"Vendemos coisas que amamos". Em Paris, um mercado de livros com 475 anos resiste à mudança

CNN , Cecilia Laurent Monpetit e Philippe Cordier
3 jan, 09:00
Uma mulher folheia livros antigos e cartazes antigos expostos em bancas ao longo das margens do rio Sena, em Paris, a 12 de agosto de 2023. Miguel Medina/AFP/Getty Images

Os bouquinistes de Paris são uma presença constante ao longo das margens do Sena e estão determinados a manter viva a sua profissão

Horários flexíveis, ser o seu próprio patrão, ar livre e vistas para Notre-Dame - é um trabalho com muitos atrativos. Os bouquinistes de Paris são uma presença constante ao longo das margens do Sena há cerca de 500 anos e estão determinados a manter viva a sua profissão.

“É a minha vida, não é apenas um trabalho”, afirma à CNN Sylvia Brui, de 76 anos, que vende livros antigos há oito anos no Quai de Conti. “Vendemos coisas que amamos.”

A história dos mundialmente famosos livreiros de Paris remonta a 1550, quando uma dúzia de vendedores ambulantes se instalou na Île de la Cité, no coração da capital francesa. O negócio ganhou impulso com a construção da Pont Neuf, em 1606, a primeira ponte sem edifícios no topo, oferecendo um vasto espaço para novos vendedores de mercadorias portáteis.

No início dos anos 1900, a cidade padronizou o aspeto icónico das bancas: os vendedores trabalhavam em caixas de metal pintadas com a mesma cor “verde camião”, e as suas tampas abertas foram concebidas para preservar as vistas da margem do rio. Atualmente, cerca de 230 livreiros estendem-se ao longo de aproximadamente três quilómetros do Sena, oferecendo livros antigos e contemporâneos, gravuras, selos e revistas.

É um cenário único para apreciar a palavra escrita: uma linha de edifícios históricos em pedra enquadra esta livraria ao ar livre.

Compromisso com os livros

Jérôme Callais, presidente da Associação Cultural dos Bouquinistes de Paris, transporta livros na sua banca ao longo da margem do Sena, em 2023. Sophie Garcia/AP

Os livreiros não pagam impostos nem renda, mas têm de cumprir regulamentos rigorosos. Os lugares vagos são atribuídos e regulados pela Câmara Municipal de Paris através de uma comissão dedicada. Os candidatos têm de apresentar um currículo e uma carta de motivação explicando os seus planos.

“É preciso mostrar o seu compromisso com os livros”, explica à CNN Jérôme Callais, presidente da Association Culturelle des Bouquinistes de Paris. Doze novos livreiros foram nomeados em outubro de 2025.

Cada licença de ocupação é concedida por cinco anos. Os livreiros têm de abrir as suas bancas pelo menos quatro dias por semana, exceto em caso de mau tempo. Estão autorizados a vender livros antigos, livros em segunda mão, papéis antigos e gravuras. Podem acrescentar uma pequena seleção de outros artigos — como moedas, medalhas, selos antigos e postais — desde que não excedam o conteúdo de uma única caixa.

“É preciso ter experiência, ser conhecedor”, afirma Callais. “Não é surpreendente que a maioria dos livreiros tenha mais de 50 anos, cerca de 80%.”

Entre esse grupo mais velho está o novo bouquiniste Ozan Yigitkeskin, que planeia oferecer uma seleção de livros multilingues. Decidiu abrir uma loja na margem aos 52 anos, depois de ter trabalhado como vendedor de livros online. "O meu primeiro emprego foi vender livros de bicicleta em Istambul, aos 15 anos. Também fui datilógrafo e jornalista, e continuo apaixonado por livros."

Yigitkeskin sabe quão frágeis podem ser as pequenas livrarias, constantemente a lutar para pagar a renda — um problema que, diz ele, não terá como bouquiniste.

Há seis anos, Camille Goudeau, hoje com 35 anos, abriu a sua própria banca especializada em ficção científica e fantasia no Quai de l’Hôtel de Ville, depois de passar anos a trabalhar para outros livreiros.

“Trabalho com livros em segunda mão a preços acessíveis para incentivar pessoas que não leem, ou leem muito pouco, ou deixaram de ler, a voltar a ler”, refere à CNN.

“Já tive uma mulher de 30 anos assim, que não se atrevia a entrar numa livraria”, acrescenta a também livreira Sylvia Brui. “Comprou aqui o primeiro livro: ‘O Velho e o Mar’. Depois leu Joyce. Agora vai a livrarias.”

Sondagens do IPSOS/CNL sugerem que os leitores franceses têm comprado mais livros em segunda mão na última década, sendo os jovens entre os 25 e os 34 anos os que leem mais livros por ano, em média.

Trabalhar ao ar livre: liberdade e ligação humana

Atualmente, cerca de 230 livreiros estendem-se ao longo de aproximadamente três quilómetros do Sena, oferecendo livros antigos e contemporâneos, gravuras, selos e revistas. Kiran Ridley/Getty Images

Os livreiros trabalham ao ar livre durante todo o ano, muitas vezes com pouco mais do que uma cadeira dobrável para conforto e uma pequena mesa que serve simultaneamente de secretária e balcão. Porquê escolher esta vida em vez do conforto de trabalhar numa loja?

“Não gosto de estar fechada em espaços interiores e tenho dificuldade em trabalhar para outra pessoa; ser bouquiniste permite-me ser completamente independente”, explica à CNN Camille Goudeau.

“É uma forma muito direta de nos ligarmos às pessoas”, acrescenta Goudeau. As bancas são “um refúgio para algumas pessoas para quem esta é a caminhada diária, a sua única interação diária”.

Esses momentos de ligação humana fazem toda a diferença, confessa Claire Leriche, livreira há 15 anos. “Quando as pessoas compram três postais e eu lhes mostro o selo, explicando que foi enviado em 1904, ficam felizes porque há uma pequena história associada.”

Laura Contreras, 26 anos, estudante de literatura que investiga as cartas de Simone de Beauvoir, vem frequentemente às margens, sobretudo para comprar obras filosóficas e ensaios. “Há valor histórico; cada peça tem a sua própria história”, diz.

Marie-Samuelle Klein, 23 anos, também vem regularmente. “Adoro porque encontramos sempre preciosidades”, afirma. “Gosto de livros quando são antigos, do cheiro. Há algo de simbólico nisso, saber que muitas pessoas o leram antes de mim.”

O antigo ameaçado pelo novo?

Cada licença de ocupação é concedida por cinco anos. Os livreiros têm de abrir as suas bancas pelo menos quatro dias por semana, exceto em caso de mau tempo. Kiran Ridley/Getty Images

Confrontados com a mudança — seja ela os livros digitais ou os vendedores de livros online — os bouquinistes estão determinados a sobreviver.

“Cabe-nos a nós fazer com que as pessoas venham”, diz Jérôme Callais. “Aqui há comunicação olho no olho entre seres humanos. Oferecemos um oásis de humanidade e cultura.”

A ameaça mais recente veio de um lugar inesperado: os Jogos Olímpicos de Paris 2024.

Estão autorizados a vender livros antigos, livros em segunda mão, papéis antigos e gravuras. Podem acrescentar uma pequena seleção de outros artigos, desde que não excedam o conteúdo de uma única caixa. Miguel Medina/AFP/Getty Images

Os bouquinistes tiveram de lutar contra a deslocação antes da cerimónia de abertura espetacular dos Jogos, realizada ao longo do Sena. Um clamor público ajudou-os a manter a sua posição no centro de Paris.

“Todos os anos, as pessoas dizem: ‘Meu Deus, é terrível, os livreiros estão a desaparecer’”, conta Camille Goudeau a partir das margens do Sena. “Mas, na verdade, ainda estamos aqui, e espero que aqui continuemos por muito tempo.”

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