavlo Sadhoka escreveu para o mesmo ACM garantindo que havia associações que têm ligações à Rússia que estavam a “falsificar a história e cultura ucraniana”, ao mesmo tempo que “recebem do estado Português apoios para desenvolver este trabalho discriminatório”.

Aliás, em 2020 a AUP recusou participar na eleição do representante daquele conselho - que de dois em dois anos elege um representante de todas as associações - por “saber que seria um dos que tinha ligações aos russos a ser eleito”, uma vez que eram mais as associações que detinham relações com a entidades russas, contra as duas associações que eram as únicas reconhecidas pela Embaixada da Ucrânia, explicou Pavlo Sadhoka à CNN Portugal.

Ainda que tenham sido feitos diversos avisos, tanto na carta aberta ao primeiro-ministro (publicada no site da AUP), como nas várias enviadas ao Alto Comissariado para as Migrações, Pavlo Sadhoka garante que a única vez que conseguiu ser ouvido por elementos de um organismo do Estado foi no dia 4 de abril de 2022, quando se reuniu, em formato online, com o Conselho Diretivo do Alto Comissariado para as Migrações para abordar o tema das associações pró-russas estarem a participar no acolhimento de refugiados ucranianos em Portugal. 

Já esta terça-feira, na Assembleia da República, a Alta-Comissária para as Migrações, Sónia Pereira, referiu que o organismo "não tem enquadramento legal nem forma de averiguar este tipo de situações", incluindo se pessoas "têm ligações a Putin".

Contudo, foram tomadas medidas por indicação da ministra Adjunta e dos Assuntos Parlamentares, nomeadamente deixarem de aparecer o nome das associações reconhecidas pelo Alto Comissariado no website "SOS Ucrânia", tutelado pelo ACM. "Foram dadas instruções para que os procedimentos fossem mudados, ou seja, que as listas que o ACM tinha no SOS Ucrânia para acolher as pessoas que aqui chegassem pudessem não existir e fizesse um link direto para a embaixada da Ucrânia", explicou Ana Catarina Mendes, ouvida na Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias no Parlamento.

À CNN Portugal, o Alto Comissariado para as Migrações garante que foi enviada informação “para as entidades competentes” relativa a associações com suspeitas de terem “ligações ao Governo russo”, sublinhando que os elementos foram recolhidos no âmbito de contactos com a embaixada da Ucrânia em Portugal e com a Associação dos Ucranianos em Portugal, com os quais o Alto Comissariado diz ter abordado “vários assuntos", nomeadamente a "alegada existência de Associações de Imigrantes reconhecidas pelo ACM com ligações ao Governo russo”.

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