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Colunista e comentador

O espanador de Fernando Santos já não limpa o pó, só suja e… não belisca!

30 set, 10:38
Fernando Santos no Portugal-Espanha

Rui Santos escreve sobre a eliminação de Portugal da ‘final four’ da Liga das Nações, e diz que isso não seria grave se todos tivéssemos a sensação de que a Seleção Nacional está a ser bem orientada. Não está. Vivemos (até 2024) o tempo do embalsamamento

O afastamento de Portugal da final four da Liga das Nações foi surpreendente porque só era necessário um empate para garantir o apuramento e a Espanha neste momento não é o papão que foi noutros momentos da sua história até recente.

Mesmo no Europeu que vencemos, em 2016, já assinalava que Portugal tinha entrado numa fase de aumento de qualidade (em quantidade) dos jogadores e que FERNANDO SANTOS havia servido, principalmente, para gerar alguma bolsa de estabilidade à volta da FPF e do presidente FERNANDO GOMES e da necessidade de afirmar CRISTIANO RONALDO como líder indiscutível da equipa das quinas, sob a ‘magistratura’ de JORGE MENDES.

Estas coisas ditas assim, em contramão com os empolgamentos e a master class da indústria, não são benquistas e verbalizadas à margem das construções dialécticas ainda consentidas pelo establishment, mais em forma de painel clubístico, mas estão a gerar intolerância perante aqueles que acham um abuso perguntar.

É quase tão mau quanto a obrigação de se ter de usar um véu.

Em Portugal, no entanto, mistura-se tudo. Ou se está com ou se está contra. É bom ter-se a noção, no entanto, de que FERNANDO SANTOS ajudou a estabilizar a FPF e ajudou (com amizade) FERNANDO GOMES a protagonizar um magistério de influência, até junto da classe política, que lhe foi muito útil para consolidar a sua imagem de dirigente desportivo, um pouco à margem das maleitas da nossa indústria.

Poucos são capazes ou têm a liberdade para reconhecer que FERNANDO SANTOS foi muito útil à FPF e, por consequência, ao futebol português, mas ao mesmo tempo reconhecer que o espanador do selecionador nacional, que outrora ajudou a limpar, hoje só suja…

E porquê? Porque se acomodou e não é capaz de, através do seu estatuto de campeão europeu (aqui não interessa a valoração da sorte ou do azar, porque o facto da conquista do título histórico supera isso tudo), dar um murro na mesa e impor aquilo que todos nós vemos.

Há jogadores que já perderam o lugar mas ainda entram nas escolhas (o caso da persistência em MOUTINHO, estendido até muito recentemente, é talvez o exemplo máximo do conservadorismo), e há jogadores que não entram nas contas, talvez para se continuar a encaixar CRISTIANO RONALDO custe o que custar, a não render o que poderiam render.

RAFA é apenas um pormenor e atirar-nos-ia para outro capítulo desta crónica.

Esta mais recente declaração de FERNANDO SANTOS sobre se o desenlace na Liga das Nações poderia beliscar o seu percurso na Seleção Nacional diz muito no que concerne à realidade do tempos de hoje: “belisca, porquê?! Tenho contrato até 2024!”

FERNANDO SANTOS acha que perder “no último minuto” é uma atenuante quando não é. E quando o tema também não é (in)gratidão.

Um seleccionador nacional, que ganha milhões, e tem uma vida muito facilitada (muito mais facilitada do que um treinador de clube), não se pode comparar a nenhum trabalhador, independente ou agregado a quadros, aos quais também se exigem resultados ou capacidade de resposta, mediante determinado tipo de exigências.

FERNANDO SANTOS é o primeiro seleccionador da história do futebol português que não tem problemas de matéria-prima.

FERNANDO SANTOS é o primeiro seleccionador da história do futebol português que beneficiou da revolução infra-estrutural - de que tantos foram vítimas —, até da construção de uma Cidade do Futebol, e da total emancipação do jogador português no espaço e nas grandes Ligas internacionais.

Toda a gente já percebeu — disse-o no último “Rui Santos Em Campo” — que há uma espécie de embalsamamento até 2024.

2024 é o ano em que FERNANDO SANTOS termina o contrato com a FPF.

2024 é o ano em que FERNANDO GOMES acaba o mandato como presidente da FPF, embora o condicionamento da delimitação de mandatos não seja, a meu ver, uma questão totalmente encerrada (a ver se não vamos ter, entretanto, um ‘golpe de teatro’ neste domínio…).

2024 é o ano em que, a meio do percurso, CRISTIANO RONALDO estará perto dos 40 anos de idade.

Portanto, nós estamos na era de um certo “embalsamamento vivaz” e o respeito que merecem os protagonistas gerou esta sensação de consentimento patriótico.

Só resta olhar para a ampulheta e o único problema disso é que esta nossa Seleção, cravada de diamantes (a metáfora deve ser contextualizada e não se pensar que são todos foras-de-série), está a desperdiçar talento a rodos. Porque a cúpula está embalsamada.

O selecionador nacional seria capaz de um gesto altruísta e perceber que os portugueses esperam neste momento uma Seleção mais ambiciosa, aproveitando até a crise que se vive nas principais seleções europeias e até mundiais?

Belisquem-me, sff!

É preciso acordar para a realidade e a realidade aponta para um reino extremamente sossegado mesmo no meio de um enorme desassossego.

NOTA - Foi preciso a imprensa espanhola dizer que “Portugal tem mais jogadores do que treinador’ para haver uma certa concordância nacional. Permitam-me lá um desabafo pessoal: disse o mesmo durante o Europeu que ganhámos ( e depois disso) e fui “intelectualmente espancado”. Tenho de acabar com esta mania de antecipar e ver depois os outros a repetir as ideias ditas fora de tempo. Neste país, mais vale ser relógio de repetição quando é fácil fazê-lo do que chamar a atenção das realidades em contramão. É fa(r)do!

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